Trecho do Diário de Lottar Gan Amon:
“Por acaso, vil criatura, em tua alma inumana, já habitou qualquer sombra de bondade? Então, responda-me:
Que deus cruel te permitiu assombrar minha janela tão impunemente?
Oh, e por que demora tanto o bondoso sol para vir com seus raios assassinar esta maldita noite e levar-te com ela?
A quem tu serves, ser pernicioso, e para que mestre te curvas? Que poder nefasto te governa?
És o espectro de minha consciência? Um filho de meu delírio? Escapastes de algum pesadelo? Ou, não serias, apenas, o arauto daquela a quem tanto espero e que chamam de morte?
Por ventura, viestes cobrar a justa paga por minhas ações? Se assim é, diga-me: quem, com que direito, nomeou-te juiz de meus atos?
O destino agraciou-me com mais dinheiro, e poder do qualquer outro de minha geração. E o que não me foi dado, eu, avidamente e por todos os meios, tomei, pois esta é minha natureza. Devo ser punido por isso? Se atrocidades cometi, se pecados que ofenderam os céus vieram de minhas mãos, os deuses assim o permitiram. Não seriam eles tão culpados quanto eu?
Ó forma diminuta, ó homúnculo infernal! Soturna criatura, produto da noite e da maldade, tua essência é a mesma das coisas funestas. A luz divina pode brilhar por toda a parte, mas renega a ti! Tuas feições distorcidas enchem minha alma de asco, horror e desespero.
Responda-me! O que tanto me contemplas (com esses horríveis olhos, pálidos, fixos e abissais), tu, que tanto ris sardonicamente, ao pronunciar meu nome? O que desejas, por que estás aqui e aqui permaneces?
Ao menos, explica-me esse prazer sádico, esse regozijo nefando, que sinto escapar de ti, por estares a cumprir alguma missão tão sombria que apenas ouso conjecturar, mas não definir!
Imploro a qualquer deus que ainda me escute:
Tudo que possuo eu daria e também minha alma, se algum valor isso realmente tem, para conhecer teus macabros propósitos e expulsar-te daqui!”
(Nota: o cadáver do bilionário Lottar Gan Amon foi encontrado no chão de sua casa de praia no Guarujá, em 28 de julho de 2010. Na sua mão direita, estava uma página manuscrita com o texto acima, que foi arrancado por ele de seu diário pessoal, o qual podia ser visto, ainda aberto, numa escrivaninha próxima. A causa mortis não pôde ser determinada)
Dedicado a Marina Ávila