Sáb, 29 de Agosto de 2009 15:01
Escrito por Alessandro Reiffer
No mês de março do ano de 1547, cheguei pela primeira vez às vastas terras daquela nova e magnífica região. Sendo eu um eterno apaixonado pela natureza e por suas mais diversas manifestações, possuía apenas um único objetivo ao deixar a Europa para visitar aquelas surpreendentes terras a pouco descobertas: conhecer, através de um contato direto e perdurável, toda a sua fantástica e paradisíaca flora e fauna, alucinado como estava pelas quase sobrenaturais histórias que me eram narradas na Europa a respeito das luxuriantes florestas e dos deslumbrantes e estranhos animais que aqui existiriam.
De modo que ao chegar ao meu destino, não perdi tempo em organizar uma expedição para me acompanhar em uma excursão ao interior de uma floresta que aparentava ser infinita e cujo aspecto monumental e misterioso irradiava uma terrível sensação de estarmos diante de algo absolutamente sobre-humano, e que, por isso, deveríamos respeitar e reverenciar como os próprios deuses.
Diferentemente do que geralmente ocorria, minha pequena expedição não tinha nenhum interesse de exploração econômica ou científica, mas, ao contrário, consistia em algo de puro interesse contemplativo, artístico e poético, eu diria, apenas para satisfazer e elevar a alma com tão majestática grandeza, cujos inextrincáveis enigmas e mistérios me seduziam de forma arrebatadora.
Aos poucos, com certa dificuldade, mas também com imenso prazer, ao menos de minha parte, eu e meus companheiros fomos penetrando naquela vegetação exuberante e infindável, que aparentava ser o cenário de alguma nebulosa lenda mitológica. Instantes depois, tomado de uma fascinação que me exaltava a consciência, sem saber esclarecer como, vi-me, em determinado momento, sozinho em meio à labiríntica selva. Todos os meus companheiros haviam desaparecido, não ouvia mais suas vozes ou passos ou o som de suas ferramentas para abrir passagem na mata... Agora, era só eu e a natureza selvagem e monárquica. Longe de sentir-me amedrontado, fui invadido por uma sensação de puro êxtase e tranquilidade, que me fez prosseguir por entre a vegetação estranhamente emocionado e confiante...
Ao longo de meu percurso, em que avançava lentamente, passava ao lado de gigantescas árvores de aspecto solene que deixavam a impressão de moverem-se em minha direção, como que me observando na curiosidade de entender a minha presença naquele mirífico local, muito provavelmente sendo pisado pela primeira vez por um membro da civilização européia. Encontrava-me cercado pelas mais estranhas e exóticas formações vegetais, ouvia maravilhado os esplêndidos e bizarros cantos de aves absolutamente desconhecidas, alguns belíssimos e celestiais, outros verdadeiramente assustadores. Mesmo em completa solidão, não me sentia solitário, era como se todos aqueles seres desconhecidos consistissem em companheiros confiáveis e conscientes de minha presença, e eu tinha a esquisita impressão de que esta não era por eles considerada hostil...
O dia, um tanto quente, mas cujo calor era pouco percebido no frescor daquela sombria e fechada floresta, resplendia com um sol titânico que imperava no céu de manto plenamente azul. Ventava uma brisa salutar por entre a vegetação, e com ela miríades de perfumes e aromas que se poderia afirmar terem vindo do paraíso, ou de outras regiões celestiais... Creio que não devia passar das 9 horas da manhã, quando vi o primeiro mamífero na floresta, justamente no momento em que me deliciava com os perfumes e incensos naturais. O animal era algo como um pequeno cachorro, semelhante à raposa européia. Olhou-me fixamente, para em seguida prosseguir em seu caminho com absoluta tranquilidade. Enquanto isso, a complexa sinfonia dos pássaros prosseguia. Infinidades de borboletas multicores e outros insetos inconcebíveis esvoaçavam pelos ares, ao mesmo tempo em que eu verificava que já me encontrava com a roupa molhada devido ao contato que tivera com o orvalho cintilante que gotejava de todas as folhas e com as etéreas névoas de umidade que se alastravam por entre as árvores. Simultaneamente, eu podia avistar um sem-número de aves nunca vistas ou descritas, em um espetáculo estonteante e comovente.
Sentia-me imerso em outro mundo, em um selvagem universo de magia, absolutamente olvidado por toda civilização humana. À medida que avançava mais e mais por entre a densa e sonora floresta, o número de animais que avistava foi aumentando consideravelmente, e o espetáculo de uma inaudita e estarrecedora natureza dominou-me de forma perene, tanto que eu quase não me recordava do fato de que me encontrava isolado em um ambiente, além de mágico, potencialmente perigoso, cujos perigos eu desconhecia quase que totalmente.
No entanto, isso não me preocupava, pois sou dotado de um espírito sonhador e apaixonado, jamais prático e calculista. De modo que não senti medo ao avistar enroscada em um alto galho uma imensa serpente esverdeada que calmamente me vigiava. Então, passei a despender mais atenção às copas das árvores e agora contemplava pássaros absolutamente inacreditáveis, de uma plumagem quase sobrenatural, com variações e combinações de cores que pareciam ter surgido da mais louca imaginação. E tudo se transformou em uma eufórica gritaria agradabilíssima emitida por aquelas aves de enormes bicos multicores, tão deslumbrantes que jamais pensei pudessem existir.
Avistava ainda pequenos felinos, diversos tipos de répteis, roedores, alguns gigantescos, e inimagináveis macacos, alguns muito pequenos, um tanto estranhos e diferentes de tudo o que já conhecera, extremamente curiosos, ágeis e irrequietos, com espessa pelagem brilhante e de várias cores, algumas chegando a um encantador dourado, de aspecto um tanto delicado e simpático. Também me impressionou a visão daquele imenso animal caminhando por entre a mata, assemelhando-se levemente a um cavalo baixo e gordo.
Após mais algum tempo de difícil, porém deleitosa caminhada pela floresta, principiei a ouvir o som de correntezas. Guiado pelo som, atingi as margens de um colossal e belíssimo rio. Então pela primeira vez senti verdadeiro medo, pois ao olhar ao alto de uma imponente árvore de flores vermelhas e amarelas divisei, em um de seus galhos, um enorme felino muito semelhante a um leopardo, talvez um pouco maior. O animal me observava de forma fixa, e eu, extático e assustado, mantive-me imóvel, mirando os olhos da fera detidamente. A partir desse instante não sei dizer o que ocorreu comigo, se foi realidade ou alucinação. Só o que sei é que permaneci ali com os olhos cravados no felino, e ele com os seus nos meus, enquanto o cenário se modificava de forma absurda, em uma velocidade vertiginosa. Somente o que permanecia inalterado era minha localização, a do felino e a da árvore em que ele se encontrava semideitado...
Então, percebendo as extremas alterações, desviei meus olhos do animal para ver o que ocorria ao meu redor, e para meu estarrecedor assombro, todos os elementos da floresta passaram a se modificar numa rapidez inaceitável. Árvores morriam e eram substituídas por outras que cresciam em inenarrável aceleração. Surgiam animais como que do nada e desapareciam de maneira tão rápida que eu nada saberia dizer sobre eles. Chovia em questão de segundos, ou menos que isso, e logo surgia o sol. Dias e noites se sucediam como relâmpagos, e tudo se alterava de maneira cada vez mais veloz. Até que não tive dúvida de que se tratava de uma inexplicável aceleração do tempo...
E eu ali permanecia estático, com somente a árvore e o felino diante de mim, enquanto ao meu redor nada continuava igual nem por uma fração de segundo. De modo que pude ver a presença de homens na floresta, e o número crescia incessantemente. E após, percebi que tais homens destruíam a mata, matavam os animais, e logo já se avistavam construções cujo número aumentava espantosamente. E o rio corria a meu lado, e em suas águas, grandes barcos desciam em absurda velocidade. E quando voltei meus olhos à direita, já não havia mais floresta, havia agora uma cidade habitada por milhares de humanos, e a cidade crescia em um ritmo assustador. E prédios gigantescos assomavam diante de meus olhos, e passei a vislumbrar máquinas estranhas que se moviam sozinhas, cada vez de maneira mais rápida, e então vi outras máquinas absurdas que voavam frenéticas pelos ares, como gigantescos pássaros de ferro.
E os ares foram escurecendo, cada vez mais cinzentos, e o rio foi reduzindo sua extensão, suas águas foram perdendo força, tornando-se cada vez mais sujas, imundas. No entanto, eu ali permanecia, com a árvore e o felino, sem que ninguém nos visse ou percebesse a nossa presença. Era como se estivéssemos em outra dimensão, jamais afetados pelas ocorrências exteriores.
E, finalmente, uma cidade hercúlea, ciclópica, caótica, infinda e superpovoada ergueu-se diante de meus olhos atônitos, e soube, não sei como, que ela era uma cidade de um país chamado Brasil, e que o rio ao meu lado, agora podre e morto, chamava-se Tietê. Porém, a corrida do tempo não cessou. Após a cidade atingir seu auge, vi o seu declínio vertiginoso, a sua destruição, contemplei a sua ruína causada por devastadoras catástrofes, por guerras monstruosas, por calamitosas doenças, vi a morte imperar absoluta, vi terremotos e dilúvios brutais, explosões inimagináveis, furacões de fúria infernal, enfim, vi o fim definitivo de toda a cidade, a morte de todos seus habitantes. E somente o que me ocorria era ver, porque todos os meus outros sentidos pareciam neutralizados. Eu nada ouvia, não sentia nenhum cheiro, nem frio, nem calor, nada além das visões.
E atingi o instante, sempre seguindo a progressão de absurda velocidade do tempo, em que ao meu redor não existia mais nada, em definitivo, a não ser um infindável deserto de uma matéria horrível e informe, que transmitia total desolação, sob um céu intensamente vermelho, em chamas eu diria, até que finalmente veio o fogo. Uma combustão apocalíptica e insalubre apoderou-se da massa informe e indeterminável e consumiu tudo. Então, nesse instante, o imenso felino, que continuava me fitando, para a expansão de meu assombro, o felino, ou algo ou alguém através dele, falou:
- Agora está concluído. Em breve virá o grande recomeço. Quando tu, amigo, chegaste até aqui, eu vivia em uma interminável floresta intocada e plena de vida. Mas o tempo passa, como aceleradamente presenciaste. E, talvez, tenhas te perguntado para onde foram todos os vegetais e animais que aqui existiam. Pois eu digo que seus corpos físicos foram aniquilados, porém suas almas permanecem, continua o ciclo da existência em uma outra dimensão do infinito universo, numa transmigração de acordo com as leis cósmicas. Lá, aguardam o momento preciso em que deverão voltar e “reconstruir” a gigantesca floresta que ocupou estas terras. Como a água que é evaporada pelo sol e depois retorna como chuva. É a sábia lei do Eterno Retorno.
Nesse momento, deixei de ouvir a humana voz do felino e de ver qualquer coisa. Creio que adormeci ou desmaiei... Não sei. Só o que sei é que quando retomei a consciência, eu me encontrava em uma imensa embarcação, em um navio pertencente a uma esquadra, que singrava o mar e se aproximava de uma terra desconhecida, da qual somente se avistava uma vasta e infindável floresta...
Após alguns instantes de verificação, pude comprovar, ao menos para mim, aquilo que intuitivamente suspeitava. Aquelas terras estavam sendo descobertas mais uma vez, tudo estava se repetindo. Já haviam sido descobertas na anterior civilização, cujo fim contemplei, por um homem chamado Cabral. Agora, quem realizaria a nova façanha chamava-se Labrac. E lá, adiante, eu podia vislumbrar a colossal floresta novamente erguida e vitoriosa, conforme profetizara aquele fantástico felino... “Não há nada de novo sobre a terra...”
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