Tento manter meu vôo. Minhas asas não suportam a tempestade de areia e o vento. Não consigo subir. Vôo em círculos sempre descendo. Minha visão turva vislumbra lá embaixo o esboço de uma mancha escura e sons de gritos. Os gritos terminam por me despertar.
Vejo que estou sentada no chão, entre papéis ensaguentados e escritos numa letra trêmula. Estou tão cansada. Acho que dormi, e sonhei voando num céu escuro.
Mais a frente dois corpos retalhados e deformados parecem sonhar. O machado descansa encostado na parede. Levanto e me dirijo a janela.
Antes olho o rosto do homem ali deitado. É meu namorado. Ele está morto. Ao seu lado uma garota também está morta. Como puderam me ferir daquele jeito?
Encontrei-os deitados, entregues ao sono, depois do calmante que coloquei na bebida deles. Levantei o machado e cumpri nossos destinos.
Olhando bem, mesmo depois de morta, ela é bem mais bonita que eu. O namoro antigo, seguido pelas traições dele, me arrematou o frescor da
juventude. Tenho dezessete anos e pareço uma velha senhora.
Sinto um queimar na cabeça, é como se meus cabelos estivessem embranquecendo. Já não há o que fazer aqui. A janela lá em frente me atrai. As luzes lá embaixo me ofuscam a vista e as vozes da multidão gritam para que eu não pule.
Dizem que sou muito jovem e não sei o que estou fazendo. A vida, valerá a pena ser vivida?
Estou no décimo andar. Pulo; e como no sonho, sinto a tempestade de areia me ferir. Não tenho asas, se as tivesse, voltaria para um momento anterior
à aquilo tudo que aconteceu. Lá embaixo a mancha escura do asfalto me aguarda. Por que fiz isso? Por que fiz tudo isso? O asfalto some, dando lugar às chamas e a um ser de asas de morcego. Ele lança um tridente que aferroa meu coração, cobrindo a rua de algo visguento, escarlate.