Quando Alex e Julia programaram aquele final de semana foi mais uma tentativa de salvar o casamento do que propriamente lazer. Ele não podia gerar filhos e ela desde menina era obcecada pela idéia de ser mãe. Casados a mais de sete anos, o enlace havia caído no corriqueiro. O cotidiano maçante dos últimos tempos só vinha a afundar mais a relação. No entanto, ainda havia amor. Era já uma pequena fagulha comparada a fogueira que fora quando se conheceram, mas ainda assim era amor. E sendo assim resolveram de algum jeito, exterminar a culpada de todos os males: a rotina.
Nunca haviam acampado a sós. Da vez que se aventuraram no meio do mato, ainda eram solteiros e foram na companhia de colegas de escola: meninos de um lado e meninas do outro, com a supervisão ferrenha de dois professores, assim mesmo, como mandava a cartilha da decência e moral nas famílias da época. Conheciam-se desde a o ensino primário e os amigos sempre diziam haver nascido um para o outro. Escolheram o mesmo curso na universidade e após a formatura resolveram unir-se maritalmente. Durante todo o casamento se preocuparam em adquirir bens, como todo casal recém casado com um mínimo de sensatez. Já haviam conquistado um padrão de vida razoável e viviam relativamente bem, mas parecia que ainda faltava alguma coisa. Julia tinha a certeza de que uma criança viria para dar um novo fôlego àquela já desgastada relação. Alex já não era tão otimista assim. Ele se sentia incompleto como homem, pois sua esterilidade era algo definitivo. Escondeu da esposa por medo de perdê-la. Achava de alguma maneira, que tolhia Julia e, era um tanto responsável pela tristeza implícita nela.
Aquela sexta-feira amanheceu linda e quente, antecipando o típico verão do centro oeste. Já haviam organizado todo o material do “camping” na noite anterior. O local que iriam visitar distava duzentos e vinte quilômetros ao norte da metrópole. Era uma região desconhecida para ambos, mas um lugar realmente muito bonito, de uma natureza exuberante e que conheciam por fotos de amigos que já haviam ido. Davi, o melhor amigo de Alex, recomendou, e ainda fez um pequeno mapa da região. O Salto do Mandacaíra é uma terra inóspita com flora de raríssima beleza e entremeada por um rio caudaloso e que desemboca numa queda de 85 metros. Um local que Davi diz ter encontrado quando menino, das vezes que ia visitar seu avô e que até hoje, quando estava cansado das coisas da cidade convidava Liza, sua eterna noiva, para “recarregar as baterias” nos meandros selvagens do cerrado. A idéia era realmente o isolamento, pois, ambos estavam fartos da coisa urbana, do cheiro de diesel queimando e do barulho da grande cidade. Também não queriam hotel ou pousada, coisa que para eles já era um tanto prosaico. Pacotes de viagens e cruzeiros na companhia de solteironas ricas e casais fúteis eram programas que depois de conhecerem, jamais quiseram repetir. Não queriam ver “gente” durante os três dias. Somente um ao outro com suas angústias e verdades, e, também a tremenda vontade de se resolverem como casal.
Saíram quando o sol também acabara de sair. Pegaram a estrada principal muito bem pavimentada, por conta do moderno pedágio instalado há dois anos. Pararam apenas uma vez para abastecer e tomar um cafezinho. Na placa do quilômetro 202 desviaram a leste e andaram mais trinta quilômetros numa estrada de terra vermelha, muitos buracos e uma poeira sufocante. Revezaram-se no volante da caminhonete e neste momento Julia estava apreensiva, com o mapa nas mãos. Procuravam por um grande jatobá, (ponto de referência fundamental), para finalmente saírem da estradinha e chegarem ao destino. Alex dirigia devagar: a vinte por hora, muito atento, afim de não passarem do lugar indicado no mapa. Meia hora mais tarde avistaram uma curva e logo em seguida a portentosa árvore. Desde que saíram da estrada federal não viram ninguém. Na verdade, ninguém “humano”, pois a biodiversidade da região era prova irrefutável da existência de Deus. O cheiro da mata impregnava todo interior do carro.
Chegaram ao local por volta da nove horas. Seus amigos não mentiram, era realmente um local extraordinário. Procuraram um ponto adequado para montar o acampamento. Alex adentrou com o veículo na mata que não era tão fechada assim. Queriam um espaço próximo ao rio que corria revolto, mas que do local onde estavam só conseguiam ouvi-lo. O experiente motorista desceu mais um tanto, e com todo o cuidado, afim de não atolar ou mesmo cair em algum desnível do solo. Finalmente chegaram.
- Aqui está ótimo, não é mesmo, querida? – Inquiriu Alex, já acionando os freios.
- Pode ser... É você quem sempre decide as coisas... – responde Julia dando de ombros.
Era um local majestoso de onde se avistava a grande floresta tropical e bem à frente do rio, onde as águas eram mais revoltas.
Desembarcaram os apetrechos e se dispuseram a montar a barraca nova, ainda na caixa e comprada especialmente para a aventura. Tiveram que seguir o manual de instruções, pois nenhum dos dois sabia absolutamente nada daquele ofício. Após mais uma hora, finalmente a empreitada que se propuseram estava de pé. Era uma barraca grande, e comportava confortavelmente cinco pessoas. Para duas era um pequeno luxo. Ainda havia um avanço que se prolongava ligado aos cabos até a caminhonete. Acomodaram o restante dos utensílios: a pequena mesa, o mini-fogão de duas bocas, as cadeiras de praia, a caixa de gelo com os mantimentos e finalmente descansaram.
Perto do meio-dia Julia foi preparar a refeição enquanto Alex ainda estava explorando o lugar. Havia saído há uma hora e sua esposa estava começando a se preocupar. Telefones celulares eram meros objetos decorativos naquele ambiente. Perto das treze horas, finalmente Alex retornou:
- Que maravilha, o almoço já está pronto! – Exclama Alex totalmente suado e sem fôlego.
- Já estava aflita e a ponto de ir procurá-lo. Por que demorou? O que estava fazendo?
- Reconhecendo o terreno. Realmente é fascinante. Por pouco não me perdi na volta. Vim pelo cheiro da sua comida. – Respondeu o resfolegante homem.
Almoçaram sem a pressa costumeira de todos os dias, degustando mais demoradamente a espetacular salada de atum. Mais tarde Alex esticou duas redes de descanso em meio às arvores e a frente do grande paredão de pedra. Após um dia atribulado, aquele balanço gostoso e a brisa de fim de tarde soavam como bênção para o casal.
A noite chegou como uma máscara de ébano e envolveu cada ser daquele lugar. O casal havia se preparado com lanternas e uma lamparina de gás de cozinha. Não havia lua e em pouco tempo o pequeno acampamento era o único ponto luminoso naquela imensidão negra. Os sons da noite diferiam daqueles com dia claro. Os ruídos de insetos e alguns pássaros ao longe davam ao lugar uma atmosfera de solidão e de certo medo eminente. Os pernilongos atraídos pela luminosidade formavam uma nuvem ao redor do casal que, se não fosse a pequena fogueira e o bom creme repelente, teriam que escapar em disparada de lugar tão ermo. O sono chegou para ambos e deliberaram, por fim, acomodar-se no interior da barraca por sobre os desconfortáveis colchonetes. A temperatura caiu repentinamente e os dois se abraçaram na tentativa de manter o calor dos corpos. Cobertores aplacaram o frio da mata. Conversaram amenidades antes de dormir e finalmente adormeceram. Um nos braços do outro.
Duas e trinta da manhã: Julia acorda sufocada com o ar faltando aos pulmões. Abre o zíper da barraca até a metade, próximo a sua cabeça, com cuidado para não acordar o marido e, respira aliviada. Neste instante, escuta o som das águas correntes do rio próximo, e ainda sonolenta volta a acomodar-se. Perde o sono aos poucos e agora além do som das águas ouve também um outro ruído: Era como um miado, bem baixinho, quase imperceptível. Apurou mais os ouvidos e...não, não poderia ser. Era o choro de um bebê. Só poderia estar sonhando. Estava muito sonolenta e não discernia entre a vigília e o sono. Achava estar numa zona limite entre os dois estados. Faz um esforço e acorda Alex com uma sacudidela. Ele, entorpecido pelo sono resmunga palavras sem nexo. Julia é insistente e ele acorda:
- O que foi? Que horas são?
- Lá fora Alex... Escute e me diga o que você acha...?
Agora é ele quem termina de abrir o zíper da barraca para ouvir melhor. Uma aragem fria sopra atingindo-lhe em cheio o rosto, fazendo contrair-se. Ele apura também a audição e ouve a correnteza, alguns insetos e... o choro de um bebê... Num sobressalto, ele que não trocou a calça de jeans rajada “estilo militar” para dormir. Apanha a lanterna que deixou dentro da barraca para qualquer eventualidade, tenta sair, mas tropeça nos travesseiros;
- Calma, tenha cuidado. Pode ser perigoso! – alerta Julia para o marido;
- Não se preocupe, fique aqui e não tenha medo. Pode haver alguém precisando de ajuda.
Na noite mais escura de sua vida, sai vagando em direção ao rio. Mesmo tentando concatenar suas idéias da maneira mais racional possível, Alex não compreende o verdadeiro significado daquilo. Enquanto caminha sente que não foi uma boa idéia acampar naquele lugar. Algo dentro de si acusava certo perigo eminente. O choro cada vez mais alto e mais próximo significava o fim daquele mistério?...Talvez.
Naquele mesmo instante, Julia na solidão da barraca, orava para que nada de mal sobreviesse ao esposo amado. Enfim, por sobre uma branca laje calcária na beira do rio, Alex aponta a lanterna para um pequeno ponto negro. Era um tipo de manta ou cobertor. Nunca tinha visto daquela cor, parecia piche, tão negro era. O que quer que fosse estava embalado naquela coberta. Aproximou-se ofegante, abaixou-se e revelou o que estava ali oculto. Era uma criança, que de tão alva contrastava debilmente contra a coberta. Ele, de imediato, vislumbra ao redor, fazendo com o foco da lanterna um grotesco balé de luzes e sombras. Não encontra ninguém. Afinal, quem teria deixado ali aquele bebê?...Devia ser recém-nascido. Desiste de pensar sobre isso e de imediato o apanha junto com seu envoltório fugindo da madrugada fria. Volta ligeiro, pelo mesmo caminho que fez e já avista a barraca de longe, pois Julia havia se encarregado de acender o lampião de gás. Adentra rapidamente e se aninha por sobre os colchões com todo cuidado possível. O casal fica perturbado ao constatar que é um menino de pele muito branquinha e Alex comenta:
- Veja Julia, achei que pudesse ser de alguma índia que veio dar a luz na beira do rio. Talvez haja alguma tribo por perto... mas ele é tão clarinho!
- Esta criança não pode ter nascido agora...Deve ter uns três ou quatro dias de vida... Está muito limpinho...Olha, não tem nenhum vestígio de sangue...O umbigo está cicatrizando...Você não viu ninguém por perto? – Questiona a mulher atônita.
- A noite está um breu. A lanterna não é das mais potentes, e além do mais tinha que vir rápido, pois está bem frio lá fora...
- E este cobertor, estava com ele?
- Ele estava embrulhado nisso...Olha essa cor...parece óleo queimado é muito escuro...Estranho né?
Examinam minuciosamente o bebê e constatam que ele é perfeitinho. Uma linda criança. Mas não pára de chorar por um minuto:
- Trouxemos leite em pó para o café...vou preparar...Ele deve estar faminto... – Lembra Julia.
Após aquecer água no fogãozinho apronta a bebida em um copo. Apanha uma colherinha de plástico descartável e enquanto Alex segura o menino, Julia introduz o leite na boquinha mas o pequeno regurgita como se fosse algo muito amargo. O choro intermitente não dá trégua. Ela encosta o menino no peito num gesto bem maternal aquecendo-o. Aos poucos o pranto vai se diluindo... e tanto Alex como Julia vão se aninhando com o bebê entre eles no aconchego das cobertas.
- O que vamos fazer em relação ao bebê? – Sussurra Alex para não acordá-lo.
- Acho que devemos fazer o que é certo... Amanhã voltaremos e vamos entregá-lo às autoridades...
- E se...
- Já sei no que está pensando...mas não podemos! – Interrompe bruscamente Julia. – Temos que fazer o que é certo.
Naquela madrugada fria, já no silencio da barraca Alex é o único ainda acordado, mas antes de cair em sono profundo viaja em pensamentos e idealiza uma família completa como sempre imaginou. Aos poucos suas pálpebras pesam e ele se entrega. Já dormindo tem um sonho translúcido, como se estivesse realmente acontecendo. Sonhou que ele, Julia e o bebê (mais crescido) estavam num parquinho com brinquedos bem simples, mas que ele não conhecia. Nunca tinha ido aquele lugar. Julia e o pequeno andam alegremente num carrossel com brilhantes cavalinhos dourados, e com os sorrisos mais lindos que ele já vira. Felicidade completa, perfeição..., não teve como descrever o que sentiu. Experimentou a exata sensação de ser pai. Dormindo, sabia estranhamente que era um sonho, mas parecia tão real. Os cavalinhos girando, a música tocando e os risos de dezenas de crianças por toda a parte. A cada volta do brinquedo seu “filho” acendia para ele um sorriso do tamanho do mundo.
Os acontecimentos descritos a seguir não são de fácil compreensão. Eu mesmo custo a dar credibilidade, todavia tentarei reproduzi-los o mais fielmente possível. Dez e quarenta da manhã do dia seguinte foi o horário que Alex despertou. Sonolento ainda olhou para o relógio de pulso e vagarosamente vieram todas as lembranças da noite anterior. Julgou que Julia e o bebê ainda estivessem dormindo. Tentou tocar de leve, por baixo das cobertas o braço da esposa sem encostar no ser pequenino entre eles para não despertá-lo. Sentiu a pele de Julia fria e seca. Tentou tocar o bebê e ele não estava lá. Afastou o cobertor com pressa e, pasmo congelou. Viu Julia morta com a pele ressecada e sem cor alguma, os olhos esbugalhados denotavam sofrimento intenso. Parecia uma boneca de cera que derreteu, ou lembrava ainda uma múmia sem as ataduras. Tinha perdido muito peso e as roupas folgadas conferiam-lhe aspecto dantesco. Em verdade reconheceu a esposa naquele arremedo medonho a sua frente pelas roupas e por uma pinta saliente acima da sobrancelha direita. Tentou controlar-se, entretanto não resistiu e desfechou um grito lancinante que ecoou nos paredões de pedra do Mandacaíra. Pensou em fugir o mais rápido possível, mas controlou-se fazendo eficiente técnica de respiração que aprendeu nas aulas de yoga que frequentara no escritório no intervalo do expediente. Com mais calma, sentou-se ao lado da esposa morta e começou a chorar. Tentou ser lógico para tentar entender o que havia ocorrido. Examinou-a superficialmente e foi aí que notou os dois orifícios no pescoço bem acima da veia jugular. Medindo cerca de meio centímetro cada um, eram profundos e simétricos. O que poderia ter feito aquilo? Onde estava a criança? Concluiu então que quem fez aquilo com Julia teria levado o bebê. Notou também que o estado ignóbil daquele corpo, apresentava tal aspecto porque nenhuma gota de sangue havia sob a pele. Achou que ia desmaiar e foi forte o suficiente para cobrir o corpo de Julia e sair da barraca. Quem quer que tenha feito aquela atrocidade podia estar por perto. Deixou tudo para trás e correu para a caminhonete. O dia estava lindo e o sol brilhando mais do que nunca naquele lugar. Sua intenção, além de fugir, era procurar à cidadezinha mais próxima e relatar o ocorrido às autoridades locais. Puxou com energia os cabos que prendiam o avanço da barraca ao carro deixando-o livre. Penetrou como um raio o interior do veiculo. Preparou a fuga de maneira alucinada. Girou a chave com tanta pressa que quase quebrou a mesma dentro da ignição. Acionou a marcha ré para escapar do desnível à frente, fez a manobra, e se embrenhou na mata densa pela mesma trilha que viera no dia anterior. O rosto pálido e o cabelo desgrenhado não lembravam nem de longe o advogado bem sucedido dos fóruns da capital. A todo o momento vinham imagens de Julia a sua cabeça. Como se fosse um álbum de fotografias: Rindo e usando aparelho ortodôntico ainda adolescente, vestindo biquíni verde-limão da primeira vez que viajaram à praia juntos. Sorridente no dia de sua formatura com a beca um pouco folgada. De repente é arrancado de suas divagações por uma dor lancinante atrás e acima do pé esquerdo. Instintivamente aciona o freio do carro perdendo o controle e acertando um pequeno pé de carambola quase voando pelo pára-brisa. Sem o cinto de segurança ele bate violentamente contra o volante ficando atordoado e tombando sobre o banco do carona. Aos poucos o homem agora solitário, vai perdendo aos poucos a consciência não sem antes observar com terror a origem daquela dor brutal. Escondido atrás do banco da caminhonete. Grudado em seu calcanhar, estava ele, o Bebê com sua boquinha cravada nos tendões. Estava bem maior, inchado e com a pele parecendo escamas esverdeadas, os olhos vermelhos e proeminentes. A coluna vertebral curvada e saliente rasgava a pele do dorso e lhe dava o aspecto de um pequeno demônio. De alguma forma Alex sabia que era ele. Estático no banco do veículo ficou ali, no meio da mata, entorpecido como se tivesse anestesiado. Tinha consciência de tudo a sua volta, no entanto, não movia nenhum músculo do corpo. Simplesmente não podia, a não ser o coração que ainda pulsava descompassado. Nos últimos momentos, antes de cessar por completo a respiração, continuava lembrando-se de Julia, agora no dia do casamento. Linda como nunca e com um sorriso que ofuscava até o sol. O último pensamento trouxe certo alívio por saber que em breve estaria com sua amada novamente. Antes de fechar os olhos por completo ainda admirou um pássaro azul que pousara garbosamente no galho de um Jequitibá. Um minuto depois jazia, já sem vida e com uma solitária lágrima escorrida sobre a face.
O dia continuava um espetáculo de luz e beleza naquela manhã do cerrado. Tudo estava em seu lugar: O céu de um azul intenso, a mata e as plantas exalando seus cheiros característicos, os seres nativos e outros nem tanto, interagindo na complexa cadeia biológica compondo magnífico ecossistema.