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Deixa eu te dizer da angústia, das saudades infindas, da razão de me afastar de teus lábios carmim, das tuas curvas perfeitas, dos teus negros cabelos caindo em cachos pelos ombros, dos teus verdes olhos profundos. Não me acusem jamais de ter tido medo do que poderia sentir por ti, mas, longe disso, medo do que poderia causar. Não! Eu te amei nesta forma humana que nesta vida ocupaste, e, se diferente o fosse, teria te transformado em ser desgraçado qual eu próprio, vagando eternidades em madrugadas nebulosas, a mente em fogs noturnos. Caminhei terras distantes, ruas de terra, pedregulhos, paralelepípedos e asfalto; a bússola em desatino: sem centro, perdi meu norte. Nunca desejei a quem amo com a alma o mesmo destino eternamente em desalinho, um mapa celeste em convulsão entre os planetas, a lua escondida ante o pavor da minha presença, o dia me causando náuseas. Não te impus, por certo, tal destino, não por merecimento de tua alma, que – ambos sabemos – nunca ousou ser tão pura ou límpida. E foi isso que me fascinou e ainda hoje me tira o sono matutino, atrapalhando os sonhos diurnos, os passeios noturnos, outrora prazerosas farras de vinho e carne. Sim, amada, serias a companhia perfeita nas noites de perdição e horror, pavor e prazer, mas, e quando me traísses em busca de vida, e eu à procura da morte, como haveríamos de nos olhar depois?

Já não terei eu me exposto o suficiente através de meus relatos tidos por todos como invenções atemorizantes ou histórias de horror, sem que alguém suspeitasse ser a descrição fidedigna e, por vezes, até amenizada, de meus crimes? Escondi os fatos mais horripilantes, os atos mais vis, que humano algum seria capaz, sequer, imaginar. E não serei o assassino do corvo, transladando o ato em poema declamado aos quatro cantos do mundo, extravasando a dor pela saudade de ti, amada Lenora, de quem também extirpei a vida?

Lenora, meu grande amor e meu maior pecado, que enviaste um corvo para mau agouro e para meu consolo... Lenora...

O som de teus gritos ainda ecoa pelo salão; o impacto de teus membros esquartejados, atirados em desespero a manchar a virgindade das colunas e portas; tua carne espalhada pelo chão no mármore frio qual lápide pagã e sem cuidados; tuas roupas ensanguentadas guardando teu suave perfume a me fazer companhia por noites e noites a fio, até que um cheiro deletério substituísse a água canforada e preenchesse as narinas causando-me asco; teus cabelos anelados perdendo a cor, aos poucos, fato percebido cada vez que abria a caixa dourada adornada por querubins – arte dos fiéis – sob a chama lúgubre de um castiçal de prata; a pena molhada em teu sangue, escrevendo, noite após noite, poemas em teu louvor, sobre a superfície de tua pele fina e clara – devidamente preparada – até que se extinguisse tanto a dor quanto a tinta rubra apropriada. Teus olhos claros serviram de luz e inspiraram minha saudade quando ainda jaziam submersos, em espanto, dentro do pequeno recipiente de cristal.  

Mas quando tudo isso se perdeu, quando tudo que era teu corpo, por fim, apodreceu, eis que urge o corvo. Um corvo que pensei amigo, que sonhei chegando para me fazer par (por sobre meus umbrais); um corvo negro como a noite; agourento qual faísca elétrica na tempestade; eco da tua voz em escândalo, quando das estacadas de meu sabre afiado, a repetir o que agora te digo mais uma vez (a derradeira), pois de agora em diante, nunca mais...

Adeus, Lenora... Findo o corvo e por fim me findo, ficando insone ante meus pecados, em plena luz do dia. A esta vida de pecados e delitos, à tua lembrança, ao alvo busto de Athena, à minha alma perdida, a este corvo maldito, a ti, amada, eu declaro: Nunca mais... Nunca mais...

 

Comentários  

0 #1 Nunca imaginei...simone 16-02-2010 22:05
Thaty vc é um horror! (rs)
Não deveria ter lido antes de me deitar.
Sério, lindo texto, lindas imagens, se é que esse adjetivo pode ser usado num texto deste, mas gostei muito mesmo!
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0 #2 cleo teixeira 23-02-2010 08:53
Gosto dos teus textos e como eu, muitas pessoas, carentes de boa leitura, te pedem: escreva mais!!!
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