Sex, 14 de Agosto de 2009 09:43
Escrito por Matheus Machado
“Bebamos! nem um canto de saudade! Morrem na embriaguez da vida as cores! Que importam sonhos, ilusões desfeitas? Fenecem como as flores!”
Álvarez de Azevedo – Noite na Taverna
- Vamos não fique assim! – disse João Roberto ao amigo, ambos sentados ao canto de um boteco escuro e um pouco mal cuidado – Vamos, tome mais uma dose!
- Não sei o que aconteceu, até agora não entendi os fatos direito, não sei o que fiz! – Lúcio deu um enorme soluço, o álcool das branquinhas já havia começado a fazer efeito a muito tempo.
- Mulher, traga mais uma dose para mim e meu amigo! – gritou João Roberto e a garçonete trouxe mais uma garrafa das amargas e encheu os dois copos com o líquido transparente.
O amigo ficou observando Lúcio virar de uma só vez e fazer uma cara feia para o líquido ardente em sua garganta.
- As mulheres são assim meu caro amigo, eles ficam com você enquanto você tem tudo, quando a situação piora elas se mandam e procuram outro para sulgar . . .
- Eu sabia, sabia, a maior perdição dos homens . . . A Mulher! Vamos me conte, o que essa fez dessa vez? Onde ela está?
- Preci, preciso te levar ao começo da historia portanto, caro amigo, e você entenderá minha atitude ao final.
“Conheci Roberta em plena noite de verão, estava voltando de uma noite em uma dessas casas noturnas, francamente não me lembro em qual delas eu havia passado, estava muito bêbado e cambaleando pelas ruas, foi quando a vi . . . lá estava Roberta, aqueles cabelos longos e negros, com cachos ao final,a pele branquíssima, como a de uma rosa branca . . . e os olhos, enfeitiçavam os homens que fossem atravessados por seu olhar . . . ”
- Tem certeza de que não andava a sonhar, meu caro?
- Escute, caro amigo, pedi que não me interrompeste!
- Prossiga pois . . .
“Roberta caminhava em minha direção, parecia que estava perdida pelas ruas de Belo Horizonte, eu mesmo ainda mal das idéias devido ao álcool, resolvi dar-lhe alguma ajuda, caso precisasse.
- Imagino que a senhora precise de ajuda! – perguntei.
- Por favor, meu senhor, estou perdida, não sou dessa cidade e não tenho onde ficar!
- A senhorita vem de onde . . . ?
Porém a mulher não me respondeu, limitou-se somente a me encarar com aqueles olhos enfeitiçantes, eu me cedi ao encanto.
- Qual o seu nome senhorita?
- Me chamo Roberta! – respondeu a mulher começando a se aproximar de mim com o seu rosto.
- Preciso de um lugar para passar a noite! – respondeu em to de indefesa – Não posso ficar aqui nessa rua, escura, a essa hora da madrugada...
- Faço questão de você passar a noite em meu quarto, moro em uma pensão logo ali na esquina...
Roberta suspirou em meus braços e rapidamente aceitou minha oferta, aquela atitude me rendeu uma noite calorosa, adormecemos já ao amanhecer, ela sempre em meus braços . . . . . ”
- Espere um pouco, está me dizendo que Roberta passou a noite com você no mesmo dia em que lhe conheceu? – perguntou João Roberto em tom de ironia.
- Você está aí, a zombar de minha pessoa, é porque ainda não sabe o que está por vir!
- Pois até agora tudo não passou de uma enrolação!
- Mulher, outra dose! – pediu Lúcio.
“ Os dias que se seguiram foram de muitos calores, a cada noite Roberta me surpreendia ainda mais, gostava de um bom vinho, amava o teatro e a música clássica, passeávamos de barco pela lagoa do Parque Municipal enquanto eu a olhava nos olhos e ela ria sem graça de volta para mim, tudo estava bem até a manhã do dia seguinte a este passeio . . . levantei-me já era um pouco mais tarde do que o normal, percebi um espaço vazio ao meu lado, chamei pelo nome da desgraçada, e ela não me respondeu . . . Foi quando me pus de pé, troquei minha roupa e fui em direção à porta do quarto, queria encontrá-la.
Não precisei ir muito longe, Roberta subia as escadas correndo vindo em direção ao meu quarto, parecia muito feliz com alguma coisa, e sem fôlego também.
- Onde estava? – perguntei enquanto ela olhava para mim disfarçando o sorriso.
- Ora, eu fui ver se o café já estava pronto . . . – o rosto de Roberta parecia esconder alguma coisa de que ela não queria minha ciência nem debaixo d´água. – O que foi, vai ficar calado o tempo todo?
- Claro que não, vamos tomar nosso café! – respondi, um pouco desconfiado.
Esta minha desconfiança foi deixada de lado ao longo da tarde em que passamos juntos, já a noite, em que estávamos em um restaurante francês, comecei a achar que tinha algo errado com a minha dama.
- Você está com algum problema, minha cara, não tocou na comida nem no cálice de vinho? – perguntei.
- Não é nada . . . – respondeu Roberta.
Não me dei por satisfeito com aquela resposta, resolvi insistir mais um pouco.
- Bem, - ela respondeu – hoje não poderei passar a noite com você!
Fiquei a olhar para seu rosto muito branco, ficando agora, rosado, podia sentir seu coração pulando enquanto olhava para mim.
- Preciso resolver a questão que me trouxe até esta grande Belo Horizonte!
- Posso saber, portanto, que tipo de assunto é este?
Roberta continuou a olhar para a garrafa de vinho que se encontrava perto da vela acesa.
- Eu preciso ir, nos encontramos depois . . . – disse Roberta levantando-se e saindo do restaurante. ”
- Parece que você se meteu com uma mulher encrenca, grande Lúcio! – disse João Roberto.
- Agora está percebendo o motivo de minha embriaguês!
“Tinha certeza absoluta que a desgraçada daquela mulher estava me traindo, há muito já reparava que nossas noites já não eram tão aquecidas por nosso amor como eram assim que nos conhecemos, meu caro amigo, quando uma mulher começa a perder seu brilho, é porque já não agüenta mais o homem . . . Pelo menos era o que eu pensei o tempo todo, levantei-me da mesa e tratei logo de pagar a conta, ainda consegui enxergá-la virando uma esquina escura e deserta, não pude resisti e comecei a segui-la.
Nunca havia passado por aqueles lugares da cidade, não eram muito bonitos, pude encontrar alguns mendigos caídos de bêbados em algumas esquinas, algumas vezes tive que me esconder para que Roberta não me encontrasse, havia somente nós dois pelos becos em que passávamos.
‘Onde essa mulher está indo, mas que tipo de assunto é esse?’ pensava o tempo todo, fiquei um bom tempo em sua cola quando percebi que ela havia entrado em um cemitério!”
- Ora Lúcio! – caçoou João Roberto – Não vá me dizer que a sua amada era na verdade uma morta-viva, por favor . . .
- Deixe-me terminar! – disse Lúcio, os olhos já bastante caído, quando vira mais uma dose da cachaça.
“Fiquei observando-a algum tempo, ela estava na porta do cemitério, esperava por alguém, olhava o tempo todo para a rua, passava-se uns quinze minutos quando aparece um sujeito, que não reconheci, vinha da rua oposta, para se encontrar com Roberta, eles se encontraram e Roberta deu-lhe um beijo caloroso, se jogando em seus braços, isso fez meus pulsos se fecharem, me contive para não ir em direção aos dois e matá-los, e o pior não foi isso, o homem misterioso passou-lhe um bolo de dinheiro e os dois seguiram rua acima, resolvi segui-los, até ver que ele entraram um bordel!”
- Você se apaixonou por uma prostituta . . . – concluiu João Roberto.
- Ela mexeu comigo, me apaixonei por uma mulher que não valia a pena, ela me usou . . .
- E o que você fez, portanto?
Lúcio deu um grande soluço cambaleou na cadeira em que se encontrava e continuou:
“Procurei me acalmar, sabia que naquela hora não iria adiantar eu fazer nada, resolvi ir embora daquele antro de perdição, ao chegar à pensão iria pensar no que fazer, já tinha em mente um plano para me vingar daquela vagabunda.
Estava deitado em minha cama, já devia ser umas quatro horas da manhã, quando Roberta entra no quarto, sorriu para mim.
- Resolveu o problema, meu amor? – perguntei com um sorriso no rosto.
- Sim, sim, meu querido, agora eu quero ficar com você!- disse ela atirando-se na cama ao meu lado.
- Colocaram este bilhete debaixo da porta, minha querida! – disse entregando o bilhete escrito por mim mesmo para Roberta.
Ele leu – o silenciosamente e fechou o semblante, eu havia escrito AMANHÃ NO MESMO LUGAR , queria pegá-la no flagra.
Nós adormecemos, um ao lado do outro, abraçados, como se nada tivesse acontecido, no dia seguinte ela sumiu durante a tarde inteira, imagino que não tinha coragem de olhar na minha cara, bebi naquele dia, bebi muito, de modo que ao chegar no horário em que supostamente o ‘Homem misterioso’ havia combinado de encontrar com Roberta, eu já estava quase caindo de bêbado
Andei pelas ruas e becos, até chegar ao cemitério, Roberta ainda não tinha chegado, entrei pelos portões de grade e fitei os diversos túmulos, achei aquele local até atraente em comparação às ruas pelas quais havia passado, encostei em uma lápide, era um túmulo já bem antigo, coberto pelas folhas secas caídas das árvores e pelo musgo da umidade, foi quando peguei no sono.”
- Não acredito, você adormeceu, nem chegou a flagrar a mulher!
- Pois escute o final da história, caro amigo!
“Acordei, já estava amanhecendo ainda, o céu tina um brilho ainda fraco, percebi que meus braços estavam molhados, verifiquei que estavam sujos de sangue, levantei-me e adivinha quem estava ao meu lado? Ela mesma, Roberta, morta, dura e fria, suas vísceras estavam para fora, seu olhar de espanto meu deu um frio na espinha, só depois percebi que havia um punhal em uma das minhas mãos, simplismente agi, meu caro amigo, agi descontroladamente, bêbado, na noite anterior, precisei manter meu sangue frio, arrastei o corpo de Roberta para um matagal que ficava logo atrás do cemitério e a enterrei para a eternidade, seu corpo está esquecido . . . ”
Lúcio havia terminado sua história e João Roberto estava com os olhos arregalados para o amigo.
- Não sabia, meu caro Lúcio, que sua história tinha sido tão dramática e macabra como essa, eu . . .
Porém, Lúcio já havia caído de bêbado na mesa, João Roberto levanta-se e vai até o amigo, levantando-o.
- Mulher, pendure as branquinhas na minha conta! – disse João Roberto, saindo com o amigo apoiado nos ombros pela noite de Belo Horizonte.
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Comentários
Parabéns, muito bom!
Um abraço,
Seu Pai
gradei a vera...
mt boum mesm...
continue lançando seus contos pois sempre terás um leitor fiel aqui...
parabens por mais esse...
Tenho uma grande alegria de
ser sua amiga, de saber q vc faz
parte da minha vida meu amigo!
amo muito; Rí
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