Banner
(23 votes)

Sete minutos se passaram... Pode parecer pouco tempo, mas para alguém que galgou dez andares, totalmente decidido a interromper o curso da própria vida, é tempo demais.

Assim que alcançou a beira do terraço do prédio, seu Alexandre - como é conhecido no bairro onde mora – foi tomado por uma covardia que não esperava. Estranhou o sentimento já que, meia hora antes, estava tão determinado. Naquele momento, já não tinha certeza se realmente era aquilo que pretendia fazer.

O nervosismo, juntamente com o sol de verão da cidade de São Paulo, fazia com que transpirasse como um louco. Nesta época do ano, 35 graus não é temperatura incomum para os mais de dez milhões de paulistanos. Com isso, as roupas do homem já se encontravam coladas no corpo. Seu braço enfaixado por conta de um tiro que levara há alguns dias, formigava, dando-lhe tremendo desconforto. Os olhos tomados pelas lágrimas, embaçam-lhe a visão, no entanto, ele perdia tempo olhando as pessoas lá embaixo, sem se esquecer do motivo de estar ali, preste a dar um passo e acabar com aquele sofrimento.

Mesmo da altura em que se encontrava, os sons da cidade chegavam-lhe com clareza: buzinas, motores, o sino da igreja, gritaria da feira livre, a gigantesca estaca afundando o solo de um terreno onde um edifício era erguido - a menos de um quarteirão... Mas nada parecia capaz de tirá-lo daquele estado que se assemelhava com um transe.

Como nos desenhos antigos da Disney, o bem e o mal pareciam disputá-lo, cada qual sobre um lado do ombro, numa luta verbal pela influência de sua próxima ação. Os fatos ocorridos nos últimos dias talvez tenham-no desequilibrado e traumatizado de certa forma. Então, num acesso de desespero, o suicídio lhe pareceu atrativo.

Seu Alexandre ensaiou um passo para a frente. Reuniu coragem. Quando pensou em sua mulher hospitalizada em estado crítico, retrocedeu. Na sequência, estremeceu e um calafrio cruzou sua espinha ao evocar em sua mente a imagem demoníaca da criatura, que, há três dias atrás, surgiu das sombras, mostrando-se para ele e sua esposa num beco. Alexandre nunca fora um homem adepto da religião, igrejas, mas sempre acreditou em Deus. Por toda vida ouviu falar no juízo final, na guerra entre anjos e demônios, no purgatório, no apocalípse... Contudo, nunca imaginou que um dia, seus olhos veriam uma criatura do inferno. Mas aconteceu. E este ser, este demônio, talvez por zombaria, fazia uso da imagem de sua filha morta há mais de dois anos. E qual não foi o choque destes pais já de cabelos brancos, ao depararem com aquela visão.

Três dias antes: à noite, não muito tarde – por volta das 20h30min – seu Alexandre voltava com sua esposa Márcia, da casa do rapaz que - estava mais do que certo - tornar-se-ia genro do casal. Todavia, os planos de unir as famílias, foram interrompidos pela misteriosa morte de Marcela. Passaram-se dois anos e André ainda exibia em seu dedo, a aliança de noivado, fato que preocupava a todos. André se recusava a seguir com a vida. Afirmava convicto que seu amor por Marcela era um sentimento maior do que qualquer coisa deste mundo e pensando assim, o rapaz de apenas vinte e cinco anos, não se relacionava amorosamente e não tinha uma vida saudável. Consultas com psicólogos tornaram-se uma constante. André parecia não se cansar de repetir que daria a vida para rever seu amor, nem que fosse por apenas mais uma vez.

Atencioso, naquela noite, havia oferecido carona para os pais de Marcela, mas seu Alexandre recusara. Dissera que preferia ir caminhando, afinal, estava muito quente e sua casa ficava a apenas alguns quarteirões de distância. A insistência de André nada adiantou.
O ar quente tomava a cidade de Santos – litoral de São Paulo. As ruas estavam molhadas, pois há pouco havia chovido. Chuva de verão: forte, grossa, entretanto, rápida. Não durara nem quinze minutos. Mas foi o suficiente para transbordar bueiros e formar grandes poças pelo caminho. Carinhosamente abraçados, Alexandre e sua senhora seguiram pelas ruas desertas. Conheciam bem a vizinhança, visto que residiam há muitos anos no bairro. Foi então que o improvável aconteceu. Um automóvel com dois ocupantes, depois de uma freada brusca, derrapou e parou próximo do casal de transeuntes. Estes se sobressaltaram. Um homem negro e um branco, ambos de camisetas regatas, ostentando diversas tatuagens no braço, desembarcaram do veículo e de posse de pistolas semiautomáticas, anunciaram o assalto. Não eram moradores do bairro, disso Alexandre tinha certeza.
Exigiram carteira, relógio, jóias; o que houvesse de valor.
? Não temos nada! ? Alexandre falou sincero.
Os bandidos não acreditaram. Elevaram a voz ameaçadoramente. Entre as gírias e os palavrões desmedidos, as ameaças de morte fizeram com que as vítimas entrassem em estado de pânico. E foi nesta hora que Márcia apelou para o emocional dos jovens bandidos. Péssima idéia!
? Não faça isso meu filho... temos idade para sermos seus pais.
Disse isso pousando a mão no ombro do rapaz branco, que usava uma corrente grossa de prata no pescoço e um boné de marca na cabeça. Este deu sua resposta agredindo-a violentamente no rosto com um soco. A mulher de quase cinquenta anos tombou no chão molhado.
? Não tenho pai, nem mãe. ? bradou o agressor.

Num impulso, seu Alexandre partiu pra cima do assaltante, ocasião em que foi atingido no braço por um disparo efetuado pelo outro bandido. Sob gemidos de dor, o pobre homem recostou-se na parede pichada e descascada. Seus olhos foram dos marginais para sua esposa caída. Esta fitou-o com o olhar alagado por lágrimas. Enquanto os agressores apontavam suas armas, as vítimas permaneceram caladas, mudas. Pareciam aguardar o estouro do tiro que lhes tiraria a vida. E isso estava preste a acontecer, mas um rosnado chamou a atenção de todos. Vinha da escuridão de um beco adjacente. Intrigada, a dupla de marginais apertou os olhos, tentando enxergar além da obscuridade e avistar aquilo que, para eles, deveria ser um cão. Nesse momento, dois pontos rubros furaram a escuridão e o rosnado aumentou de intensidade, provocando medo não apenas na dupla de criminosos, mas também, no pobre casal.

Em resposta ao agressivo bramido emanado das trevas, disparos saíram das pistolas mirando aquela direção e, por conseguinte, um silêncio se ergueu. O par de pontos rubros desapareceu, tal como o rosnado. Aqueles que empunhavam armas se olharam. Abriram um sorriso mudo. Estavam certos de que o animal alvejado, havia ido para o inferno. Estavam enganados!

Ligeira como um flash de uma máquina fotográfica, a criatura saltou da escuridão sobre o rapaz negro. Este não teve como se defender, indo ao chão e acabando por ter seu rosto horrivelmente dilacerado pelas unhas exageradamente compridas da criatura. O outro jovem, amedrontado, largou sua arma e correu. No entanto, num pulo gracioso e selvagem, o ser noturno, alcançou-o facilmente e numa brutalidade impressionante, mordeu-lhe o pescoço e, faminta, sorveu-lhe o sangue.

Alexandre, que naquele instante amparava sua mulher, não pôde acreditar no que via. Ambos fitaram aquela cena horripilante com olhos arregalados de pavor e incredulidade. Aquele ser, aquele monstro que se alimentava do sangue de um ser humano, obtinha a aparência de sua filha Marcela, morta anos antes. O cérebro do casal entrou numa espécie de curto; como se estivesse em chamas. Sob forte estado de pânico, eles se abraçaram e se limitaram a assistir a macabra cena. A agonia fazia com que seus rostos se contorcessem em expressões diversas.
Neste momento, a criatura de longos caninos sentiu o peso dos olhares que a fitavam. Levantou a cabeça e encarou o casal, a poucos metros de distância.

Seus olhos vermelhos como fogo, sua pele esbranquiçada como a de um moribundo e o sangue espalhado em volta de seus lábios, firmavam uma imagem bizarra e doentia. Tomada por um misto de emoções, a mulher agredida pelo marginal, se ergueu. Um filete de lágrima correu em sua face ferida.
? Marcela?... ? balbuciou Márcia, amparada pelos braços do marido.
Demonstrando atordoamento, a criatura assassina saltou mais uma vez. Apoiou-se num cano na parede, tomou impulso e ganhou o alto de um pequeno prédio, desaparecendo entre a escuridão da noite. Logo depois, Márcia passou a se sentir mal. Pousou a mão no coração: estava sofrendo um enfarto. Percebendo o que estava havendo, seu Alexandre em total desespero, gritou por socorro.

De volta ao presente: as lembranças da noite em que viu um demônio apossado da aparência de sua filha falecida, alimentando-se de sangue como um animal selvagem, serviram como um medidor de desespero para seu Alexandre que, naquele exato momento, atingia o ápice. Somando-se a isso, ecoou em sua mente, a voz fria do médico do hospital, dizendo-lhe que não sustentasse esperança no caso de sua mulher.
Com lágrimas descendo-lhe pelo rosto e o coração profundamente amargurado, o homem finalmente deu o passo que acabaria com seu evidente tormento e, também, sua vida.


Gostou deste conto? Quer saber mais sobre a personagem? Adquira a obra DRACULEA o livro secreto dos vampiros e leia o conto MARCELA de Evandro Guerra.
O livro organizado por Ademir Pascale conta com a participação de Adriano Siqueira, J. P. Balbino e prefácio de Nelson Magrini.
O lançamento será dia 22 de agosto de 2009 pela editora All Print.  
    

Comentários  

0 #1 Excelente e envolvente!Marius Arthorius 15-07-2009 16:00
Nossa! Quando comecei a ler fui logo absorvido pela história, vi cada acontecimento como um filme em minha mente! Um conto de muita qualidade! Longa vida para a literatura brasileira!
Citar
0 #2 Vc é muiito bomcinthia 15-07-2009 19:29
Adorei seu conto realmente é muiito bom vc é um exelente escritor e desenhista parabens.....
Citar
0 #3 Evandro Guerra 15-07-2009 21:53
Obrigado Marius, estou lutando pela literatura!!
Agora Cinthia, você não vale né!KKK Sabe que te adoro! Sou seu admirador incontestável! Grande beijo nega e obrigado pela força!
Citar
0 #4 BRILHANTE!MÁRSON ALQUATI 16-07-2009 03:14
Parabéns Evandro, por mais esse excelente e brilhante conto! Suspense, drama, ação e terror nas medidas exatas. Uma prévia muito bem escrita e conduzida que faz aumentar significativame nte a nossa ansiedade para ler o "MARCELA". Que chegue logo o dia...
Citar
0 #5 Excelente..muito bom...Elisa Gledis 16-07-2009 07:24
Que história boa...boa mesmo..nossa vc realmente é muito bom no que faz heim.......mais uma vez parebenizo-o...é isso aí continue assim........
Citar
0 #6 SucessoJuliano Sasseron 16-07-2009 07:51
Caramba! ótimo conto. Fez com que a expectativa pelo Draculea e, dessa forma, pelo conto "Marcela" aumentasse ainda mais.
Citar
0 #7 conto de Evandro GuerraDione Mara Souto da Rosa 16-07-2009 07:56
Parabéns, Evandro
Gostei demais.
Forte suspense e emoções vibrantes.
Grande abraço,
Dione
Citar
0 #8 Nelson Magrini 16-07-2009 10:52
Conto bem interessante. Marcela tem tudo para se tornar uma personagem marcante, e você poderá desenvolvê-la ao longo do tempo. Inclusive, ela pode (e na minha opinião, deve!) participar de outras tramas, até mesmo mais longas.

Abraços e sucesso!
Citar
0 #9 Parabéns!!!Aryane 16-07-2009 13:36
Muito bom Evandro adorei !!!
Citar
0 #10 CongratulaçõesBruno Resende Ramos 16-07-2009 14:34
O Evandro mostrou a que veio. O seu conto é realmente intrigante, criativo e original. A personagem feminina em questão é um bom exemplo disso. Espero ler o seu conto no Draculea. Vou estar no lançamento.
Abraços
Citar
0 #11 Muito bom EvandroM. D. Amado 16-07-2009 14:58
Que venha o Draculea... Também estou nele hehehe
Citar
0 #12 contoDione Mara Souto da Rosa 16-07-2009 15:00
Olá, Evandro
Parabéns pelo conto. Gostei muito do suspense e da narrativa.
Legal estarmos participando juntos do livro Draculea - O Segredo dos Vampiros, que vai sair pela Editora All Print sob organização do Ademir Pascale.
Nossa, estou tão feliz com isso.
Grande abraço e até o lançamento do nosso livro.
Citar
0 #13 Tri legal!Duda Falcão 16-07-2009 16:59
Sou do pampa e falo tri legal, tchê, he, he! Teu conto é três vezes bom, Evandro. Lembra a primeira vez que troquei uma ideia contingo por e-mail? Foi pra elogiar o teu conto do Draculea em que a Marcela está presente (tenho a sorte de participar do livro e de já ter lido todos os contos, he, he, - que pos sinal são de alta qualidade). Eu queria saber quando ela iria aparecer de novo. Você me disse para aguardar, pois a vampira já tinha destino para mais histórias.
Cara, é isso aí, continua contando a história dela, manda bala, que tá tri!
Um grande abraço!
Citar
0 #14 Excelente!Cesar Almeida 17-07-2009 07:36
Excelente conto, Evandro! Merece um livro completo com essa história e as que virão!
Abraço!
Citar
0 #15 Vim dar minha opinião aki xDLilith Landcaster 17-07-2009 10:38
Adorei, você escreve muito bem e gosto muito dos seus desenhos. Parabéns
Citar
0 #16 ParabénsAdemir Pascale 17-07-2009 17:57
Mas já era de se esperar, você sabe que admiro o seu trabalho e seus desenhos. "A um passo do suicídio" ficou muito bom, mas o "Marcela" do Draculea está ainda melhor...(rs)

Um forte abraço e muito sucesso sempre!
Citar
0 #17 Marcela, um conto fabuloso!Elenir Alves 17-07-2009 19:05
É muito gratificante,pe rceber a ansiedade dos leitores e escritores para ler "Draculea". Uma coletânea com contos fantásticos e escritores excelentes.
O Evandro, nos surpreende a cada dia com novos contos inspiradores. Amigo, parabéns!!! Adoro seus contos. Um abraço grande.
Citar
0 #18 Parabéns, Evandro!Estevan Lutz 18-07-2009 14:52
Evandro, Um ícone do Clã de "Draculea"! Exelente trabalho! Que prévia respeitável! Creio que a personagem "Marcela" ainda renderá mais histórias sinistras e envolventes como essa! Abração!
Citar
0 #19 ExcelenteMario Carneiro Jr. 19-07-2009 13:43
Muito boa a prévia, Evandro! Uma excelente introdução para um conto que está ainda melhor (tive o prazer de ler Marcela em primeira mão, assim como todos os demais escritores que participam da obra Draculea). Abraços, e sucesso!
Citar
0 #20 PerfectVampy Lu Sheridan Stryberg 20-07-2009 09:49
Olá Evandro!
Muito bom o seu conto, você é muito talentoso, parabéns...
Sucesso eterno p'ra ti.
Citar
0 #21 Parabéns!Epson Henrique 23-07-2009 17:18
Parabéns, Evandro!
Narrativa alinear, precisa, concisa, bem tramada...Um estilo difícil de encontrar!
Citar
0 #22 Explendido!kali Vonderback 31-08-2009 16:45
Adorei esse conto, muito envolvente e olha que aida não li o resto e estou ansiosa para continuar de onde parou.
E isso que o Brasil precisa, de escritores com o talento que voce tem viu. Beijos e sucesso.
Citar
0 #23 Ótimo!•Júnior• 02-09-2009 17:30
Adorei o conto, você escreve muito bem! =D
Citar
0 #24 Muito bom!Thaisa Maia 24-09-2009 08:06
A história é envolvente do início ao fim. Adoro o ar de suspense que paira no conto '' Um passo do suicídio'' e achei excelente a descrição detalhista das ações das personagens e do amibiente na qual se passa a história. Como anteriormente foi dito, é como um filme que se passa na cabeça. Parabéns e muito sucesso!
Citar
0 #25 Meu ´Comentário...lellah vall Valéria 24-09-2009 11:49
Hoje, dia 24 de setembro de 2009, fui apresentada ao talento de Evandro Guerra.Parabéns!!! Adorei seu trabalho, ficaria muito tempo citando ótimos adjetivos sobre ele. Sucesso!!!
Citar
0 #26 Uma leitura para se degustar...Sophie 28-09-2009 21:50
Um conto fascinante, e extremamente bem escrito.
Que te prende do inicio ao fim, na espectativa do que irá acontecer.
Misterioso, envolvente, dramático e criativo. Meu tipo de história, meu tipo de autor.
Dizer mais o que? Simplismente amei!
Citar
0 #27 Giulia Moon 29-09-2009 15:47
Olá, Evandro, o seu conto está muito bom. Surpreendi-me com o seu traço, você desenha muito bem. Parabéns!
Citar
0 #28 Muito bom...Cindy 22-04-2010 07:36
Muito bom . Adorei PARABÉNS!!!
Citar

Contos Estronhos - Contos e Crônicas

Facebook Page: estronhobook Twitter: estronho YouTube: EditoraEstronho
Banner
Nós temos 44 visitantes online