Por entre relicários, ânforas e bibelôs... prataria, biscuit e relógios antigos... uma arca em estilo Manuelina, restaurada com verniz e betume da Judéia, que ostentava imagens de santos e um candelabro dourado com incrustações de pedras coloridas... andava o simpático Sr. Aldomiro1, dono do antiquário que praticamente era a sua casa.
Estava nessa profissão desde sempre. Desde que se entendia por gente. A sua mais remota lembrança se passa dentro daqueles cômodos de paredes em tijolos aparentes do casarão colonial do século XVIII. E já há muito tempo ele se convenceu de que fora concebido ali mesmo.
O casarão é a antiga propriedade da família, que vem passando de geração a geração. E o negócio, o ramo de compra e venda de antiguidades, também era uma herança familiar. Por isso, Sr. Aldomiro estava ali desde sempre. E, segundo a sua crença reencarnacionista, apostava que estivera também como herdeiro proprietário algumas gerações atrás – se não fora o próprio proprietário fundador!
Tudo começou lá no século XVIII, quando a loja de antiguidades teve o seu início e era apenas um casarão de moradia, e a força das circunstâncias fez dele uma loja, mas não de antiguidades. Pelo contrário, era tudo contemporâneo, da moda, embora não fosse tudo novo. Não, não eram coisas velhas. Só usadas. Isso porque o fundador de tão respeitável loja viu-se numa situação de tal penúria que teve de se despojar de seus móveis, objetos decorativos, pratarias e louças. Mas devemos deixar bem claro que, apesar de tudo ser de segunda mão, era tudo de primeira qualidade.
O que não fazem os jogos de azar, não é? Embora o fundador não tenha sido tão tolo a ponto de perder as calças, além de ter conseguido conservar, ainda, o casarão e até a esposa!
Mas, aquilo que começou com um ato de desespero, logo se tornou um negócio rentável. Pois as pessoas viram na loja de produtos usados um bom lugar para se adquirir boas coisas por bons preços. E logo descobriram também que era um bom lugar para se livrarem, por exemplo, de um enorme, inútil e dispendioso cravo de Flandres do século XVI, que ninguém mais sabia como tocar, menos ainda afinar.
E foi assim que a loja de antiguidades do Sr. Aldomiro nasceu e cresceu. Hoje ela já não tem mais as pompas de décadas atrás. A antiguidade caíra de conceito e subira muito de preço. Tornou-se quase um depósito de coisas velhas, porém belas e de boa qualidade. As pessoas de hoje não tinham mais nem o gosto e nem o dinheiro para isso.
Sr. Aldomiro, já curvado e enxergando muito pouco mesmo com os óculos de grau, caminhava quase aos trotes por causa da companheira inseparável, a Artrite, empunhando sempre a sua fiel arma, o Espanador. Ondulava de um lado a outro do antiquário, feliz por possuir uma ocupação que exigia pouco de seu velho corpo e menos ainda de sua muito lúcida cabeça, deixando-a livre para voar como uma borboleta sobre as flores primaveris.
E divagava. Muito. O dia todo. Era impossível uma mente envelhecer desta forma, tendo tão árduo exercício diário.
Olhando as peças luxuosas que possuía, pensava muito na Sátira X, de Juvenal, principalmente no verso que dizia “desconheça a ira, nada cobice e creia mais nos labores selvagens de Hércules do que nas satisfações, nos banquetes e camas de plumas de um rei oriental”. E, pensando nos versos do poeta romano, no quanto as pessoas se sacrificam pelo material e algumas realmente rezam pela obtenção de tais coisas, Sr. Aldomiro divagava de volta ao objeto em si e, passo a passo, reconstituía mentalmente a história da pequena criatura, que culpa nenhuma tinha pela vaidade dos outros.
Pois bem, Sr. Aldomiro chamava os objetos do seu herdado antiquário de criaturas inanimadas. Se algo foi idealizado, criado, manipulado, fabricado (não necessariamente nessa ordem), então ele, o objeto, havia nascido como você e eu. E se esse objeto ganhou as ruas, foi para uma casa e presenciou as muitas particularidades de uma família, então é certo que o objeto seja chamado de criatura, visto possuir muito mais experiência de vida do que muita criatura, que também poderia ser chamada de objeto.
E imaginava no quanto o desejaram. Desejaram tanto que ele, o objeto, foi concebido com muito mais cuidado, carinho e esmero do que são as pessoas, pois, de certa forma, são poucas as pessoas que são ardentemente desejadas para que venham ao mundo. A maioria de nós sempre vem por acaso (ou mesmo engano).
Será que ele próprio fora desejado com tanta vontade? Sr. Aldomiro parou frente ao espelho de cristal bisotado, de corpo inteiro e moldura finamente talhada, com relevos dourados em forma de Graças, flores, acantos e, no alto ao centro, a Vênus. Olhou a si mesmo criteriosamente, tanto quanto podia com seus olhos baços e fracos.
Não, definitivamente, ele não fora tão desejado quanto o candelabro dourado sobre a arca, concluiu. O candelabro possuía o dobro de seus anos e ainda se mantinha esplendoroso, rígido, firme, capaz de executar a sua tarefa – a de sustentar sete velas – por mais o seu dobro de tempo. Mas ele, Sr. Aldomiro, não.
Seus ombros se arriaram mais um pouco, pesando mais do que antes. E a sua espada de penas tornou-se insuportavelmente pesada.
Sr. Aldomiro caminhou em passos trôpegos até a poltrona D. João V, do século tal, de jacarandá e palhinha. Apesar do colossal cansaço, sentou-se como um rei e como um rei permaneceu. A sua arma fiel, o Espanador, de espada de penas assumiu a função de cetro real, ganhando a nobre acomodação sobre as pernas do rei... o rei daquele antiquário... o rei antiquado... o rei menos nobre que os seus súditos. Pois ele era apenas um herdeiro, ao passo que os seus súditos, os objetos-criaturas, nasceram para ser nobres e brilhar por séculos.
E a sua visão baça o engana, mostrando uma nitidez que não possuía há anos. Mas não podia estar enxergando bem, porque havia outras formas e movimentos pelo salão apinhado de quinquilharias.
Sr. Aldomiro recostou-se em seu trono real para melhor apreciar o espetáculo. O enorme móvel-rádio antigo, que ficava a um canto ao lado da cristaleira do início do séc. XX, acendeu o seu visor das estações e a música começou a tocar, enchendo todo o lugar com o som agudo dos metais.
Tudo ficou trêmulo, como quando se olha através do asfalto quente, e vapores brilhantes se desprenderam dos objetos, ganhando os ares, se repuxando aqui e ali, formando membros e cabeças.
E o baile real começou. As criaturas inanimadas se animaram, ganharam vida e começaram a rodopiar pelo salão, em volta de seus corpos estáticos de objetos.
O castiçal dourado, em sua forma vaporosa, tomou a forma de uma deusa indiana, ondulando os seus muitos braços e com uma vela acesa em casa uma das muitas mãos.
As estatuetas e bibelôs, também em suas formas vaporosas, se juntaram aos outros fantasmas, bailando em volta do Sr. Aldomiro, impregnando o salão com suas belezas de meninas pastoreiras, querubins rechonchudos, andorinhas voejantes e outros que tais.
E aquele baile de criaturas diversas, ao som do jazz anos 20, era a melhor e mais louca festa que Sr. Aldomiro participara em todos os seus 79 anos de vida. E ele era autoridade para afirmar isso! Sempre gostou e sempre participou de muitas festas. Ele não era só um profissional do ramo de antiguidades, mas um boêmio também.
Tentou erguer seu pesado corpo do seu trono real, mas percebeu que isso era impossível. Seu velho corpo tornou-se uma massa alheia a sua vontade, e nem as suas mãos, que descansavam sobre seu colo com o cetro preso entre elas, foram capazes de obedecê-lo. Ao que tudo indicava, apenas os seus sentidos funcionavam, pois ele via, ouvia, cheirava, sentia como jamais vira, ouvira, cheirara e sentira em sua vida. Tudo era mais vivo, belo, colorido, perfumoso e harmônico.
Então, o móvel-rádio mudou de estação, parando em uma de música erudita. Vozes suaves e harpas se entrelaçavam harmoniosamente na melodia e tudo a volta de Sr. Aldomiro tornou-se ainda mais belo, colorido e brilhante.
Os bailarinos fantasmas afastaram-se do caminho de acesso ao velho antiquário, e uma mulher linda e iluminada surgiu entre a multidão. Ela era parecida com uma das estatuetas que estavam sobre a arca. Tinha os cabelos muito longos, escuros e cacheados; um vestido tão azul quanto o céu da primavera; e o véu sobre a cabeça era tão branco quanto às nuvens do verão. Um esplendor de luz delineava por toda a sua esguia figura. A mulher pára em frente ao Sr. Aldomiro e estende-lhe as mãos de dedos finos e longos, sorrindo-lhe com brandura em lábios tão vermelhos quanto às rosas da coroa que usava sobre o véu.
Sr. Aldomiro olha-a fascinado, com adoração e súplica. Jamais vira alguém mais belo! E, com um sorriso bobo nos lábios finos, estende as mãos para as que lhe eram ofertadas. E suas mãos já não estavam mais sulcadas, flácidas, calosas; estavam firmes, lisas e esbeltas.
A Senhora envolve suas belas mãos nas mãos do Sr. Aldomiro, ajudando-o a se erguer da cadeira. Que incrível! Antes parecia impossível erguer um dedo e agora ele levantava-se como se fosse feito de algodão!
Não apenas estava levíssimo, como também remoçara num passe de mágica! Estava esguio, mais alto e magro; a pele firme sobre a ossatura; os cabelos bastos e negros como antigamente; os olhos voltaram a ser castanhos brilhantes.
A Senhora e Aldomiro rodopiaram entre os fantasmas numa valsa singela e alegre. Bailaram, bailaram e bailaram até se desmancharem em pontos brilhantes. E a música silenciou-se. E os fantasmas desapareceram. E tudo voltou a ser quieto e estático.
Na poltrona D. João V, que à sua época era servida de acento às pessoas mais importantes, estava a criatura inanimada do velho antiquário, agora uma peça morta da loja de antiguidades que encontrou, finalmente, o descanso eterno de seus objetos.
1 Aldomiro – do Teotônio, significa “velho ilustre”.
Fim
Rebis Kramrisch – Rio, 27-04-2010.
Comentários
Valew de montão, Amado!!! :lol:
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