Ter, 23 de Junho de 2009 20:21
Escrito por Alessandro Reiffer

Naquela noite de tempestade, mergulhado em meu sombrio universo emocional, refletia sobre a tragédia do mundo. Fazia analogias de mau-agouro, intentava captar os sinais do fim de nossa civilização, decodificá-los a um nível compreensível. Percebi, por exemplo, que nas obras de arte literárias e musicais, quando se aproxima o fim das mesmas, são retomados e atingem o auge todos os temas que foram surgindo ao longo do seu desenvolvimento. Ou seja, ao final de toda criação, há um retorno generalizado de todos os seus aspectos fundamentais, um entrelaçamento temático definitivo, onde tudo se interliga dramaticamente para atingir a apoteose e desembocar em seu final triunfante ou trágico. Afinal, tudo que tem seu princípio deve ter o seu fim.
Da mesma forma, na natureza, nos campos e nas matas, ao se aproximar o final do dia, inúmeros pássaros e mamíferos realizam seus últimos cantos e atos, como em uma preparação para o repouso da noite. É também, sob determinado aspecto, uma “reunião temática” para o fim do dia.
É claro que transferi essas reflexões sobre a arte e o mundo natural para o estado atual de nossa civilização. Não estaríamos hoje vivenciando e retorno de todos os temas, um entrelaçamento temático apoteótico, onde tudo que surgiu ao longo de nossa história convive agora dramaticamente entre si em maior ou menor grau? Vislumbramos estarrecidos o encontro, a convivência pacífica ou conflitante entre todas ou quase todas as correntes e estilos artísticos que já surgiram, entre os infinitos pensamentos filosóficos, entre as mais extremas correntes ideológicas e políticas. Enfim, nossa época é a época do retorno absolutamente tenso e catastrófico de toda nossa história em um conflito trágico, caótico, muitas vezes sem sentido e esvaziado de suas essências. É como se nesse apocalíptico retorno, tudo voltasse agonizante, exalando seus últimos suspiros, como sinais e sintomas definitivos do fim. Uma sinfonia que retoma seus temas para o término. Em nosso caso, de forma colossalmente trágica.
Era nisso que refletia soturno naquela noite de tempestade. Eram tais temas sombrios que já há certo tempo assolavam minha existência, como uma maldição da qual me era impossível escapar e que me levava em verdadeira loucura a vivenciar dolorosamente todos os conflitos finais que sentenciavam a humanidade. Era como se eu resumisse o choque catastrófico dos sinais universais que finalizam nossa civilização. Isso se transformou em uma obsessão doentia para mim, estou certo que enlouqueci vivendo tais absurdos. E eu não só deveria vivê-los, mas persegui-los, decodificá-los, compreendê-los e pôr fim às dúvidas que me devastavam. E foi nessa noite que principiaram as terríveis alucinações. Algo pairava sobre mim, algo de grotesco e de sublime pesava espiritualmente sobre meus pensamentos, sentimentos, minha alma, enfim, sobre a totalidade de minha existência. Sentia sombrios rumores dentro e fora de meu ser, em uma tensão sempre crescente em minhas emoções à flor da pele. E de todo horror que em meu espírito fervilhava, senti e vi que uma luz surgiu do interior de meu organismo. Não há dúvida que se tratava de um dos sintomas de minha insanidade. Isso ocorria pela primeira vez. Durante os dias subseqüentes, repetiu-se sem interrupção, sempre durante a noite. Tratava-se de uma luz semi-dourada e semi-rubra, densa, de aspecto carregado e brilhante.
Lentamente, desprendendo-se de meu interior, a insólita luminosidade foi ascendendo para cerca de 1 metro acima de minha cabeça e ali parecia formar alguma espécie de nebulosa de luz. Não sentia, enquanto isso, um desconforto físico propriamente dito, mas uma profunda e torturante angústia. No entanto, a nebulosa daquela luz absurda não chegava a compor nenhuma imagem reconhecível, apenas informes e assustadoras luminosidades rubro-douradas que se tornavam invisíveis após alguns minutos.
Tal demente desprendimento luminoso perpetrou-se por 8 dias, sempre da mesma maneira. Passado esse período, cessou por completo, porém, outras espécies de alucinações surgiram do fundo de minha insânia. Estou certo que tais visões fantásticas consistiam em emanações dos caóticos conflitos que interiormente me massacravam, tudo fruto de meu estado mórbido. E agora, sempre em manifestações um pouco acima de mim, e sempre durante a noite, passei a contemplar algumas formas definidas, como olhos me observando, velas acesas, fantasmas vaporosos, campos floridos e outros absurdos. Pouco conseguia dormir, e tais torturas esquizofrênicas já não me eram suportáveis. Desesperado, tentava imaginar um meio de compreendê-las, decifrá-las e, assim, pôr um termo a meu sofrimento, à inflamação corrosiva de tudo o que sentia... Sim, porque eu sabia que só compreendendo o horror ele se findaria...
Foi então que numa noite, onde meu desespero e loucura atingiram o ápice, que um sublime bálsamo, um celestial refrigério caiu sobre meu sono perturbado, como o sol que surge após dias e dias de chuva, frio e tempestade. O bálsamo foi o sonho que tive... Era noite. Um clima denso, nebuloso e febril inflamava os ares. Eu perambulava por uma rua escura, soturna, porém estranhamente perfumada, de um perfume carregado, penetrante, lembrando flores primaveris. Então, por entre algumas árvores de um pátio sombrio, árvores imensas e canhestramente frondosas, divisei um vulto que não pude identificar. Avancei para tentar reconhecê-lo, mas ele, com voz grave e imperativa, ordenou-me que parasse. Obedeci. Passados alguns segundos de tensão, o vulto, aparentemente de um homem alto e magro, declarou:
- A resposta para tuas dúvidas está próxima, desde que tu estejas disposto e preparado para recebê-la. Numa noite sem lua, tu deves procurar algum lago, açude, poço de rio, enfim, qualquer lugar de água parada ou quase parada e limpa, que esteja cercada de matas, e postar-te à beira da água. No local, deve haver corujas, pois elas são essenciais. Então, tu deves esperar que alguma coruja inicie seu canto. Quando o identificar, inicie uma contagem mental até 13, ou seja, deixe que a coruja cante por exatas 13 vezes. Se houver outras corujas piando, ignore-as, somente é válido o canto da coruja que tu identificares por primeiro, estando à beira da água. Após a coruja executar o 13º pio, pronuncie os seguintes mantras. (aqui o vulto pronunciou alguns estranhos mantras e em seguida proibiu-me de revelá-los).
- Proferidos então os mantras, tu deves fixar tua visão nas águas de forma intensa por no mínimo 6 e no máximo 13 minutos. Se após 13 minutos não acontecer nada, tu fracassaste. Mas se durante o período mencionado surgir algo na águas, então será a tua resposta. E tu deverás saber compreendê-la. Confia na intuição.
Dito isso, o vulto ocultou-se por entre as árvores obscuras. Uma brisa tépida e intensamente perfumada impregnou minhas narinas. Nesse instante acordei, estava banhado em suor.
Não pensei duas vezes em levar a cabo o que me foi dito no sonho, por mais absurdo que fosse. Já não era minha existência um absurdo completo? Calculei a exata noite em que não haveria luar e, pela tarde, parti para a fazenda de meus parentes onde havia vários locais de rios e lagos com água límpida e parada. Claro que não informei a meus parentes os reais motivos de minha visita, para eles era somente um passeio como os outros.
Por volta da 1h da madrugada, munido de uma potente lanterna, sorrateiramente, parti da fazenda em direção a uma vasta mata cortada por belíssimo riacho. Dirigi-me ao exato local onde o riacho dilatava-se formando um vasto poço de águas profundas e plácidas. Durante o percurso, já ouvia o pio de várias corujas. Deveria escolher somente uma, o que não seria fácil. Como identificar de onde o canto provinha com exatidão? Atingi a beira da água, apaguei a lanterna e passei a ouvir com atenção os pios das corujas. Várias cantavam simultaneamente; quando eu imaginava que conseguira me fixar em uma delas, surgia uma outra que me confundia por completo. Pensei que tudo estaria destinado ao fracasso, o desânimo abatia-me.
Então, no breu assustador da escuridão, como um espectro invisível, ouvi um forte ruflar de asas sobre mim. Uma coruja pousara em uma árvore muito próxima de onde me havia postado. Em um silêncio sepulcral, aguardei alguns minutos. Em seguida ela principiou seu canto fúnebre e sublime. Com facilidade, subseqüentemente, contei os seus mágicos 13 pios. Seguindo as instruções do vulto onírico, pronunciei os mantras e logo fixei intensamente meu olhar nas águas escuras do rio. Aguardei. O ambiente selvagem transmitia medo e sombria inquietação. Captava os sons sugestivos e assombrosos dos seres noturnos... Os ares tornavam-se mais e mais carregados, fantasmagóricos, perigosos. Um perfume de flores invadiu-me; era o mesmo de meu sonho... Uma leve brisa fria fez farfalhar soturnamente as folhas das árvores... Foi então que por entre a escuridão absoluta, somente quebrada por eventuais vaga-lumes, uma tênue luminosidade iniciou a brilhar nas águas do rio...
Gradualmente, a luminosidade nas águas principiou a crescer de intensidade, assumindo uma tonalidade rubro-dourada, com o exato aspecto e cintilações daquela luz que havia se desprendido de meu interior e ascendido ao alto de minha cabeça há tempos atrás. Então pude ver a formação de algumas imagens na tela plácida das águas, as mesmas das minhas visões esquizofrênicas: violinos, velas, olhos brilhantes, mulheres e crianças, campos de flores, fontes cristalinas... De modo que cheguei à conclusão que as imagens e formações que agora contemplava naquele riacho nada mais eram que o reflexo de todos os absurdos que se fixaram sobre mim; as águas consistiam em um espelho sobrenatural.
Porém, agora, o que via era uma visão infinitamente mais ampla e complexa, que assumia toda a extensão daquele trecho do rio e que me revelava definitivamente o que é que se mantinha terrível pesando sobre meu espírito. Contudo, caberia a mim nesse instante entender integralmente o que tais visões queriam simbolizar, qual era sua mensagem essencial. Somente dessa forma estaria livre de tão impiedosa maldição.
Tentarei deixar uma descrição satisfatória, que se aproxime ao máximo possível do que vislumbrei, uma vez que descrever na íntegra tais loucuras seria inconcebível. Das primeiras imagens formadas no espelho das águas, as quais eu já conhecia, uma série incessante de transformações, que alucinavam, principiaram a se desencadear. Eu via imensas formações florestais, verdejantes, povoadas por uma infinidade de animais belíssimos. Eram todas aparições rápidas que se sucediam numa velocidade vertiginosa. Em seguida, vi campos imensos, sem fim, inimaginavelmente floridos, caudalosos rios de água cristalina, pássaros multicoloridos, seres mitológicos como silfos e ondinas convivendo de forma natural e harmoniosa com humanos aparentemente felizes. Estes, à frente de casas rústicas e aconchegantes, sob um céu de um azul imaculado, executavam músicas que eu não podia ouvir (aliás, eu não ouvia som algum), em violinos, flautas, violões...
E então vi cidades imensas, com uma arquitetura diversa da atual, mais bela, mais harmônica, cidades fulgurantes, pacíficas, sem o caos comum das grandes cidades, onde as pessoas pareciam viver em real cordialidade. Contemplei uma infinidade de povos e países, desde a América, passando pela Europa e África até a Ásia e a Oceania, e pude divisar uma humanidade em paz e sem miséria, onde todos conviviam sem prejudicarem a si mesmos, onde a justiça realmente existia, onde não havia exploração de nenhuma espécie, onde o homem vivia com respeito e dignidade entre o seu semelhante e entre os demais seres do universo.
E vislumbrei ainda grandes homens, gênios absolutos, criando nos campos da arte, da ciência, da filosofia, da mística, obras sublimes, invenções magníficas, excelsos pensamentos, que elevavam cada vez mais a humanidade. E, para finalizar, contemplei enlevado grandes amores, homens e mulheres que verdadeiramente se amavam, olhares inefáveis, beijos em êxtase, onde o raio do amor refulgia soberano.
Então, como uma vela que se apaga, tudo se findou, e retornou a treva absoluta da noite. Estarrecido, não sabia o que pensar. O que significaria tudo aquilo? Ali eu estava, havia contemplado a totalidade das visões que me assombravam, no espelho das águas eu vi tudo, tudo o que pesava sobre o meu espírito. Mas e daí? O que isso significaria? Desolado, sentei-me na beira do rio tentando compreender em pesadas reflexões o mínimo de tudo o que vi. Pensei, pensei e não cheguei à conclusão alguma. Então parei de pensar. E foi aí que a voz de minha intuição soou em minha alma...
Sim, tudo se esclarecia... O que vi naquelas águas consistia simplesmente em tudo o que poderia ter sido, uma possível humanidade, mundos em potencial. O que eu via era tudo o que se perdera, o que nós deixamos que se perdesse. Eram os germens, as sementes, os embriões desenvolvidos em sonho, e tão-somente em sonho. Embriões que na realidade assassinamos, esmagamos, destroçamos. Vi as possibilidades que se foram, a humanidade que não permitimos, a grandeza que não construímos, o amor que não conhecemos, que não se realizou. Os beijos sublimes que não foram dados, o mundo que só existe no universo dos sonhos, da imaginação, enfim, tudo o que poderíamos ter sido e não fomos. E, não sei por qual motivo, lembrei-me da sentença de Júlio Verne: “Tudo o que pode ser imaginado, um dia será realizado...”
Enfim... Após compreender o que deveria, livre de minha maldição, mas arrasado pela desgraça humana, permaneci absorto ouvindo os lúgubres e sentenciosos pios das corujas. Contei 13 deles, levantei-me e parti por entre a escuridão. Minha maldição visionária talvez tivesse sido encerrada, mas minha maldição emocional, a tempestade de tudo que sinto, ah, essa permaneceria para todo o sempre...
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