Esta história se passa numa época em que se acreditava que os deuses determinavam o curso do mundo e faziam dos homens peças de um jogo particular. Um tempo onde a religião era resumida na fé e na adoração aos antigos e lendários deuses. E foi no caos do vento negro, do fogo e do aço, que uma profecia surgiu para ter seu nome nos lábios de infinitas gerações...
Tudo teve início quando os boatos de que os deuses estavam em guerra se espalharam pelos quatro cantos do planeta, dividindo as nações e gerando pugnas sangrentas onde cada qual matava e morria para defender o nome de seu deus.
Proferiram que era o fim dos tempos quando os elementos da natureza pareciam ter se aliado para castigar a humanidade e catástrofes diversas passaram a assolar a Terra: vulcões inativos despertavam; violentas chuvas, que duravam dias, alagaram as planícies e estragaram as plantações; poderosas ventanias arrancavam árvores pelas raízes e agitavam assombrosamente os mares, causando desespero naqueles que viviam próximo à costa... Até mesmo os extintos dragões cuspidores de fogo passaram a ser vistos cruzando os céus. Diziam que os flagelos ocorriam porque as divindades, por não poderem se matar em sua contenda, descontavam a fúria nos humanos: afeto de seus desafetos.
Nisso, numa fortaleza incrustada sobre uma enorme cordilheira rodeada de quilômetros de mar azul, encolhido num canto de uma cela escura, um homem de quase cinquenta anos amargava sua condenação por bruxaria enquanto dividia o espaço com ratos e esqueletos de residentes anteriores. Um frêmito o assaltou quando ouviu guardas do corredor comentar entre si que as embarcações que invadiriam a comarca do povo do prisioneiro bruxo, estavam desatracando na função da conquista em nome de seu deus. O condenado ergueu-se com dificuldade e olhando através da janela com barras de ferro, pode avistar a esquadra se afastando da ilha. Seus compatriotas seriam apanhados de surpresa e esmagados como insetos. A guerra entre os deuses agora servia como pretexto para os ambiciosos usurparem de terras alheias e escravizarem povos.
De fisionomia abatida, o prisioneiro ficou a observar os barcos ganharem cada vez mais distância. Queria de algum modo, poder alertar seus irmãos. Mas como?
? Logo você será enforcado ou queimado numa fogueira bruxo. ? disse um dos guardas do corredor e continuou ? Mas antes, verá o dia em que nos apossaremos das riquezas de suas terras...
? Inclua as mulheres de seu povo nestas riquezas! ? completou o outro guarda sorrindo.
Então, os homens fardados gargalharam juntos e, na sequência, o prisioneiro virou o rosto e, cabisbaixo, fitou seus algozes.
? Dizem que és um bruxo... Onde está teu poder? Por que não te libertas desta prisão e usa tua magia para prevenir teu povoado da aniquilação?
E novamente eles riram.
Derrotado, o prisioneiro voltou a vista para o mar e acompanhou as embarcações que, pela extensão, já se perdiam no horizonte. Foi nesse exato momento que os olhos do cativo se arregalaram ao se depararem com algo sobrenatural: o dia claro escurecia ligeiramente e o céu límpido e azul era tomado por densas e sinistras nuvens negras.
Aquele acontecimento chamou a atenção e aterrorizou a todos da fortaleza que, naquele momento, se agruparam lotando as partes mais altas da masmorra, inacessível aos prisioneiros. No meio da cortina negra que se apossou do céu, um brilho se fez, emitindo um raio amarelado que rumou decidido em busca da carceragem do bruxo. Este, no reflexo, se jogou para o lado e estremeceu com o estrondoso som produzido pelo choque do relâmpago na espessa parede da masmorra. Por pouco não fora atingido. De bruços no chão foi alvo de uma chuva de destroços e uma poeira cinzenta cobriu seus cabelos. Estarrecido ergueu a cabeça. Tossiu. Incrédulo, levantou e postou-se na abertura agora existente. Estando do lado externo, encarou todos que o observavam surpresos e descrentes do alto das muralhas. O vento soprava forte e assobiava de forma sombria e peculiar. Diante da platéia que ali estava, o mar que parecia um carpete azul de tão calmo, escureceu a olhos vistos e tornou-se monstruosamente rebelde. Ondas descomunais nasceram rompantes e atacaram as torres. De olhos arregalados e bocas abertas, todos assistiram a esquadra ao longe, tombar mediante os ataques das águas. Impiedosamente, o oceano como se possuidor de mandíbulas gigantes encobria os navios tombando-os. Era inacreditável! Aqueles que conseguiam vencer a fúria das ondas eram enlaçados por gigantescas serpentes marinhas que surgiam de repente. E estas, de tão grandes, davam voltas nas embarcações, esmagando e quebrando-as em diversas partes. Ainda a tamanha distância, se podia ver centenas de pedaços de madeira dos barcos boiando na superfície, sendo arrastadas pelas ondas.
Os náufragos, em total desespero, tentavam se salvar agarrando-se no que podiam. No entanto, seus esforços eram em vão. As águas tingiam-se de sangue quando os homens que deixavam sua nação para promover a guerra, eram carregados pelas criaturas para o fundo do mar. No meio deste caos, surgiu um homem. Com passos firmes e decididos, ele caminhava por sobre o mar. Uma aura azulada vibrava em torno dele. Não era um humano.
Com vestes esvoaçantes pelo forte vento, o ser sublime de vasta barba branca trazia algo brilhante numa das mãos. Cruzando o caminho de náufragos que imploravam por salvação, se mantinha indiferente e por nada mudava o curso de seu olhar: A MASMORRA. Parecia realmente não se importar com as vidas que estavam se perdendo ao seu redor.
Mesmo estando muito longe de onde pretendia chegar, como mágica, em questão de poucos minutos, o ser divino aproximou-se da prisão. Aqueles que o observavam estavam paralisados como estátuas vivas. Não podiam acreditar na visão que seus olhos mandavam para o cérebro.
Com facilidade, o desconhecido ganhou os rochedos onde a fortaleza fora construída e parou na frente ao prisioneiro agora liberto que ostentava admiração e incredulidade talhadas em sua face abatida.
? Tenho uma missão para ti, bruxo. ? comunicou numa voz grossa e severa.
O tido como bruxo estremeceu diante do poder daquela voz.
? Você será o guardião desta espada e sua missão será encontrar o homem que a empunhará. Alguém nobre, justo e possuidor de um coração puro. E este homem, digno desta arma feita pelos deuses, governará a tudo e todos... pois ela o tornará invencível. Este aço nunca se envergará por mais implacável que se mostre a resistência oposta...
Sua voz era tão potente, que aparentava poder ser ouvida a léguas de distância.
? Ainda há salvação para este mundo... E eu a entrego nesse momento em suas mãos, humano. Você é o escolhido!
Boquiaberto, o homem trajado em farrapos aceitou a espada. O brilho de sua lâmina era hipnotizador. Ele a encarava com os olhos arregalados e, sem perceber, deixou um esboço de sorriso surgir.
? O possuidor desta espada será tido como sonho para alguns e pesadelo para outros.
? Mas porque eu? ? ele quis saber.
? Os deuses ditam, não explicam. ? respondeu e completou ? Podem se passar centenas de anos, mas enquanto não encontrar esse homem, você estará preso aos nossos serviços e não morrerá. A espada o protegerá e lhe dará poderes. Mas não se esqueça de sua missão, humano... ou sentirá a ira dos deuses.
O bruxo assentiu com a cabeça, aceitando o que lhe foi confiado.
? Agora vá. ? ordenou o imortal.
¯ Mas como? ? o homem indagou num tom de admiração.
E, neste exato momento, à água do mar explodiu e deste local emergiu uma gigantesca serpente marinha, causando uma imensidade de espumas. O humano de posse da espada sobressaltou-se. Protegeu o rosto da água espirrada e tentou disfarçar o próprio medo. A criatura lançou um grito selvagem tão potente, que fez com que os guardas amontoados nos picos, sentissem as paredes da construção vibrar. Conseguinte, o semideus elucidou:
? Esta criatura o levará ao seu destino. Agora vá.
Com uma das mãos o bruxo segurava a espada, e com a outra, segurava-se numa escama da serpente, sendo arrastado oceano adentro.
Numa pose altiva, o imortal ficou a observar seu dragão marinho afastar-se, levando nas costas aquele que ele havia escolhido. Não demorou muito para que homem e fera chegassem à terra firme. A serpente deixou-o próximo às margens e em seguida desapareceu no recife.
De volta ao seu povo, o escolhido foi ovacionado e tratado como um deus. A espada realmente dava-lhe poderes e sabedoria. Contudo, não imaginou que a tarefa de encontrar o senhor da espada fosse tão difícil.
Não demorou muito para se espalhar pelo mundo que a um bruxo havia sido confiada a responsabilidade de encontrar o homem que com a benção dos deuses governaria todas as nações da Terra. Homens de diferentes raças, cores e nacionalidades migraram de todos os lados do globo visando ter em suas mãos o poder. E, diariamente, centenas chegavam e se agrupavam numa área aberta, perto do bosque onde o bruxo mantinha uma vida simples com sua gente.
Sobre um grande seixo, o escolhido pelos deuses, visivelmente irritado, de posse da poderosa espada, aos berros ordenava ao bando de arruaceiros que deixassem sua vila, pois nenhum daqueles que ali se encontravam era digno da espada. A balbúrdia aumentou. A multidão revoltada não aceitou os argumentos. Logo, passaram a brigar entre si. Estavam cegos pela ganância do poder.
Os berros irados do bruxo de nada adiantaram. Naquela improvisada praça de guerra, tudo ao redor estava sendo destruído. O povo da aldeia se afastou e horrorizado, limitando-se a observar sua vila sucumbir a extrema violência. A loucura pareceu se apossar das mentes daqueles homens, que sem nenhum pudor ou arrependimento, decapitavam seus semelhantes. O local que deveria ser respeitado e tido como sagrado por conter uma genuína peça dos deuses, era banhado por sangue. A cólera era um veneno na corrente sanguínea dos forasteiros e a ganância sua gênese motora. Em meio ao descontrole, os exaltados resolveram retirar à força a espada da mão que a empunhava. De modo aparvalhado, uma multidão passou a escalar o rochedo. O bruxo, simplesmente ergueu a espada na direção dos que se aproximavam. Em suas mãos, a espada brilhou e lançou nos agressores uma luz cegante e potente. De imediato, os atingidos tiveram seus corpos lançados a metros por uma onda de choque. O poder da espada!! Depois disso, um mutismo se ergueu. E todos que antes se degladiavam volveram seu olhar para o bruxo e nele prestaram total atenção.
? Vocês a querem? ? gritou em plenos pulmões e concluiu desafiando:
?Então peguem-na!
Sem esforço algum, ele fincou a lâmina da espada na rocha em que estava, e comunicou aos berros:
? Bando de selvagens gananciosos!... Ela será daquele que a retirar desta rocha.
Dito isto, deixou a arma sagrada fincada e juntou-se ao seu povo, agrupado num canto. Liderando-os, ordenou sua retirada, pois entendeu que aquele lugar não mais lhes pertencia. Cabisbaixos, aqueles simples aldeões que nasceram e por toda a vida viveram naquele solo, foram obrigados a deixá-lo para trás.
Por alguns segundos, o silêncio parecia até ferir. Todos os olhares se mantinham no brilho que a arma dos deuses presa na rocha oferecia. Era mágico... Hipnotizante... Soberbo... Poderoso... Um facho de luz do sol furava as sombras das árvores e como um milagre derramava-se sobre a arma.
Numa ação sincronizada, os presentes despertaram da letargia e rumaram ferverosos na direção do rochedo. Todos seguiam o mesmo rumo: O DA ESPADA!
Nos pés do rochedo, a batalha sangrenta recomeçou.
Gritos de dor, decapitação, selvageria, carnificina... Quando um indivíduo tentava escalar a rocha, era morto por outro, que por sua vez, também tombava vítima do aço de um terceiro. A ambição ceifava dúzias de vidas. Aquela brutal cena de guerra se repetia quase todos os dias, pois quase todos os dias, dezenas, dúzias e até mesmo centenas continuavam migrando de toda a parte para o lugar que naturalmente tornou-se inabitável. Defronte ao seixo onde a espada aguardava seu senhor, formou-se um cemitério. Um mar de corpos cobria a grama, e as manchas de sangue mal tinham tempo de secar. Nuvens de moscas, assim como vermes, abutres e outros animais carniceiros se instalaram naquela área destruída. A arma que havia surgido com a promessa da salvação da humanidade, trouxe ainda mais caos, morte e desespero. Os antigos donos do território procuraram a paz em continentes desconhecidos. Todos foram. Menos um...
Os anos se passaram e ele envelheceu. Profundas rugas já marcavam aquele rosto com mais de cem anos, todavia, os cabelos e a barba comprida e branca como a neve, emprestava-lhe um ar de sabedoria. O cajado de madeira que fazia uso era necessário para caminhar. E mesmo com as debilidades que a velhice lhe impunha, a morte nunca vinha. Essa era a sua maldição. Com isso, a inquietação do bruxo - que com os anos passou a ser chamado de mago – crescia. Por dias ele não comeu. Por dias ele nada bebeu. Atravessou várias noites em claro. Estava cansado. Depressivo e cansado.
As batalhas defronte a espada, com o passar do tempo se tornaram menos frequentes. Mas ainda aconteciam.
O mago morava isolado em uma gruta numa montanha perto dali, com um casal de onças marrons. De onde estava, tinha nítida visão da espada que repousava no rochedo. Sem opção, ele aguardou o surgimento do homem que um dia a retiraria da pedra. Seus olhos cansados assistiram milhares tentarem. Por vezes, se divertiu ao presenciar homens no desespero, atacar inutilmente a base que segurava a sagrada arma. “Tolos! Nenhuma força deste mundo conseguirá retirar esta lâmina, ou quebrar este rochedo...” - divagou vendo a pobreza espiritual daquela gente.
O velho mago esperou, esperou e esperou pelo surgimento daquele de coração puro que finalmente o libertaria de seu compromisso com os deuses. Só assim, com o surgimento do homem digno do poder da espada, Merlin poderia finalmente descansar em paz.
Comentários
Já vi muitos escreverem histórias de Merlin e do rei Arthur, mas com a história sempre seguindo após a retirada da espada. Um conto com a origem da Excalibur é bem diferente!
Parabéns Evandro!
E que venha o Incógnito!
Abraços!
Obrigado!
@bblyef
@candygn
@HPJulioCesar
Sua forma de descrever me fez acreditar na história, realmente nunca tinha lido, ou visto, sobre a origem da Excalibur deste modo.
Muito bom o conto Evandro, parabens e continue escrevendo com esta maestria.
Assine o RSS dos comentários