Engraçado como me arrisco sentado nestas bordas do lado de cá do rio. A grama farta e a margem bem fofa cobriram meus pés com um doce alívio.
Sentei-me embaixo da copada sombra de uma árvore, mordiscando uma folha de grama. Pavio este que me delicia em conversas com meu outro eu.
- Será que se assustam pequenos insetos, ouvindo esta conversa embaixo do sol quente??
Gargalho descaradamente da História do homem e do rio. As águas que ainda correm enganaram os homens. Plácidas em seus leitos as águas
derrubaram construções. Já não há caminhos secos indo em direção ao mar.
A sombra desenha o enigma do destino, vejo lá longe o semeador plantando as sementes... E não passava de um sonho: sonho de manhã, num quarto de amigo em uma grande cidade da Europa; Londres, especificamente. Eu andava as voltas com a conversa ecológica, gravada na cabeça, misturada a ficções cientificas que lia e assim dormira depois de uma diária de batalha na corrida da estrada.
Valia de tudo nas caronas da estrada, a ilha engordara e mudara sua vivencia, envolta em crises e imigrantes que rangiam seus dentes de medo, alguém podia plantar-lhes uma bomba e deixá-los mortos no metrô, ou a polícia podia matá-los com um tiro nas costas, alegando a defesa o reino.
Não era exatamente a política e a decadência gerada pelos fatos históricos que me chamavam atenção naquela estrada. Também não era a fumaça de marijuana, que disfarçava o suor do grude nos corpos, no dançar das ?raves? de fim de semana da classe trabalhadora; nem o tremular dos junkies a procura de suas pílulas brancas de heroína. Eu estava ali à procura de uma peça importante que havia sido perdida em uma livraria. Um livro velho que guardava a entrada dos portais do tempo.
Este livro havia saído de um sebo no Rio de Janeiro e andava a dar a volta ao mundo. Caindo em mãos erradas, as palavras e os rituais que ali havia, permitiriam a entrada de metamórficos fantasmas e todas as espécies de seres das sombras, que avistamos nos precipícios dos sonhos quando dormimos a noite.
A corrida na estrada me levara a Waterloo Station. Os sem tetos, se guardavam das ruas ali, durante o dia. Sem tetos, velhos de outras guerras, guardiões da coroa, esperavam dia e noite quem lhes dessem alguns ?shillings?, ou lhes servissem um pouco de sopa. De lá seguiam a noite para esconderijos subterrâneos, ou as calçadas escuras que margeavam o Tamisa.
Os jornais cobriam as ruas com um crime que chamava a atenção da população e a Scotland Yard, ainda não decifrara as pistas consentidas pelo psicótico, que quando matava, deixava uma costeleta de porco, marcada com números feitos por um pincel atômico, ao lado de suas vitimas. Como aquele criminoso conseguia se aproximar dos adolescentes, ninguém sabia. Vários corpos, tanto de moças, quanto de rapazes haviam sido encontrados, nas ruas mais abandonadas da cidade pelos entregadores de pão e leite, sempre com aquela costeleta ao lado.
Como disse antes, a estrada me levara a Waterloo Station. Ouvira falar que entre os sem teto havia um homem que entedia tudo de livros, talvez alguma novidade surgisse quando eu o encontrasse. Esperei um longo tempo sentado, depois de olhar as manchetes dos jornais, mas, quem esperava não estava naquele horário por ali, saí e fui almoçar. Preferia voltar no crepúsculo; à noite, as coisas tornavam-se mais vívidas, sempre se encontrava o que se aspira.
O sol já sumira; esfera vermelha no Ocidente. Novamente andei nas plataformas da estação. Senti alguém se aproximando de manso, como se me seguisse. Sentei-me no primeiro banco, esperando com este gesto encarar quem me acompanhava os passos. Dei de frente com um ancião de barbas longas brancas, tinha algo nele que o diferenciava dos sem tetos por ali espalhados.
- Sei que me procuras. Disseram-me na livraria dos usados...
- Ah sim, ando em busca de um livro que sumiu do Alfarrábio no Rio de Janeiro e já andei por quase toda a Europa a procura dele.
- Convido-te para que venhas a minha casa, assim poderemos conversar melhor.
Segui Ernie, como ele dizia se chamar, até uma edificação que a meu ver parecia condenada de tão velha e tão cheia de lúgubre abandono. Ernie
antes de entrar, me deu um sorriso e segredou perto de meu ouvido:
- Não te deixes levar pela aparência das coisas...
Atravessei a porta e surpreendido olhei, que não estava exatamente em um casebre como esperava. Encontrava-me agora num salão enorme, as paredes cobertas por hieróglifos e desenhos em auto-relevo contavam uma estória.
Ernie ia andando em passos rápidos em direção a uma parede feita de pedras, a penumbra cobria o que parecia ser uma saída, na qual o vi sumir. Embora me encontrasse meio assustado com as visões a minha volta, segui em frente.
Quando alcancei Ernie, ele se encontrava agora sentado em um banco embaixo de um velho carvalho. Vi quando um ser de aparência élfica, colocou o punho direito fechado no ombro esquerdo, numa espécie de saudação a Ernie, sumindo em seguida entre a folhagem. Ao lado de Ernie havia um banco de madeira e a sua frente uma mesa. Na mesa inúmeros instrumentos e livros, ao lado de uma enorme bacia d´água, uma lâmpada de fogo e um montículo de terra.
- Entre nós os elementos têm seus poderes, decifram muitas vezes nossas dúvidas. Sente-se aqui ao meu lado e lhe mostrarei muitas coisas. - Ernie
apontava o banco vazio com estas palavras.
Sentei-me em silencio ainda confuso com o rumo que tomara o encontro, quando Ernie foi direto ao assunto:
- Bem, devo lhe dizer, sou um mago, que viaja entre as dimensões dos mundos paralelos. Espero não tê-lo assustado, sei que está acostumado às coisas da magia. Se não conhecesse a magia não estaria procurando pelo livro...
- Aprendi algo no Brasil, uma escola de iniciados desenvolveu um estudo sobre o assunto. Não diria que sou exatamente um mestre, mas, entendo um pouco do tema. O que vim fazer aqui é reaver o livro e levá-lo de volta para o Rio.
- Vi que leu os jornais de Londres hoje. Deve ter visto sobre o caso do psicótico, aquele, que deixa a costeleta de porco impressa com o número das vitimas... Fui pessoalmente resolver esse caso. O psicótico encontrou uma entrada dimensional e cada vez que comete um crime se esconde em um universo paralelo. Fui a Londres fechar a entrada dimensional. Hoje a noite ele será pego pela Scotland Yard e irá pagar pena pelos crimes que cometeu.
Dizendo isto Ernie pegou um objeto parecido com um astrolábio em cima da mesa e apontou o objeto em direção a uma estrela cadente. Do objeto
soltou-se um raio róseo que tomou a forma de um circulo de energia, girando, no vácuo que criara.
De meu banco assisti quando o psicótico era capturado pela polícia londrina. O pegaram tentando entrar no círculo de energia. O criminoso tentava colocar a perna para pular para outra dimensão e o circulo o empurrava de volta sem lhe dar passagem. As tentativas foram tantas que ele nem notou a chegada da polícia.
Alguém chamara por telefone a delegacia, após ver a nova vitima que jazia na calçada e o criminoso ali, levantando a perna no ar, como se quisesse entrar em algum outro lugar. Rimos da cena, tanto Ernie quanto eu, ele continuou o diálogo:
- Uma influencia do livro, quem sabe? Vejamos, teremos de ir até o final da floresta para reaver o seu livro. A floresta a noite é bem mais perceptiva, se torna tão cheia de vida como o pio da coruja. Se vê de tudo por aqui, elfos, vampiros, centauros e inúmeros outros seres. Devemos tomar o caminho em frente.
Parecia a mim, que agora, eu estava dentro do Grande Carvalho, a andar numa escada esculpida nas paredes internas de um gigantesco caule; a cada sete degraus: colunas. Colunas Hindus, Egípcias, Gregas e Romanas. Lembrei-me da Ordem Iniciática de Corinto a qual eu pertencia, onde aprendera sobre a magia usada por todos aqueles povos. A uma certa altura, a escada se dividia em dois grupos de degraus. Segui pelo da direita, senti que me encaminhava para os andares superiores da gigantesca árvore.
Algumas pequenas moradias, incrustadas nas paredes do tronco, fumegavam fumaças de diferentes cores. Certamente estava vendo a moradia das fadas. Muitas fadas moravam dentro dos troncos das árvores. Ouvia-se o som de exóticos instrumentos, certamente deveriam estar ocupadas com suas músicas e seus pratos deliciosos. Vez por outra, o farfalhar de suas asas de borboleta, podiam ser ouvidas e também suas risadas. O ambiente era muito claro, proveniente dos raios da lua e das estrelas, que entravam pelas janelas e fendas nos telhados das casas da fadas.
Ernie andava ao meu lado, quando chegamos a um local pantanoso; os uivos dos lobisomens se juntavam ao som dos galopar dos centauros, mais ao
longe um castelo cheio de escuridão guardava os gritos das vitimas dos vampiros.
Saímos então em uma clareira, na abertura campestre. Um caminho de terra nos levou até uma pequena aldeia também entalhada no caule. Vi então raios de sol, resplandecendo pelas frestas do velho carvalho, era o nascer do dia.
Esquivei-me de uma teia, onde uma dorminhoca aranha repousava e segui Ernie em direção a uma edificação. Atravessei a porta do edifício para me ver em uma sala de estantes gigantescas, guardavam todos os livros imagináveis. Novamente o elfo que vi saudando Ernie mais cedo, se encontrava agora em pé no alto de um tamborete, examinando uma prateleira de livros.
Ernie me levou até o elfo. Explicou então a este, minha busca e o interesse pelo livro. O elfo pegou algo atrás de uma estante; como num passe de mágica, uma caixa de sândalo apareceu em suas mãos. Ao abrir a caixa, vi o livro que tanto procurara guardado lá dentro.
Despedimos-nos do elfo e voltamos pelo mesmo caminho que viemos. Quando desci a escada ao lado de Ernie e entrei na sala, vi que agora havia saído pelo lado esquerdo da entrada do Grande Carvalho.
Sentei um pouco na sala e bebi um chá que ele me ofereceu. Saímos e voltamos para a noite Londrina, agradeci a Ernie sua ajuda no assunto do livro e lhe disse adeus; partindo depois num avião de volta ao Rio, ondedevolvi o livro desaparecido a Ordem.
Sento-me em minha cadeira flutuante, daqui vejo de minha janela, a grama fofa e farta das margens do rio. As árvores aceitam o murmurar do vento...
Lá longe o semeador planta as sementes...
As águas que ainda correm, enganaram os homens. Plácidas em seus leitos, as águas derrubaram construções. Já não há caminhos secos indo em direção ao mar...
Engraçado como me arrisco sentado nestas bordas do lado de cá do rio. A grama farta e a margem bem fofa cobrirão meus pés com um doce alívio. Me vejo embaixo da copada sombra de uma árvore, mordiscando uma folha de grama. Pavio este que me deliciará acompanhando as conversas com meu outro eu.
- Será que se assustam pequenos insetos, ouvindo esta conversa embaixo do sol quente??
Gargalho descaradamente da História do homem e do rio. As águas que ainda correm enganaram os homens. Plácidas em seus leitos as águas derrubaram construções. Já não há caminhos secos indo em direção ao mar.
Fim
Angela NadjaBerg Ceschim Oiticica
Biografia
Neste site coisas em Inglês escritas pela autora
http://www.fanstory.com/selectprofileportfolio.jsp?userid=161043
Alguns resultados de 2009:
Concurso Taba cultural -mulher eterno tema (2009)
2º lugar Conto: Aventura.
Menção Honrosa no prêmio SESC de poesia Carlos Drummond de Andrade- 2009
Menção Honrosa no concurso nacional de poesia Cassiano Nunes (BCE/UNB)
2009
Menção Honrosa XIX Prêmio Moutonnée de Poesia 2009
Menção Honrosa no 2° Prêmio Fliporto de Literatura no Celular 2009
Outros trabalhos em 2009:
Conto na Antologia Draculea e também participação de um conto na
Antologia Invasão
A autora tem dois Romances editados: Rockyes e Sambaya Blondy
Quetlacoatl e um livro de prosa poética: Krikiroa.