Banner
(0 votes)

O vento soprava forte por entre as árvores indicando que o inverno já se fazia presente, apesar do tom outonal que de dia a floresta apresentava.
Ela suspirava toda vez que sentia a brisa gélida tocar a sua pele. Mas sentia-se impulsionada a atender o seu chamado. Sua música era tão envolvente e aquecedora que podia ser ouvida a longas distâncias. As notas eram perfeitas, de tal forma que jurava poderem ser palpáveis.
Não tinha medo. O amou desde o primeiro instante que o viu, soube ali que morreria por ele, mesmo que ele fosse o seu algoz.

A noite não estava tão escura e as sombras apenas a circundavam. O ser, ao vê-la, sorriu lindamente. Ela era o amor de sua vida, aquela que esperou por anos. Durante séculos ele procurou e esperou por ela. Jurou para si mesmo por tudo que já acreditou um dia, que jamais a prenderia, não levaria ela junto de si. Só que agora, vendo-a tão linda, pronta a entregar-se a ele sem preocupar-se com sua monstruosidade, não possuía mais esta certeza. Seu coração encheu-se de dúvidas.

E se ela estivesse ali para negá-lo, traí-lo? E se não o amasse? Se estivesse com medo dele?... Tinha a consciência que fisicamente não. Era muito jovem e belo para poder amedrontar alguém, sabia que sua beleza exterior o tornava agradável aos olhos de quem o visse. Só que ela o conhecia, inexplicavelmente ela conhecia seu mistério, seu segredo. Soube o que ele era no mesmo instante que o viu. E mesmo assim o amou.
Ou será que apenas sentiu? Talvez ela não tivesse noção do que ele era na realidade. O amou pela beleza e charme, mas não em sua essência.
Sentiu seu âmago corroer ante estes pensamentos. Pela primeira vez em eras intermináveis, sentiu medo. Medo de perder aquilo que nem mesmo veio a ter. A mulher, o amor, a liberdade...

Era isso que além de tudo ela significava: “LIBERDADE!”-gritou ele em pensamento.

Sentiu culpa. De tempos em tempos ela vinha e penetrava em sua mente. Sabia que tinha sua porcentagem de vida a cada alma que aprisionava. “A canção do umbral” embriagava todos que a ouvissem. Porém, não foi assim com ela. Não conseguiu atingir sua alma. Ela, no entanto, conseguiu fazer com que ele lhe entregasse o coração.
Sua maldição seria eterna. Seu destino era aprisionar as almas de quem não merecesse viver. Apesar que as almas que tomava, em sua maioria, nem o inferno as queria, sua atitude não deixava de ser a de um assassino. Muitos eram infanticidas, pedófilos, matricidas, e existiam também aqueles que usavam de má fé levando outros a erros incorrigíveis e deleitavam-se vendo a imundícia alheia em que foram coadjuvantes. Ah! Mas talvez nenhum desses fosse mau realmente, na grande maioria existia o fato do ambiente em que foram criados, Pais omissos, mães promíscuas, drogas, caráter fraco. Mas não maldade. Com os que de alma ruim o prazer na música era maior. Seu Prazer era muito maior quando uma alma puramente má era aprisionada e a certeza de vários anos serem acrescentados a sua já longínqua existência. Mesmo sabendo que livrava o mundo desses seres infames, sua culpa não diminuía. Isso não o tornava melhor que qualquer um deles, porque como eles, também sentia prazer em seus atos.
Nunca tocara a mesma melodia.

De quinquênio em quinquênio  perambulava pela terra destilando aos maus sua melodia infernal, a cada cinco décadas apenas uma melodia seria tocada, a cada meio século a terra ouvia o seu chamado e os maus rendiam-se a ele.

Por mais de três mil anos recusou-se a condenar alguém a carregar seu fardo. Fardo este que ele mesmo atraiu para si, com seus desejos infames.

Mas agora ela existia. A dona de seus sonhos em eternais desejos contidos. E ele precisava encontrar alguém que pudesse continuar a fazer o seu nefasto trabalho.

Ela parou em frente ao músico, ele era perfeito, realmente. De seus quase dois metros de altura ele a olhava com tamanha intensidade que a mulher sentia que devoraria sua vida com seus pensamentos.
Por instantes colocou em dúvida se poderia corresponder a um amor tão profundo como este. Mas logo a mesma duvida se dissipou. Afinal, não seria difícil amar alguém tão lindo quanto ele. Seus cabelos negros azulados, seus olhos de um verde esmeralda, sua pele branca e suave, era impossível imaginar que um homem como aquele de traços tão masculinos, dono de uma beleza incomum fosse capaz de ser o destruidor de tantos seres.
O homem tocou o rosto dela com as pontas dos dedos como se tivesse medo de feri-la. Percebeu então que ela cedeu ao seu toque. Tinha vontade de sujeitá-la a si ali mesmo, não suportaria a distancia de seus corpos por muito mais tempo. Levantou-a em seus braços e a levou para dentro da cabana abandonada.

Lá dentro apenas algumas lamparinas iluminavam o ambiente. Ele a deitou em uma cama antiga, limpa e perfumada.

O toque e o olhar dele a enfeitiçava mais que sua própria canção.
— É linda. Tem certeza...que quer a mim? — fez a pergunta lentamente. O medo da negativa invadia sua alma. Mas era necessário ter certeza. Não poderia tomá-la sem que ela estivesse certa do que iria acontecer com ambos depois.

Sim. — respondeu.

Sabe que após esta noite, será minha. A mim pertencerás. Não só seu corpo, mas sua alma, seu coração... Entende isso?

Sim. O meu coração já é seu desde o primeiro instante que te vi.
Então, abrindo seus braços para recebê-lo abraçou-o e com um desejo promiscuo e insano se entregou a ele...

A alvorada já era próxima quando levantou para poder cumprir o destino dos dois. Por alguns instantes a observou em seu sono. Percebeu que não seria capaz de fazer com ela o que fazia há tanto tempo com outros.

Como uma sombra pesada e opaca, dedilhou uma melodia em sua guitarra, esta era única, feita exatamente para aquele momento. Ele havia imaginado este instante muitas vezes, mas nunca pensou que seria tão doloroso e difícil. Muito pelo contrario pensou que seria um alivio, afinal teria paz. "Paz, alivio. Realmente seria pedir demais para alguém que já causou tanta dor e sofrimento à humanidade". Um sorriso amargo mesclou-se às lágrimas que escorriam pelo seu rosto enquanto fitava a mulher e a música entrava em seus poros, não sentia dor física, apenas a dor que a separação lhe causava, a dor que muitos fez sentir...

A mulher acordou feliz ao som dos pássaros. O sol banhava o quarto por várias frestas e um calor cálido e aconchegante a envolvia. Procurou com o olhar pelo homem que a amava. Estava sozinha. Apenas a guitarra estava deitada a seu lado. Olhando o instrumento, entendeu que ele já tinha ido e sem coragem de se juntar a ele, segurou a guitarra em suas mãos e saiu em busca de outras almas cruéis...


Contos Estronhos - Contos e Crônicas

Facebook Page: estronhobook Twitter: estronho YouTube: EditoraEstronho

Do mesmo autor...

Banner
Nós temos 67 visitantes online