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O sol se escondia em chamas no crepúsculo luminoso. Ainda eram 17:30. O menino, sentado na porta de sua casa, contemplava a triste solidão de um fim de tarde. Longe, ouvia o barulho do bonde ainda circulando pela cidade, pegando todos os trabalhadores cansados e levando-os para casa depois de um longo dia de trabalho.

Via somente a vizinha da outra quadra varrendo a rua. Sempre achou-a estranha, ela nunca trocava de vestido – para nada! Sempre andava com o mesmo azul. Surpreendeu-se em demasia quando a viu no casamento da amiga da mãe, trajando a mesma roupa que usava em casa. Bom, o fato é que sempre a achara esquisita.

A bola, que o tio dera de presente de aniversário, rolava entre uma mão e outra pelo chão, numa clara demonstração de tédio, já que todos os seus amigos não queriam ou não podiam mais brincar naquele fim de tarde. Soluçava uma vez ou outra, culpa de um copo d’água tomado às pressas.

Viu a vizinha da outra quadra parar de varrer a rua, olhou-a duramente e recebeu o mesmo olhar com sobrancelhas grossas por alguns segundos antes dela entrar para sua casa.

Soluçou e suspirou incrédulo de que alguma coisa boa ainda poderia acontecer naquele dia.

Foi quando viu aparecer subitamente em sua frente o ser mais curioso e interessante que ele já havia julgado em toda sua curta vida. Lembrou-se que na escola chamavam esse tal ser de corvo. Pousado no chão, com suas penas pretas metálicas, viu o corvo aproximar-se aos poucos com pequenos pulinhos.

O menino sorriu vendo a atitude do pássaro, esticou a mão, olhou para os dois lados e como não havia ninguém, arriscou-se a conversar com a ave:

- Você também tá cansado desse tédio?

A ave grasniu, o que o menino entendeu como uma afirmação. Por alguns segundos, ave e menino se entreolharam, como se ambos comunicassem-se secretamente. A ave deu mais alguns saltinhos até o menino foi se aproximando devagar. O menino, ainda em transe, olhava para o magnífico corvo de penas pretas metálicas. Foi quando um soluço - maldito soluço! – dado pelo menino, interrompeu toda a comunicação e fez a ave perturbar-se. Rapidamente alçou voo ao céu, bem alto. O menino levantou-se e gritou para o pássaro:

- Não vá! Volte...

Viu o corvo negro regressar aos poucos até pousar novamente no chão, indo em direção ao menino, que sorria feliz em rever a ave. Mas logo percebeu que a ave já não o olhava mais, percebeu que não havia mais comunicação entre eles. Estranhou um pouco e deu um passo para trás, agora sentindo medo. Em questão de segundos, a ave voou até o menino e bicou-lhe os olhos arrancando-lhe as pupilas.

O menino gritou. Desesperadamente gritou.

A ave fora mais fria. Voou. Simplesmente voou.

Comentários  

+3 #1 Marius Arthorius 29-04-2010 18:20
Gostei demais!!
Em um instante o leitor espera a comunicação pacífica entre ave e menino, após o sangue flui bruscamente! Um texto com final inesperado, isso é excelente!
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Contos Estronhos - Contos e Crônicas

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