As noites banhadas pelas Luas Cheias sempre produzem um efeito devastador nos humanos. Os enamorados, suspeitamente, eu diria, descordariam disso. Já as criaturas da noite, essas, resvalam-se em seu afago.
A silhueta perfeita da mulher só não era mais desejável que o seu andar cadenciado, inapropriado e ardente. Ela transitava noite adentro com suas armas sempre certeiras e em extremo fatais:
“Cabelos ruivos e cuidadosamente penteados, lábios rubros (marcados com a cor do desejo) e olhos vidrados da cor do azul do mar, dissimulavam a sua real intenção. A pele? Alva como um mármore alvejado“.
Linda, ela entrou no bar. Perceptível, ela entorpeceu os que ousavam ser seus expectadores, pois diante de um ser tão desejável, a única e talvez a mais conveniente das alternativas era vislumbrá-la e reverenciar a sua beleza.
Seu molejo no andar demonstrava que sua intenção estava além de bebericar alguns drinks. Ela logo se assentou na banqueta próxima ao balcão e com um gestual desconcertante e puramente insidioso, cruzou as pernas a espera de alguém que lhe oferece uma bebida.
Alguns homens mais corajosos se aproximaram, motivados pelo seu ritual breve, porém, elucidativo. A todos recusou. Talvez ela estivesse esperando por alguém, era o que alguns comentavam entre si. Até que ele chegou...
Ele não tinha muitos atrativos, quiçá uma postura que condizesse com a proponente que estava a sua espreita. Isso seguramente não a incomodou. Sentou-se despretensiosamente ao seu lado com a face turbada. Olhos marejados deixavam escapar uma dor insistente, latente e irremediável que gritava em seu semblante, essa, ela fez questão de ignorar.
Porém aproximou-se com um olhar cúmplice e, contrariando às expectativas dos que estavam no recinto, ofereceu-lhe uma bebida. Foi neste momento que ele a contemplou...
Os olhos da mulher eram perturbadoramente cobiçosos e, ao seu modo, o constrangeram além da medida. Após alguns momentos de pura indecisão, ruborizado e gaguejante o homem disse:
- Por favor, eu devo lhe oferecer uma bebida.
Um sorriso inapropriado marcou o rosto da mulher, enquanto o homem esforçou-se para esboçar em seu rosto algo que escondesse a sua tristeza. Ela, mais uma vez, pareceu não se importar.
Continuando com o seu ritual, ela segurou firmemente as mãos do homem que estavam descansadas sobre o balcão. Foi nesse exato instante que o tempo congelou...
O som das asas batendo foram ouvidas pela mulher, como também o estrondo da entrada do anjo no recinto em grande fulgor. Com o rosto de decepção e ódio, ela logo tratou de se esquivar.
- Ora, ora, ora, Daniel! Você num lugar como este? Venhamos e convenhamos, você está muito longe de seus domínios!
- Prazer em revê-la, Saf ira. Mas sinto-lhe dizer que não senti a sua falta.
- Ora Anjo, diga logo a que veio! A vampira disse isso próximo aos lábios do anjo Daniel, insinuando tocar em seus lábios.
- Você não pode tocá-lo! Ele não será a sua refeição, Safira!
A face bestial do monstro finalmente apareceu: - Você acha mesmo Daniel que pode me deter? O humano adentrou sozinho no recinto, ele desejou a morte e eu apenas vim atender aos seus apelos, você não pode interferir!
- Não me provoque Safira! Disse isso refulgindo com uma luz muito brilhante. A vampira esquivou-se de pavor.
- Vá agora e deixe o homem, ele não pertence a você.
O anjo saltou para o céu e o tempo voltou a correr. A mulher levantou-se com um olhar fulminante para todos, olhou firmemente para o homem que estava assentado ao seu lado e disse:
- Hoje é o seu dia de sorte, aproveite-o enquanto pode.
Virou-se para outro que estav a assentado na penumbra e disse:
- Venha comigo!
O homem a seguiu como um cachorro obediente. Ela o envolveu pela cintura e lambeu a sua face demoradamente, enquanto olhava para o pobre homem que ainda estava assentado na banqueta do bar a fitando desconcertado. Piscou para ele, então partiu, levando consigo o pequeno regalo (o lanche da meia-noite, afinal a noite estava apenas começando...)