Banner
(0 votes)

Na esperança do sol esquentar seu corpo gelado pelo frio cortante da madrugada, ele caminhava em direção ao sol nascente. Trêmulo e trôpego, a cada passo exauria o pouco de vida que ainda lhe restava. Os pés sangravam dentro dos coturnos gastos e furados. A dor que os ferimentos infligiam era como chicote castigando o físico e a mente. O suor sob o espesso casaco começou a banhar seu corpo. Os cabelos compridos e emaranhados, feito serpentes trançadas, balançavam com a brisa. Chegara, depois de muito tempo de viagem, à cidade natal, a querida e doce morada da infância, da adolescência e dos primeiros tempos da fase adulta. No prédio mais alto pôde avistar a bandeira pela qual lutou tremulando junto ao vento bravio.

A cidade permanecia maravilhosa, como a tinha conhecido em um passado distante. O caminhar de aleijão foi substituído pela antiga imponência de uma marcha ritmada, forte e decidida. As vestes de maltrapilho assumiram a verdadeira postura de um oficial graduado. Avistou a casa nova que habitara com a esposa e o pequenino filho. Os dois vieram de braços abertos para encontrá-lo, com roupas confortavelmente cheirosas e macias. Beijos e carinhos lhe cobriram o rosto. A barba feita não escondia o sorriso sincero que se abriu deixando à mostra seus dentes brancos bem cuidados. A esposa continuava linda, ele pensou, e o filho emanava aquela alegria que somente a infância inocente carrega. Olhou ao redor. A multidão apareceu aos brados para receber os heróis de guerra. Seus colegas também haviam voltado. As ruas se encheram de carros e buzinas de todos os tons. A banda municipal executou o hino nacional, enquanto o povo invadia o espaço público para comemorar a vitória. Confetes e serpentinas coloriram a cidade, adiantando em vários meses o carnaval. As praças foram inundadas de flores, pássaros, cães e gatos peraltas, além de excelentes violeiros trovadores executando canções.

O homem esfregou as pálpebras com sua mão enrugada e repleta de sangue seco. Nesse exato momento, as ilusões e os sonhos se dissiparam e a realidade mórbida sobreveio. Todos haviam desaparecido como se algum ente demoníaco estivesse brincando com seus sentimentos mais profundos. Diante de si, apenas escombros. Forçou a visão em busca de algum sinal de vida naquela cidade destruída pelo caos. Em poças de sangue estavam mergulhados corpos mutilados. O fedor atraía moscas gigantescas e de um zunir irritante. Os ratos e as baratas já não temiam mais o sol e saíam de seus esgotos escuros para habitar a superfície. Arquitetavam seus ninhos nos infindáveis e amontoados cadáveres.

Aquele lugar não passava de uma ruína. O Estado havia enchido sua cabeça com ideias estúpidas, mesquinhas e inúteis. Acreditou nos governantes que forraram sua cabeça de idiotices. Aqueles que estavam no poder só queriam explorar o esforço de seu trabalho honesto. Ele nunca passou de um reles soldado, pronto para morrer pelos objetivos de políticos antiéticos. Devia ter lutado por sua felicidade e não ser apenas mais um peão ou um joguete nas mãos dos poderosos.

Caminhou o mais longe que pôde até que suas forças se extinguiram. Desabou sobre o asfalto quente, abandonando de vez aquele corpo exausto. No lugar dos homens, novos senhores se apresentaram para assumir o posto deixado vago. As moscas, os ratos e as baratas engordaram naquele reino de fartura.

 

Contos Estronhos - Contos e Crônicas

Facebook Page: estronhobook Twitter: estronho YouTube: EditoraEstronho
Banner
Nós temos 40 visitantes online