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As avenidas estavam enfeitadas por luzes brilhantes, e as casas adornadas caprichosamente com os símbolos do natal. Era vinte e quatro de dezembro, e as ruas já estavam vazias. A campainha tocou e Emílio correu para atender a porta. Chegando lá não viu ninguém. Ao fechá-la, verificou que no capacho, havia uma pequena caixa de metal escuro, envolta com um belo laço vermelho. Não agüentou a curiosidade. Ajoelhou-se ao chão e desfez o laço com cuidado. A porta da caixinha abriu com um silvo, mas não havia nada dentro, o que deixou Emílio intrigado. Pegou a caixa pra recolocar o laço, mas quando fechou a tampa, sentiu uma dor aguda na palma da mão, e soltou o objeto. Percebeu um sinuoso corte no centro, que começava a arder. Ignorou o machucado e voltou-se para apanhar a pequena caixa, mas verificou que o objeto já estava devidamente fechado, inclusive com o laço ao seu redor como se nem tivesse sido aberto. O homem fez uma cara de espanto, mas não criou ca so por isso. Largou o misterioso objeto na mesinha da sala, sem se preocupar.

Após a ceia e a entrega dos presentes, os familiares recolheram-se aos seus aposentos. Naquela noite, os pais e os sogros dormiriam na casa de Emílio. O anfitrião deitou-se e o sono não demorou a chegar. Porém, não conseguiu descansar. Teve pesadelos horríveis e acordou subitamente. Desceu até a cozinha pra tomar um copo de água gelada, foi então que ouviu um som peculiar. Passos no andar de cima. Um barulho pesado e compassado. Imaginou que o sogro ou o pai haviam acordado também. Foi até a base da escada esperando quem quer que fosse, mas o som seco dos passos continuou e ninguém surgiu. Receoso, subiu pra averiguar o que acontecia. Forçou a visão ao perceber algo estranho no chão, em frente ao quarto dos sogros. Estranhas marcas de pegadas vermelhas manchavam o carpete, e seguiam daquele cômodo, em direção ao quarto dos pais. Não entendeu o que poderia ser aquilo, então resolveu investigar. Abriu a porta do quarto dos sogros, tentando fazer o mínim o barulho possível.

- Seu Jorge. Está acordado?

Nenhuma resposta.

- Seu Jorge... – tentou de novo.

Nada.

Como o velho não acordava, o genro pegou seu braço para despertá-lo de uma vez, mas em vez disso, Emílio sobressaltou-se ao sentir o braço do homem completamente encharcado com um líquido viscoso e ainda quente. Deu dois passos pra trás e foi tateando a parede procurando o interruptor, até que a acendeu a luz. O casal de velhos continuava deitado, mas não em seu sono plácido. Os dois estavam cobertos de sangue, com as vísceras a mostra. Emílio sentiu o sangue gelar. Olhou ao redor e não encontrou nenhum sinal. Foi aí que sua mente trouxe a imagem das mesmas pegadas em direção ao quarto dos pais. Arregalou os olhos quando ouviu novamente os passos pesados e lentos. Correu para o corredor buscando acordar os pais. Chegou a porta do casal e para seu desespero a porta estava trancada. Colou o ouvido na porta tentando escutar alguma coisa. E ouviu:

- Ahhh... Cláudio!!! Meu Deus!!! Cláudio, não!!! – era a voz desesperada de sua mãe.

- Mãe, mãe. Me deixa entrar. – gritava Emílio chutando e esmurrando a porta.

- Não. Pelo amor de Deus, não faça isso comigo. – suplicava a senhora.

Um urro gutural encheu os ouvidos de Emílio. Em seguida, uma risada demoníaca cortou o silêncio e fez os pêlos do corpo de Emílio arrepiarem-se.

Lembrou-se da sua arma. Estava trancada na gaveta da escrivaninha de seu escritório no andar de baixo. Chegando lá, abriu a gaveta onde guardava sua Magnum 669. Pegou a arma e conferiu o tambor cromado. Estava cheio como sempre. Seis balas. Voltando ao quarto dos pais notou a porta escancarada. Emílio recostou-se na parede e lentamente foi se aproximando do cômodo. Com as mãos trêmulas buscou o interruptor torcendo pra não ter a mesma visão do outro aposento, mas a visão era terrivelmente pior. O pai balançava de um lado pro outro, enforcado por uma grossa corda presa no lustre do teto. O corpo da mãe jazia no colchão, ainda esguichando sangue nos lençóis brancos. A cabeça da mulher fora decapitada, e seus olhos esbugalhados denunciavam o pavor dos últimos segundos de vida. Emílio tremia descontroladamente. De repente, os passos. O homem teve a sensação que o assassino caminhava atrás de si. Virou apontando o revólver a esmo, e viu na parede oposta do corredor, o vulto da figura dantesca andando pela passagem. Por uma fração de segundos, ficou parado. Apenas ouvindo os estranhos sons emitidos pelo monstro.

Somente despertou do transe momentâneo quando ouviu novamente o rugido inumano e devastador da fera. Apertou a Magnum na mão e com cuidado, colocou a cabeça pra fora do aposento. Nada viu. A porta do quarto do filho permanecia fechada. Emílio arrastou-se até a entrada do dormitório. Dessa vez, a porta não estava trancada. Acendeu a luz. Roberto estava deitado na cama. Coberto até o pescoço e virado pra parede. Nenhuma marca de sangue na cama. Emílio respirou fundo e aproximou-se do único filho. Pegou seu ombro com a intenção de acordá-lo, mas o corpo de Roberto girou pra trás ao toque do pai. Nos olhos do garotinho, duas facas de cozinha banhadas em sangue estavam enterradas até o cabo. A lâmina varava as pálpebras da criança, dando a entender que Roberto fora morto ainda dormindo.

Um imenso buraco abriu-se sob os pés de Emílio. Seu grito quase rasgou a garganta:

- MALDITO !!! EU VOU TE MATAR, SEU DESGRAÇADO !!!

Em resposta, só ouviu a mesma gargalhada macabra invadindo seus ouvidos, e fazendo ferver o seu sangue. Ajoelhou-se soluçando, e abraçou o corpo sem vida do filho. Arrancou as facas da face do garoto e cobriu o garoto, como se ele estivesse apenas dormindo.

Dirigiu-se ao seu quarto, sem esperança em encontrar a esposa Leila com vida. Entrou no aposento empurrando a porta com o pé. A mulher estirada na cama não parecia respirar. Emílio seguiu o mesmo ritual. Acendeu a luz e se deparou com mais uma cena de terror. Leila tinha a cabeça emoldurada numa enorme mancha vermelha, formando um tétrico desenho disforme. O sangue descia fugindo de um pequeno orifício em sua testa, que ejetava o espesso fio rubro. A mesma gargalhada grotesca irrompeu seus ouvidos novamente.

O ódio tomou conta do seu corpo. Empunhou a arma com firmeza e desceu as escadas sem fazer barulho. Procurou em todos os cômodos até chegar ao corredor. De repente, o mesmo som de passos vigorosos. Uma respiração arfante e carregada vinha da sala de estar. Emílio endireitou o corpo e fez mira com a arma. Assustou-se com uma explosão vinda da rua. Aparentemente, o poste em frente a sua casa havia sofrido uma sobrecarga, e a energia elétrica cessara. Mesmo assim, na escuridão total, Emílio seguia o som daquela respiração arquejante. Pisou em falso e quase veio ao chão. Abaixou-se e descobriu que havia tropeçado na misteriosa caixa de metal que surgira do nada. Abriu a tampa do pequeno objeto, e de lá ouviu a mesma risada fantasmagórica. Soltou a caixa, assustado, e voltou a sentir a ardência na palma da mão. Pôs-se de pé e caminhou seguindo o som entrecortado de ar entrando e saindo com dificuldade. Parou onde imaginava estar de frente a terrível criatur a maligna. Num estalo, a luz da casa voltou a acender e Emílio arregalou os olhos para enxergar o monstro assassino. O homem percebeu que não havia ninguém a sua frente, a não ser a janela da sala que refletia sua própria imagem. Emílio olhou perplexo pra figura diante de si. Seu rosto estava retorcido. Os cabelos ensopados de suor. O pijama totalmente manchado de vermelho. As mãos besuntadas de sangue. Emílio pensou na pequena e misteriosa caixa de metal. Algo de maligno fora libertado quando ele a abriu. Soltou uma gargalhada insana, logo reconhecendo a mesma risada maldita que ouvira por toda a noite. Emílio fixou seu olhar nos olhos da sua figura refletida no vidro embaçado. Respirou fundo, e disse ao seu reflexo:

- Feliz Natal.

Enfiou o cano da Magnum 669 na boca, e apertou o gatilho, finalmente vencendo o monstro que habitava seu corpo.

 

 

* Conto publicado na Antologia “Réquiem para o Natal”, pela Editora Andross, em dezembro/2008.

 

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