- Gostaria de saber onde estamos . . . – disse a mulher encostada no banco carona de um mustang vermelho, olhava para a paisagem envolta do carro completamente deserta, a savana tomava conta dos arredores da rodovia em que se encontravam.
- Bem, se você parar de reclamar talvez eu consiga olhar o mapa com mais calma, Estefani . . . – respondeu Carlos enquanto abria pela enésima vez o mapa que fora guardado a cinco minutos atrás no porta luvas do mustang. – Acho que rapidamente chegaremos na rodovia principal.
- Você disse isso a cinco minutos atrás, por que não admite que estamos perdidos de uma vez?
- Tudo bem! – gritou Carlos tamborilando o volante – Vamos seguir em frente, não temos outra escolha.
Passaram um bom tempo calados enquanto o mustang rugia debaixo de um sol escaldante, não passava um único carro por eles, parecia que estavam em um lugar esquecido pelo mundo, Carlos começava a achar esquisito já que tinha seguido corretamente o mapa, não era para estarem perdidos, começou a diminuir a velocidade quando avistou uma placa perto a uma curva da estrada.
- O que foi desta vez? – perguntou Estefani.
- Vamos dar uma olhada naquela placa, talvez nos ajude a descobrir onde estamos.
Carlos estacionou ao lado da placa, e rapidamente sentiram um odor pútrido e fétido, o que fez Estefani fechar um pouco o semblante assim que Carlos estacionou.
- Parece que há algum animal morto por aí! – disse tampando o nariz.
Carlos desce do carro e vai em direção à placa, estava já bem descuidada e gasta pelo tempo, a tintura já havia descascado em algumas partes de modo que ele teve alguma dificuldade em ler o conteúdo.
- Rodovia . . . – lia em voz alta, havia um número que já estava um pouco apagado, mas ele ainda pode ler a marca da tinta que havia ficado ali – 64!
- Rodovia 64? – disse Estafani – Não existe esta rodovia no mapa!
Carlos agora olhava o estado da placa, havia marcas de mãos em algumas partes, porém não era tinta ou terra que aquelas mãos se sujaram . . . era sangue, o homem tentou imaginar o que aquelas pessoas haviam passado quando estavam marcando as mãos naquela placa, e só pode pensar em desespero e medo.
- Meu deus . . . – disse Estefani ao lado de Carlos, estava ali há algum tempo – Isto é sangue!
- Vamos sair daqui, rápido! – disse Carlos, dando as costas para a placa.
- O que foi, aconteceu alguma coisa?
- Não sei, alguma coisa nessa rodovia não está me cheirando bem! – disse entrando no carro, sendo seguido por Estefani.
Os dois continuaram seguindo pela Rodovia 64 até o anoitecer, já havia escurecido quando Estefani havia adormecido no banco carona e ele continuava dirigindo, havia esfriado um pouco e os pêlos de seu braço começavam a eriçar do frio, resolveu fechar os vidros do carro, ligou o som e a voz de Bob Dylan ecoou por todo o carro com a música Mr. Tambourine Man, Carlos gostava da música, lembrava sua lua de mel, na época em que não brigava com Estefani . . . agora tudo era diferente, tudo ficara diferente na verdade, desde que ela sofrera o aborto.
- Meu garoto . . . – disse em voz alta com os olhos marejados.
Sempre se pegara pensando em seu menino, ia nascer um menino lindo, iria-lhe ensinar a jogar futebol, iria ser atleticano, já até havia comprado a camisa do time, no mesmo dia em que a mulher recebera a notícia de que Deus levara o seu filho . . .
Estava pensando longe quando de repente ele observou uma silhueta na orla da estrada, parecia ser uma pessoa, ele freou de repente acordando Estefani.
- O que foi? – perguntou assustada ajeitando-se no banco.
- Olha . . . – disse o homem em voz baixa apontando para a parte de trás do carro. – Aquela pessoa, quase a atropelei, mas parece que ela nem notou.
Estefani forçou um pouco a vista e notou uma pessoa andando vagarosamente,estava no sentido oposto aos seus, não conseguiam ver se era homem ou mulher.
- Vamos embora daqui pelo amor de deus! – disse com os olhos um pouco assustados.
- E se ela estiver precisando de ajuda? – perguntou Carlos um pouco preocupado.
Estefani ia responder quando uma figura pálida apareceu na janela ao lado de Carlos, deu um grande grito de susto, fazendo o marido pular e olhar para a mulher que estava na janela, seus lábios roxos tremiam de frio, usava roupas manchadas de sangue.
- Meu deus! – disse Carlos abaixando o vidro. – Você está bem senhora?
A mulher não responde nada, somente olha para dentro do carro,e fixa os olhos no banco de trás.
- Olha me desculpe, quase a atropelei, por favor quero ajudá-la . . .
- Onde está a Tamires? – perguntou de repente, fazendo Carlos e Estefani se entreolharem.
- Desculpe . . . quem? – perguntou Estefani.
- Ela acabou de passar pelo carro . . . – respondeu a mulher.
- Ninguém passou por aqui a não ser a senhora, está lembrada? – perguntou Carlos.
A mulher fixa os olhos agora nele, sem dizer nada continuou seguindo pela estrada , só que agora em direção às savanas.
- Essa mulher precisa de ajuda!- disse abrindo a porta para segui-la, mas teve a surpresa ao ver que ela tinha desaparecido pela savana, ficou parado por um tempo.
- Carlos, se você não entrar neste carro agora, eu assumo a direção e largo você aqui sozinho! – gritou Estefani, fazendo o marido voltar novamente para o veículo.
- Preciso descansar! – disse enquanto colocava o carro a uns cem por hora.
Como se algo estivesse escutado seu lamento, eles enxergaram de longe uma pequena estadia de madeira, parecia ter dois andares, era estranho haver uma casa que nem aquela em um local completamente afastado do mundo, não possuía nenhum cercado envolta do imóvel, era simplismente uma casa perdida pela rodovia, se fosse algum motel não deveria ter ninguém hospedado já que não havia carro algum parado por perto.
- O que está fazendo? – reclamou Estefani ao ver que Carlos havia parado em frente ao motel.
- Vamos pernoitar aqui, já não agüento mais dirigir! – disse.
- Se você não tivesse errado o caminho não iríamos precisar parar . . .
- Bem . . . e se você tivesse tirado sua carteira de motorista quando resolvi pagar auto-escola para você também não precisaríamos, portanto, estamos quites! – respondeu batendo o porta malas com violência e indo em direção à porta de entrada.
O hall de entrada estava iluminado por um castiçal localizado em cima de uma enorme mesa de madeira já coberta por poeira, havia quadros pendurados por todos os lados nas paredes, pinturas antigas de pessoas com expressão que provocaram arrepios em Estefani, esta olhou para Carlos que estava indo em direção ao balcão onde se encontrava ao fundo um molho de chaves que deveriam ser dos quartos e um armário.
- Olá! – disse Carlos gritando em voz alta, tocando a campainha. – Precisamos de uma pernoite.
Eles escutaram passos vindos da escada de madeira que ficava atrás do balcão, seja o que fosse vinha andando vagarosamente pelas tábuas rangentes dos degraus, os dois se entreolharam um pouco com medo, notaram um vulto vindo da escuridão das escadas segurando uma vela, rapidamente viram que se tratava de uma senhora, muito magra, com o rosto cavernoso, os cabelos branquíssimos presos em um coque, trajava um vestido preto, a vela que vinha mantendo embaixo do rosto, revelava ainda mais assustadora a figura.
- O que desejam? – perguntou.
- Estamos precisando de um quarto, senhora, vocês tem algum sobrando? – perguntou Carlos.
- Quanto vocês tem? – perguntou.
Carlos abre sua carteira e coloca uma nota de cinqüenta no balcão, a velha vai ao molho de chaves e pega a de número 64.
- Sigam aquele corredor, é a última porta. – respondeu a velha entregando a chave. – Levem uma vela, não temos luz.
Estefani pega a vela e eles seguem pelo corredor, o homem ainda olha para trás percebendo que a velha ainda os observava.
- Algo nessa mulher me deixou apavorada! – disse Estefani quando já estavam quase chegando ao quarto.
- Este lugar não é o dos mais bonitos, querida, não só a velha.
Eles abriram a porta do quarto e entraram erguendo a vela, revelando uma cama de casal, e uma cômoda que possuía uma penteadeira, o espelho também coberto de poeira já não mostrava reflexo algum, a direita da cama havia um lavatório.
- Vou me trocar! – disse a mulher entrando no lavatório e trancando a porta.
“Onde diabos vim parar?”, pensava enquanto tirava a blusa, estava viajando com seu marido, que agora, para ela, virara um estranho, todos haviam virado estranhos quando perdera seu filho, já não tinha vontade para mais nada.
Estava tirando seu jeans para colocar a camisola quando escuta algo vindo do lado de fora do banheiro, algo sendo arrastado.
- Carlos, já disse para não arrastar as malas pelo chão! – disse de dentro do banheiro sem obter resposta, ouviu então a porta do quarto se fechar.
Ela resolve colocar a camisola rapidamente e abrir a porta do lavatório, notou que o quarto estava vazio e as malas estavam no mesmo lugar em que o marido havia deixado quando entrara.
- Carlos!- chamou pegando a vela que deixara em cima da penteadeira.
Andava e direção à porta quando escuta um choro de bebê, que parecia vir do próprio quarto, ela começa a olhar desesperada em sua volta, parecia que o choro começava a ficar cada vez mais alto, sentiu que alguém a empurrava para a cama, já deitada não conseguia mais se mover, nem abrir os olhos, queria gritar de desespero, mas não conseguia, o choro do bebê estava agora estridente.
- O que é isso? – perguntou desesperada enquanto sentia um par de mãos e pernas se debatendo dentro de seu útero, como se ainda estivesse grávida, colocava a mão em seu ventre e parecia que a coisa que estava lá dentro se desesperava, se debatia e mordia suas vísceras enquanto chorava cada vez mais alto, fazendo Estefani urrar de dor, já não tinha certeza se estava consciente ou não, só sabia que a coisa que estava dentro dela queria sair, e estava acabando com ela.
- Meu senhor . . . – dizia sem pensar quando tudo parou, os choros de bebê, a coisa que estava dentro dela e a dor, ela finalmente consegue se mover, consegue abrir os olhos e levantar-se da cama, estava desesperada pegou a vela e saiu correndo, as tábuas do corredor rangiam mais ainda quando se corria nelas, passou pelo hall de entrada abriu a porta com violência e saiu pela estrada à noite.
A velha senhora do balcão viu somente a porta abrir-se revelando a estrada e fechar-se novamente, olhou de modo estranho para o velho que agora vinha do interior de um quarto.
- Guardou o corpo do marido? – perguntou a velha.
O velho sorriu para ela, e assentiu.
- E o corpo dela? – perguntou novamente a velha.
- Nem tive o trabalho de matá-la ela fez isso por si mesma! – disse o velho assentando-se em uma cadeira de balanço – Parece que teve uma convulsão, sua boca estava espumando ainda quando entrei, esfaqueou-se na região abdominal, suas vísceras saíram.
- O mesmo aconteceu com as outras duas! – disse beijando o velho – Não podemos deixar ninguém habitar o nosso lar, é a nossa rodovia, nosso mundo, não podemos deixar ninguém corromper nosso filho . . .
O velho então vai ao quarto e vem arrastando uma cadeira de rodas carregando um menino síndrome de down, veio gemendo de dentro do quarto abraçou a mãe e o pai.
- Que linda família somos! – disse o velho.
A rodovia estava gelada, quando Michel vinha dirigindo seu carro, estava distraído com a música que tocava no rádio quando viu uma silhueta passar em frente ao seu carro, parou de repente, assustado.
- O que foi isso? – perguntou assustado, quando viu uma mulher pálida e abatida bater na janela ao seu lado. – Você está bem?
Notou que a mulher sangrava na barriga.
- Você está bem?
- Onde está o Carlos?
Michel ficou observando-a enquanto a mulher foi andando pelas savanas, até desaparecer . . .
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