Hei de lhes contar, meus amigos, uma macabra e horripilante história.
Todavia, aviso-os de antemão, para que vocês possam pensar algumas vezes antes de ler as linhas que se seguem. Se optarem por seguir adiante, vocês poderão se tornar reféns do medo. E esse medo mudará as suas vidas. Alerta feito, vamos em frente...
Eu voltava da Faculdade. A noite era clara. A lua cheia a iluminar todo o céu. E eu, como admirador do cosmos que sou, olhava atento para o belo firmamento celestial, enquanto caminhava até minha casa. Ao chegar, porém, percebi que a chave da porta da frente não estava na janela como era de costume. Resolvi então, entrar pelo porão. Desci pelas escadas externas que levavam a ele e, mirando por entre os arbustos que cresciam sobre os degraus, aquele resplendoroso luar, vi que a porta estava aberta. Ao adentrá-la, um forte estrondo se fez ouvir. Som de madeira pesada. De madeira batendo contra madeira. Mas isso não foi o mais estranho e nem o mais assustador fato que me sucedeu. Com o coração disparado, procurei o interruptor, acendi a luz e, ao vislumbrar o recinto, estremeci e paralisei. Um arrepio percorreu-me todo o corpo. O motivo: vários, ainda hoje tremo ao recordar... Vários caixões negros ocupavam a sala!
Um cheiro ocre de corpos em avançado estado de putrefação atingiu as minhas narinas. O medo, o terror e uma gélida sensação de que a Morte poderia estar mais perto do que eu imaginava assomaram-se ao meu apavorado espírito. Achei que teria um infarto ao experimentar aquela mescla de sentimentos horrendos e demasiado desagradáveis. Sem mover um músculo, reparei ao fundo da sala, um manuscrito de letras grandes e grossas linhas sobre o branco do papel. O único branco, em meio aos inexplicáveis caixões negros. Estava escrito a sangue.
Sem alternativa, obriguei-me a avançar e passar sobre os aterrorizantes caixões, pois, era a única forma de se chegar até lá. Coma as mãos sobrepostas ao nariz, caminhei sobre a morte, representada ali de maneira tão real e assustadora. Cheguei ao fundo do porão, onde o manuscrito se tornava legível e tive uma nova surpresa, naquela noite de desagradáveis surpresas. Tratava-se de um poema, funestamente belo e que, de uma forma subjetiva, representava naquelas poucas e ínfimas palavras o tudo que eu via.
A Morte
Ó corpo, ó sangue, ó carne, ó matéria orgânica que um dia
deteriorar-se-á na terra e alimentará os vermes.
Corpo que morre, padece e, de repente, se acaba.
Desaparece, deixando gente que entristece.
Corpo frio, sem vida, cor pálida, branca como as nuvens do céu.
Cara séria, olhos fechados, corpo debaixo do véu.
Véu branco como os anjos de Deus.
Morte trágica, morte dolorosa, morte sofrida.
Muitas pessoas chorando e dizendo: Adeus...
...adeus à inconstante e frágil vida!!!
Não estava assinado. O que levou-me a crer se tratar de uma pista do assassino e psicopata que trouxera os caixões. Li e reli o nefando poema. Tirei algumas conclusões. O psicopata era astuto e muito frio em seus insanos atos e o poema, uma irrefreável descrição desses atos homicidas. Deveria ser mais um desses tantos maníacos fascinados pela Morte alheia, um doente com incontrolável obsessão em matar. Também deveria ser religioso, uma vez que citara o nome de Deus e seus Anjos. Só então, ocorreu-me algo e gelei até nos mais íntimos recônditos de minh’alma. Estariam meus queridos pais mortos? Seriam eles a ocuparem os caixões? O certo é que jamais permitiriam que alguém depositasse caixões com defuntos no porão de nossa casa...
Ao chegar a essa inquietante e apavorante conclusão, optei por imaginar que eles houvessem viajado sem me avisar ou, simplesmente, saído para passear. Não! Impossível! Não era de seu costume, saírem para passear no meio da semana e muito menos àquela hora da noite. Voltei o olhar para os caixões, contudo fiquei temeroso em abri-los e comprovar os macabros pensamentos que me assolavam.
Convencendo-me de que tudo aquilo não passava de um pesadelo, subi os degraus que levavam ao piso superior da casa. O medo impediu-me de verificar o quarto deles, no que cruzei até o meu e lancei-me à cama.
Acordei no dia seguinte ao raiar do Sol, com o intuito de investigar novamente o porão e o poema, pois desejava encontrar o seu autor. Tinha de fazê-lo por conta própria e sozinho. Como não tinha muitos amigos e quase nunca recebíamos visitas, o que me daria uma relativa vantagem temporal, resolvi deixar os caixões no porão, como e onde se encontravam e me atirei de corpo e alma à investigação. Ao pesquisar na internet, dei com uma série de relatos de desaparecimentos estranhos e inexplicáveis nas vizinhanças. Nenhum suspeito. Nenhuma explicação.
“Os cadáveres dos caixões!” – pensei estupefato e, criando coragem, desci novamente ao porão com a intenção de abrir alguns dos caixões. Precisava descobrir se havia alguma marca de tiro, facada ou qualquer outro tipo de agressão que os vitimara. Não sei de onde tirei tamanha frieza. Abri o primeiro caixão e nada... Nenhuma marca visível na pele ou corpo de seu ocupante. O mesmo aconteceu com os outros.
Foi quando, ao abrir um dos últimos, o insuportável odor me agrediu as narinas e, instintivamente, lancei-me para trás, tropeçando no caixão mais próximo. Caí e bati fortemente a cabeça. Então lembrei de tudo, tal e qual acontecera...
2
Janeiro do ano anterior...
Eu perdia, em um terrível acidente automobilístico, um grande amigo. O melhor e único grande amigo que tivera. O culpado: a bebida. Sua morte naquelas circunstâncias trágicas foi irreparável. Senti-me desolado e inconsolável. Nunca havia imaginado que a Morte, a cruel e insensível Dama da Foice, pudesse levar tão cedo alguém como aquele insubstituível amigo. Poeta que sou, escrevi um singelo poema em sua homenagem. No entanto, recusei-me a assiná-lo.
Sim, meus amigos, o mesmo poema encontrado junto dos caixões negros no porão de minha casa.
A esta altura, as deduções, apesar de arrepiantes e atordoantes, passam a ser lógicas.
O trauma fora demasiado para mim e algo se rompera em meu subconsciente. E a partir de então, eu me tornei a Morte para todos que cruzaram o meu caminho. Uma morte cruel, porém, rápida e silenciosa, através de um poderoso e eficaz veneno colocado sutilmente em suas bebidas. A nociva e fútil bebida que levara meu amigo, tornara-se minha incondicional e leal aliada nesse macabro propósito. Primeiro os meus pais, depois dois colegas de escola e alguns dos vizinhos mais próximos. A psicopatia fez-se tamanha que a minha mente consciente, após cada assassinato, simplesmente deletava-o da minha memória. Os caixões? Não faço a menor idéia de como foram parar lá. Talvez a explicação fosse que a nossa família era dona da única funerária da região, mas a mesma ficava localizada do outro lado da cidade. Bem... Isso é o que menos importa, não é?
O que realmente importa é que agora sei o que aconteceu e quem sou.
Eu matei todos eles com insano deleite. Sem pena e sem remorso. Contemplei cada instante de agonia e dor. Sorri e senti prazer a cada suspiro final.
Tornei-me o Arauto da Morte. O Anjo Negro e seu servo...
Ah! E antes que eu me esqueça dos motivos que aqui me trazem, caros amigos:
A vocês, que tiveram a coragem e a audácia de lerem essa minha sincera e real confissão, nem pensem em chamar a polícia, pois eles não me encontrarão.
A vocês, que tiveram a bravura e o atrevimento de lerem essa minha sincera e real confissão, um breve e último conselho: nunca aceitem bebida oferecida por estranhos. Pois, o estranho poderei ser eu!
E, lembrem-se, até o último instante de suas desprezíveis vidas:
Vocês serão os próximos...
Sempre haverá lugar, em meu porão, para mais um caixão negro...
O seu caixão negro!
CURRÍCULO DO AUTOR:
PETER MENEGAT, nascido em São José do Ouro, RS. Estudante da Faculdade de Direito, da Universidade de Passo Fundo, começou a escrever poesias no ano de 2007, logo após no ano seguinte, escreveu as primeiras letras de música, e agora publica o seu primeiro conto – O porão dos caixões negros. Pretende lançar o primeiro livro em 2010.
Comentários
Meus parabéns Peter!
Saiba que podes contar sempre comigo, Abraço cara!
"Fluístes bem no conto, com correção do vernáculo e bom desenvolvimento de idéia assim para este lado "dark". Conseguistes criar o suspense e desfechastes bem."
Só resta seguires em frente, aperfeiçoando cada vez mais esta tua capacidade de escrita.
SEMPRE ESTAREI TE APOIANDO, DANDO FORÇA EM TEU PROPÓSITO LITERÁRIO.
E QUE OBTENHAS SUCESSO PLENO!!!
Abração CIRO
Abração pra ti! E mais uma vez obrigado!
Sinto orgulho desse sobrinho,que escreveu este brilhante conto.Vá em
frente e continue a nos brindar com seu talento.ASbraços cordiais e calorosos.
Li o teu conto, indicado pelo teu tio Délcio e acredito que tenhas um talento de escritor e poeta que obviamente precisa ser burilado, mas estás no bom caminho. Continue e teremos um grande escritor e poeta
Abração a vocês dois e mais uma vez,
muito Obrigado!
Abraço Mônica!
Fico feliz que você tenha gostado desse meu primeiro conto, que com toda certeza não será o primeiro e nem o último e que você tenha o encontrado por acaso, pois a arte está ai para ser vista, mesmo que por mera causalidade heheheh Eu desejo muito sucesso pra você também! Bjão pra você e pra sua família também
Parabens
talves assim tudo acabe.
e com este gole a amargura sera quebrada au sentir o afiado corte da foice da dama de preto perfurando meu coração ja antes paralizado de disgosto por não ter a encontrala antes.
meu corpo não se apodrecera pois au encontar a tardia morte se disouvera em cinzas ardentes.
porem lhe pesso que esta bebida venha acompanhada de um pouco de sangue fresco, para então eu poder semtir pela utima vez o unico prazer de minha mera existencia.
cara, muito fera este conto parabens mesmo.
Fábio, pelo comentário. Tá inspirado hein? kakakaka
E minha amiga Debora, por ter gostado do conto.
Ah que é isso, temos que sonhar e lutar para realizar nossos sonhos, se não a Vida perde o sentido ;-)
Abraço pra você também!
O estilo me lembra um pouco Àlvarez de Azevedo.. Bjoo
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