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A escuridão já dominou o dia. A lua cheia ilumina a paisagem com sua claridade prateada. Os seres viventes escondem-se em suas tocas, apenas os mais corajosos ou os mais temerosos se aventuram nos recantos da escuridão. Os predadores deixam suas tocas e avançam procurando pela caça, certos de que triunfarão. Pelo alimento e pelo prazer de matar. Ter em suas mãos a opção de escolha, decidindo quem vai viver ou morrer, o que melhor desejar.

São nessas noites que sou atormentado por intensa dor de cabeça. Preferiria esmagá-la com uma marreta do que sentir tamanha dor. Ver meu cérebro diluindo-se e espalhando-se pelo ar após um golpe certeiro. Poderia ser melhor do que esta dor que emana de minhas profundezas encefálicas. Se assim o fizesse, a dor acabaria. Infelizmente a dor é um justo preço a se pagar pelo prazer. O prazer das caçadas. De ser um predador.

Pois após as dores intensas de minha cabeça é que ele surge. Domina minha mente. Ele, aquele que se oculta dentro de todo ser humano. O animal selvagem que tentamos ocultar. Nossos instintos assassinos que nos mantém ligados ao mundo natural. Durante os dias normais permanece oculto sob o manto da consciência. Então, surge a lua, bela e reluzente. Divino encanto que toma conta de meu corpo. Doce amada tão distante nos céus. Para você dedico todos os meus sacrifícios, para você destino todo o sangue derramado e a carne devorada. Todo corpo violado, todo coração despedaçado.

Recordo-me da noite anterior, cada momento gravado em minha mente. Cada segundo parecia uma eternidade. Saí de casa, iluminado pela minha doce amada observando-me do alto, imaculada no céu. Respiração ofegante, um misto de odores atrativos, escolha seu prato e sirva-se. Perambulei pelas ruas andando pelos recantos obscuros. Corpo curvado e oculto, um predador espreitando suas presas. Observando, analisando, escolhendo qual seria o prato principal. Só de lembrar do sabor da carne em contato com minha língua já começo a salivar. Meu corpo todo estremece, um rugido surgiu das profundezas de meu corpo. Alto e feroz, ecoou pelas ruas da cidade semi-adormecida. Meu corpo não parece mais o mesmo. As roupas parecem me aprisionar, livro-me delas. Sinto a liberdade. Livre das vestes sociais que aprisionam a todo cidadão. Livre como vim ao mundo. Sem roupas e sem crenças. Um animal como qualquer pessoa, apenas vivendo.

Distante no meu campo de visão ela surge. Vindo em minha direção. Andando apressada na escuridão da madrugada. Vislumbro a lua, minha amada. Esta seria seu sacrifício. A batida dos sapatos dela na calçada ecoam pela rua vazia. Barulho constante e regular. Cada vez mais próximo. Permaneço oculto nas sombras, tal qual governante que manipula seu povo. Mais próxima ela está, sinto seu cheiro. O medo exala dos poros de sua pele. Aroma incomparável, o perfume mais atrativo que alguém poderia querer. O medo dos covardes e dos corajosos, sentimento que nos mantém vivos. Mas para ela o medo não seria o bastante. Não a ajudaria em nada.

Em minha frente ela está, pulo sobre ela, como um lobo pula sobre um coelho. Derrubo-a no chão. Ela tenta se livrar de mim. Seguro sua cabeça com minha mão, e faço seu crânio encontrar o rígido chão. Apenas o suficiente para a inconsciência dominar seu corpo. Carne viva é disso que preciso. Carne fresca e sangue quente. Vísceras pulsantes. Arrasto-a para o recanto obscuro de um terreno vazio. O local perfeito para fartar-me e saciar minha fome, completando o vazio que se apossou de meu pútrido encéfalo. O corpo inconsciente em minha frente, com respiração ofegante, tudo será como antes. Deixo-a desnuda, livre das vestes, cheiro a carne fresca. Olho para sua face, um filete de sangue escorre de uma das narinas. Lambo e degusto o sabor deste delicioso líquido vermelho. Fluido agradável que me embriaga e me entorpece. Dedico a você, lua, minha amada. Tão pálida e distante no céu. Abaixo-me sobre o corpo inerte. O rugido verte de minhas entranhas e é ema nado por minha garganta.

A vítima acorda. Olha para mim assustada. Como se tivesse visto um fantasma. Ou talvez um monstro. Não sou nenhum, nem outro. Sou animal, sou homem. Lobisomem. Abocanho sua face, perfuro sua pele sedosa com meus dentes afiados. Que arrancam pele, carne e cartilagem. Desfazendo a maquilagem. Entre uivos, devoro-a pedaço a pedaço. Banho-me no líquido rubro. Perante o olhar atencioso de minha amada. Carne vermelha e sedosa.  Suntuosa refeição. Arranco os membros, primeiro braços, depois pernas. Ação que me trás recordações internas. Arrebento seu abdômen, retiro os intestinos que se esfacelam e liberam seu conteúdo. Impregnando o ambiente com agradável odor, melhor do que tudo. Minha amada saciada está, e assim permanecerá. Até que outra vez apareça no céu, indicando que eu devo caçar, para que assim eu possa mais uma vez amar.

 

Comentários  

0 #1 Bioman 03-10-2009 09:41
Marius Arthorius apaixonado... Curta!
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0 #2 Emili 03-10-2009 11:00
Que maneira de amar!
Mario tu tá cada vez mais escrevendo contos e poemas aterrorizantes...

Sucesso à ti ;-)
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0 #3 OláAlessandro 04-10-2009 06:53
Gostei muito do seu conto!
Meus Parabéns!
Espero que possa ler o meu também.
Ele se chama histórias de uma não vida.
Espero que goste!
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0 #4 A evolução de um grande escritor!MÁRSON ALQUATI 05-10-2009 07:40
Nossa! Quem acompanha os contos do Marius como eu não pode deixar de se surpreender com a evolução desse talentoso escritor seja na linguagem, seja na mensagem a ser transmitida. Meus parabéns, Marius! Cada vez mais admiro o seu trabalho... Um forte abraço!
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0 #5 Marius Arthorius 05-10-2009 20:14
Obrigado a todos pelos comentários, fico muito feliz que tenham gostado! Abraços!
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0 #6 ola Mariuscristiano 06-10-2009 17:41
Parabéns Marius...tu sabes que eu admiro muito os teu trabalho..parabés Marius....
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0 #7 Angela Oiticica 02-12-2009 22:39
Gostei do seu conto. Lobisomem caçador e a lua sua grande paixão.
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0 #8 Grande Mário!Peter Menegat 30-08-2010 19:47
Eu sou seu fã cara!
Show de bola esse conto, eu me inspiro muito no que você escreve cara, afinal você é um escritor extraordinário!
Abração e sucessão irmão de escrita! :lol:
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0 #9 LicantropoRomeu Martins 14-01-2011 21:01
Gostei do conto. São tantos livros dedicados aos vampiros em nossa terra, acho que os lobisomens merecem mais espaço, com abordagens como esta, bem selvagem, por exemplo.

Parabéns!
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0 #10 RE: Louvor à Lua CheiaTatiana Ruiz 14-01-2011 21:14
Wow!

"Até que outra vez apareça no céu, indicando que eu devo caçar, para que assim eu possa mais uma vez amar."

Adorei isso!!! Muito bom. É intenso, prende a gente e não dá MESMO pra se desvencilhar. É quase como se a lua nos chamasse pra fazer um banquete junto com ele...

Meus parabéns ao autor^^
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0 #11 RE: Louvor à Lua CheiaThais Pampado 14-01-2011 21:25
Wow!
Realmente esse foi um ponto de vista inovador, muito interessante o jeito como você narrou a percepção do lobisomem em relação à caça e a lua! Parabéns!
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0 #12 Loup GarouCândido Ruiz 15-01-2011 10:29
A muito tempo que não leio um texto que exponha tão bem a essência do mito do Lobisomem. Parabéns!
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0 #13 ameiiii !!!lais miriam moura dos santos 15-01-2011 15:51
muito bom esse conto,adoro esse tipo de histórias, parabéns !!! @laistv
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0 #14 RE: Louvor à Lua CheiaRenata Galindo Neves 15-01-2011 16:31
Meus parabéns! Gostei da forma como seu texto expõe os pensamentos carnais do lobisomem, principalmente o final, em que o amor pela Lua fica deleitosamente justificado.

@candygn
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0 #15 RE: Louvor à Lua Cheia@sorabarbosa 15-01-2011 18:05
Adorei! Lobisomens são criaturas muito interessantes!
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0 #16 RE: Louvor à Lua CheiaPetra Anny Frey 16-01-2011 00:07
Olá!

Nossa, gostei bastante do conto, o ataque impiedoso foi arrepiante... A citação de órgãos pulsantes e sangue quente dá uma sensação bem vívida e oportunamente incômoda, gostei bastante ^^

@Petra_frey
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0 #17 RE: Louvor à Lua CheiaJulia Hille 16-01-2011 00:10
um conto interessantíssi mo de lobisomem...

Gostei desse pela brutalidade bem típica das criaturas ferozes que são, a riqueza de detalhes engrandece muito o texto.

---
@Yulia_frey
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0 #18 Muito bomAlexandre Nery da Silva 17-01-2011 16:48
Olá, Marius.

Gostei bastante do texto. Trouxe de volta o lobisomem clássico, o animal selvagem, além do bem e do mal.

Faz tempo que não leio algo assim. Muito bom mesmo.

(PS: sem querer parecer chato, mas passou uma palavra equivocada pela revisão: "ema nado", seria "emanado". Um abraço.)
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0 #19 Muito BomAlexandre Nery da Silva 17-01-2011 16:55
Como eu disse no comentário anterior, conto muito bom, realmente.

Aqui minha identificação no twitter para a promoção Sagas:

@neryunf
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0 #20 A Marca do LoboMary 18-01-2011 20:15
Esse conto foi de arrasar, gostei demais!
Esse sim é o lobisomem que eu acreditaria na existência.
Parabéns Marius, continue escrevendo que eu vou querer ler mais e mais. =)

@Maryinbrazil
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0 #21 RE: Louvor à Lua CheiaJulio Cesar Vieria 19-01-2011 16:12
Uall !! Muito bom, muito legal essa coisa de lealdade, servidade, a lua. Fantástico este conto. Como todos os outros que ando lendo.

@HPJulioCesar
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0 #22 RE: Louvor à Lua CheiaFlávio Moraes 19-01-2011 16:37
Um conto muito bacana que buscou expressar toda a natureza selvagem escondida dentro das pessoas.

Devo citar 2 partes que me chamaram a atenção, que foi quando a fera retira a roupa(prisão do verdadeiro ser), e quando a vítima foi atacada no rosto, pois foi realmente repugnante, e isso é algo bom nesses contos.

É isso aí.

@emforest
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