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Eu poderia descrever minha vida tão bem... Mas prefiro contar a verdade. Nasci e cresci como qualquer um de vocês. Não morri, como você esperava, mas essa parte que começa a me preocupar. Como qualquer ser vivo, eu já estive prestes a perder minha vida. Só prestes.

Entre os momentos que estive nesta situação, está a vez que houve um tiroteio. Algo sobre um grande e importante banco sendo assaltado por homens fortemente armados. Eu não estava dentro, estava fora vendo o movimento da polícia. Um dos assaltantes, um completamente psicótico, que se abrigava na cobertura do banco, um prédio de três andares não conseguiu se conter e mesmo com tratos sendo feitos entre a polícia e o líder deles, começou a atirar com seu rifle de precisão nos policiais e em quem aparecesse. Sua mira era certeira, e ele se engraçou com minha cara quando finalmente me viu. Se primeiro tiro em direção a minha cabeça foi perfeito. Ele vinha em minha direção com toda potência de que precisava para estourar minha cabeça.

Seria coincidência? Algo como isso acontecer? Ou de repente a morte resolveu jogar comigo? Acreditem ou não. Este tiro foi desviado pelo corpo de um pombo que morreu em pleno voo e caiu exatamente naquela trajetória a uns 5 passos de onde eu estava. Tive que limpar o sangue e as penas de meu rosto antes de ver o buraco que o projétil fez perto de mim. Eu não queria morrer, não quero ainda, e não sei se posso. Porque? Exemplificarei com o segundo projétil.

O assassino se irritou. Ele não gostava de errar. Gritou como se eu tivesse roubado algo dele. Recarregou enquanto eu corria. Corria desenfreado, o medo assolava meu interior. Ele estava armado querendo me matar e eu não podia me defender. Ele fez mira a minha frente para acertar enquanto eu estava em movimento. Eu não tinha tempo para pensar e corria apenas para frente, sem conseguir pensar em me esconder.

Então o tiro. O tiro veio falho, mas ainda sim me acertaria. Tropecei em uma lata vazia. Foi ai que percebi, que da rua tangente a onde estava vinha um carro em minha direção. Não estava pensando suficiente como já determinei e o carro estava perto de mim. O tiro acertou o carro quando tropecei. O ricochete matou o motorista que estava preocupado demais em buzinar. Talvez por isso apenas a mão esquerda dele estava no volante, e talvez por isso o carro virou exatamente onde eu estava, jogando a carroceria contra mim enquanto eu levantava, me atirando contra uma parede de tijolos, mas não explica porque o carro parou como se me protegesse me abrigasse do assassino, a exatos 50 centímetros da parede, tanto as rodas da frente quanto as detrás.

O assassino? Seu grito denunciou sua posição. O grupo tático  da polícia tinha homens bem posicionados mas o único que conseguia ter certa visão dele era um homem que apenas enxergava sua mão no gatilho. E ele arriscou um disparo para incapacitar o atirador. Disparo este que acertou a mão do assassino, no exato minuto que havia atirado.

Desde dia em diante eu comecei a perceber certos impasses, certas coisas que acontecia a meu redor. Percebi que passava nas ruas perigosas, mas nenhum assaltante, marginal ou sequestrador estava disponível para me fazer algum mal. Percebi que todas as vezes que eu colocava os pés em uma rua movimentada, o sinal fechava bem a tempo de salvar minha vida.

Uma vez um homem mal intencionado atacou um executivo de terno e gravada próximo a mim. Isto em um viaduto no qual eu sempre era obrigado a passar para chegar em casa. E eu cai. Estava, como sempre, muito movimentado. Carros de todas formas e tamanhos. Ônibus, caminhonetes motos, mas eu cai justo na carroceria de um caminhão de lixo.

Ainda não é o suficiente pra você? Suficiente... como se isso fosse provar alguma coisa. Mas contarei assim mesmo. Não estou aqui para falar de outra coisa.

Uma vez o elevador onde eu estava caiu. Os freios de emergência, por displicência do encarregado, estava enferrujado. Quando chegou ao chão, o impacto fez a estrutura do elevador distorcer. As três pessoas que estavam comigo morreram. E como se fosse por mágica, a distorção da estrutura fez em torno de meu corpo quase que um escudo de destroços e sangue. Como se até o metal se contorcesse para me proteger.

Não sei. Começo a me preocupar. Não sei o que acontece. Não quero me matar, mas não quero ter a certeza de que continuarei vivo em qualquer situação. É como se eu não tivesse escolha. Como se algo me protegesse.

Desde que descobri minha... maldição, tenho sentido isso no peito. Algo em mim cresce a cada dia. Como, durmo, falo, estudo trabalho como você. Mas o que essa condição me torna?

Todos os dias que acordo consigo sentir ainda mais as pessoas que estão ao meu redor. Posso saber o que elas sentem...

Meu nome é Raniery, e eu não posso morrer. Você que está lendo, não deveria estar fazendo outra coisa?



Comentários  

0 #1 RE: Não posso morrerlucas moraes 30-11-2010 18:49
É, gostei mto.
A história é interessante e a narrativa da aquela vontade de continuar lendo!
=D
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