Banner
(9 votes)
      O trem teria partida às dez horas da noite e Roberto ainda esperava assentando na a estação, fumando seu cachimbo e lendo o jornal do dia anterior, sabe-se lá o motivo desta leitura, mas Roberto tinha estranhos interesses por  casos passados, de todos, os que ele mais gostava era de assuntos estranhos e tenebrosos, este em especial, era de alguns passageiros  que haviam desaparecido durante uma viagem no expresso  em direção à Cidade do Farol, que por um acaso, era onde o estranho viajante iria passar.
       Roberto começava a achar estranho já que ninguém pegaria o mesmo trem que ele, na verdade, tudo havia começado com um convite de um amigo muito distante, chamava-o para uma daquelas festas de interior com comidas e bebidas fartas. O homem tira do seu sobretudo mais uma vez o convite e leu pela enésima vez:

Venha para a festa da pamonha!
Terá moradia e comida! Aguardo.

        Até aí tudo normal, a única parte do bilhete que Roberto não conseguiu entender foi:

Não abra a porta da sua cabine no trem sob hipótese alguma.

         - João e suas manias! – disse Roberto para si mesmo ao terminar de ler, fechando o jornal e olhando para toda a estação, agora completamente deserta, todas as pessoas já tinham embarcado.
         O mais estranho de tudo, era como se o trem que ele iria pegar não existisse, seu bilhete, mandado pelo amigo, dizia expresso  66, porém ele não via nenhuma plataforma em que esse trem parasse.
         - Já são quase dez horas da noite e nem sinal deste trem, mas quem pode me ajudar? – pergunta para si mesmo, porém, ele percebe um movimento vindo das névoas que envolviam a estação agora, já estava escuro e tudo o que Roberto podia ver era uma sombra, andando encurvada para frente, não tinha certeza se era humano ou alguma outra coisa, mas vinha na direção dele. – Olá?
         A coisa continuou  andando envergada ate passar por toda a névoa,e Roberto perceber que se tratava de um velho, com aparência assustadora, usava um chapéu já carcomido pelas traças, sobretudo perto já desbotado e sujo de poeira, um olho do homem era cego e opaco, além de faltar-lhe alguns dentes.
        - Boa noite senhor! – disse Roberto, com um pouco de receio. – Pode me informar onde pego o expresso 66?
         O velho parou de repente e o encarou como se ainda não tivesse notado a presença de Roberto,ficou assim algum tempo.
         - O expresso já está para chegar . . . – disse o velho, sua voz era um pouco rouca, com um tom de frieza. – Saberá quando for a hora.
          Roberto não entendeu a afirmação do velhote, ia agradecer quando foi cortado pelo homem.
       - Não sabe o que está fazendo, deveria ir embora!  
       - Desculpe, mas preciso encontrar com um amigo . . .
       - Assim como todos! – resmungou o velho indo assentar-se em um banco, olhando para os trilhos do trem.
       Roberto decidiu ignorar o louco, e esperar pelo trem, o que não durou muito tempo, os trilhos começaram a se iluminar e o barulho das rodas começaram  a ser ouvidos, Roberto escuta um uivo no meio da noite e sente calafrios, resolve olhar para o velho, que parecia mais nervoso à medida que  trem se aproximava.
       A locomotiva parou justamente na plataforma em que Roberto se encontrava, este foi olhar novamente para trás e deu de cara com o velhote mais uma vez, tomando muito susto.
      - Onde pensa que vai? – ralhou o velho – Precisa me entregar o bilhete antes de entrar!
      - Me desculpe, não sabia que o senhor era o cobrador!- respondeu, entregando o bilhete, achou que o velho iria subir junto com ele, mas ao invés disso, voltou para a estação.
      Sem se importar com isso, Roberto sobe a bordo do expresse 66 e começa a andar no corredor, as portas das cabines estavam fechadas, e o viajante começou a entender o aviso do amigo em deixar a porta de sua cabine fechada.  
      Ele foi andando até achar sua cabine correspondente, a única aberta, rapidamente ele colocou sua mala no banco acolchoado ao lado de si e olhou pela janela, quando o trem começou a partir, o velho continuou na estação observando Roberto, através da janela, a expressão do louco era de aterrorizar, foi quando o trem saiu da estação entrando no escuro da noite.

ONZE HORAS

       O frio começava a piorar e as janelas do ter começaram a esbranquiçar, Roberto já não conseguia ver mais nada do outro lado da janela, tenta fechar os olhos para conseguir dormir um pouco, já estava quase pegando no sono quando escutou um barulho de algo sendo arrastado na cabine em frente à sua.  
        - Parece que não sou o único passageiro afinal! – disse para si mesmo, quando ouviu o barulho ainda mais forte  parecia que algo estava se atirando contra a parede, Roberto estava começando a se assustar, resolveu sair da cabine e ir à vizinha para ver o que acontecia.
       O corredor estava mais escuro agora, ele bateu na porta da cabine barulhenta e o barulho cessou.
       - Mas o que? – perguntou ele sem entender, ficou parado um tempo, quando ouviu o ranger de uma porta se fechar às suas costas, alguém ou algo estava espiando-o, ele vira-se de uma vez e escuta o barulho da cabine do lado oposto do corredor ser trancada.  – Passageiros malucos!
       Entrou novamente para seu lugar e trancou a porta, deitou-se no banco acolchoado olhando para a parede oposto, donde tinham vindo os barulhos estranhos, não sabia o motivo, mas não conseguia pregar o olho, ficou um bom tempo olhando para a parede quando voltou a adormecer novamente.

MEIA NOITE

         Roberto estava metade acordado e metade dormindo, ainda tinha noção de algumas coisas que se passavam envolta de si,ouvia de longe o ruído do vento gelado que cortava pelo lado de fora do trem, percebeu o movimento da locomotiva que as vezes o sacolejava no banco, até que, algo não parecia mais normal, além destes fatores que seriam normais em uma viagem de trem pela noite, Roberto percebeu ao longe, em seus sonhos, algo mexer-lhe os cabelos, seja lá o que fosse, tinha uma mão gelada.
         - Quem está aí? – murmurou em seus sonhos, não conseguia acordar, nem se mexer – Quem está aí?
         A mão fria mexia em seus cabelos com mais força, até que em um momento, começou a tentar arrancá-los, Roberto tentava gritar mas não conseguia, sabia que não era um sonho, o que estava acontecendo era real, porém não conseguia sair daquele transe em que encontrava, as mãos frias começaram a puxar os cabelos de Roberto com muita força, ele abriu os olhos e levantou-se de repente, colocando as mãos na cabeça, descobrindo o que não queria, aquilo tinha sido real, seus cabelos estavam atrapalhados e sua cabeça doía.
         - Não é possível, como alguém entrou aqui? A porta estava trancada! – disse levantando-se e pegando seu chapéu que estava  caído no chão, ele resolve abrir a porta e olhar o corredor, porém ele se encontrava vazio, ele escuta o ranger da mesma que antes estivera aberta. – Diabos!
          Retornou á sua cabine novamente, decidiu que desta vez não iria dormir mais, ficaria acordado até chegar na cidade do amigo, e na volta, não pegaria mais este expresso,porém esta foi uma promessa que não conseguiu cumprir, seus olhos começaram a pesar mais uma vez, parecia que algo naquele trem não o deixava ficar acordado, adormeceu novamente.

UMA HORA

             Já fazia algum tempo que Roberto havia acordado e sua boca já estava seca, precisava de água, porém o receio de sair naquele corredor era grande, ficou esperando para ver se a sede iria sede mas não conseguiu, resistiu ao medo e saiu em direção ao corredor, procurando algum lugar em que se encontraria água.   
            O trem estava parado, parecia estar assim a um tempão, e o grito gelado dos ventos do lado de fora estava bem mais alto, Roberto achou ao final do corredor um galão de água, estava coberto por um pano empoeirado, sem se importar com isso, colocou o se cantil de água e encheu-o até na metade, percebendo que a água estava com um aspecto diferente, estava viscosa, formando ligas.
           -  Essa não, o que é agora? – perguntou levantando o pano para ver o que tinha naquele galão, descobrindo algo que fez o seu estômago revirar, largou o cantil de água de repente, ao ver a coleção de olhos humanos que flutuavam dentro do galão, estavam opacos, como o olho cego do velho na estação.
          O homem ficou parado ali observando os olhos flutuarem quando escuta um barulho vindo da do vagão à frente do seu, alguém estava embarcando, ele volta para sua cabine e tenta olhar pela janela branca, viu apenas algumas coisas se mexendo do lado de fora, em seguida ao invés do trem dar a partida ficou parado ali mesmo, nem a luz da cabine acendia, estava no escuro.
          - Preciso sair daqui, não vou ficar neste trem nem mais um minuto. – Roberto pegou sua mala e seu chapéu, já saía da cabine quando um berro aterrorizante veio da cabine que ficava depois da dele, parecia ser uma mulher, Roberto larga a mala no chão e tenta abrir a porta da cabine, nisso ele escuta o barulho de algo se jogando contra a parede novamente na porta ao lado de sua cabine.
          A porta estava sendo arranhada enquanto a mulher gritava, até que todos os ruídos cessaram, o que Roberto escutava agora eram murmúrios por todo o trem, eram vozes que  sussurravam coisa que ele não entendia, tampava o ouvido mas ainda continuava.
         - Calem a boca todos vocês! – gritou Roberto, mas as vozes continuavam a sussurrar, vinham de todos os lados do trem, até que a porta da mulher que gritava se abriu uma pequena  e tudo cessou, um rosto muito branco apareceu no pequeno espaço aberto. – Senhora, você está bem?  
         O rosto continuou olhando-o, os olhos penetrantes.
         - Foi ele quem fez isso . . . – disse a mulher, agora, parecendo que tinha perdido a voz – Não há mais saída.
         - Quem fez isso? – perguntou Roberto, observando o rosto da  mulher ficar cada vez mais espantado, olhava para algo que seja lá o que fosse estava atrás dele, começou a sentir uma baforada gelada em sua nuca que fez os pêlos de sua nuca levantarem-se, a mulher começou a andar para trás, tentando gritar e de repente a porta fecha-se novamente.
         Roberto pega sua mala e começa a ir em direção à saída, quando a cabine em que ouvia algo se arremessar contra a parede abriu-se, ele viu um louco, preso em uma camisa de força, não tinha os dois olhos,ria e jogava-se contra a parede insamente, Roberto colocou a mão no ouvido para não ouvir os risos sombrios.
         - Temos mais um a bordo! – gritava o louco- Mais um a bordo.  
        Roberto corria em direção à saída, e foi parado por uma velha, que vinha de outro vagão, ela passou as mãos geladas no cabelo dele, tentando arrancá-lo, as vozes voltaram a sussurrar novamente, acompanhadas dos gritos da mulher e das risadas e pulos do louco na cabine, Roberto sentia que ia enlouquecer, não suportava mais tanta loucura em uma noite só, foi quando o trem entrou em um túnel e tudo escureceu, as vozes sumirão,os gritos, a velha que passava a mão em seu cabelo, Roberto perdeu a consciência enquanto o trem sumiu do mapa com mais um passageiro.

 
DEZ HORAS DA NOITE SEGUINTE

          - Mas que coisa, veja! – Disse Caio, mostrando o jornal para o amigo – Quantas pessoas desaparecidas!
         - Engraçado, só falam quais eram os passageiros, mas não dizem qual era o trem – respondeu Diego.
        - Uma mulher, um louco, uma velha senhora e um homem com chapéu e sobretudo, desaparecidos – leu em voz alta Caio.
        A estação de repente ficou deserta, e os dois começaram a achar estranho o trem que eles iriam pegar não ter chegado.
        - Com licença senhor! – chamou Diego a um velho que passava envergado com uma bengala – Pode nos dizer onde é a plataforma do Expresso 66?
       - Recebemos um convite de um amigo! - disse Caio.
      - Saberá quando ele chegar! – respondeu o velhote, assentando-se em um banco olhando para os trilhos.
       Em instantes o Expresso 66 parou em frente aos adolescentes, que embarcaram, o velho permanece olhando os dois ocuparem uma cabine ainda vaga e o trem dar a partida, em seguida ele levanta-se com a  sua bengala e vai em direção aos trilhos do trem.
        - Mais dois a bordo . . .  
 

Contos Estronhos - Contos e Crônicas

Facebook Page: estronhobook Twitter: estronho YouTube: EditoraEstronho
Banner
Nós temos 163 visitantes online