Rodeado por densas trevas e ajoelhado sobre um carpete vagabundo no centro da sala, o padre sua em bicas. As gotas salgadas que escorrem para os olhos ardem como ferro em brasa marcando-lhe a pele. Tremilicante feito um velho centenário, ele se encontra numa imobilidade aterrorizante. Uma força desconhecida e maligna o mantém preso ao chão tal como Cristo fora pregado na cruz. Pelas fibras devastadas do seu corpo paralisado, correm consecutivos calafrios. Seus olhos amedrontados refletem o grande crucifixo de zinco pendurado na parede a sua frente. Com toda fé que pode juntar, o jesuíta implora redenção por seus pecados. Clama ao criador que olhe por ele naquele momento que, sem sombra de dúvida, é o mais crítico de sua vida.

O calor abrasador do ambiente parece aumentar a cada minuto e o som de uma respiração pesada e maléfica, ressoou nos ouvidos do homem trajado com a batina. Naquela atmosfera carregada e lasciva, ele sentiu a presença viva do mal. Sob total desespero, seus olhos inundaram-se de lágrimas. Sentiu-se tonto, numa embriaguez apavorante. Tentou a todo custo se fortalecer contra sua própria vulnerabilidade. Sombras aladas passaram a se arrastar pelas paredes escuras. Ao vê-las, o padre fechou os olhos bem apertados e iniciou uma oração. Por vezes, calava-se por instantes e beijava o terço que segurava nas mãos. Dominado pelo pavor, era-lhe possível ouvir o próprio coração acelerado. Nauseado e branco como um papel, o homem comprometido com Deus contorceu-se em agonia antes de vomitar sobre suas próprias pernas dobradas. Na sequência, expeliu catarro pelas suas narinas. Arfando, sentiu o oxigênio faltar. O rosto avermelhou-se. Gargalhadas desdenhosas e estridentes vindas de todos os lados, ganharam o ar do recinto. Uma dor espiritual rasgava-o por dentro como se houvesse um monstro enorme tentando sair. Ele se contorcia e suas costelas crepitavam como se os ossos estivessem quebrando. A dor era insuportável.
Com a alma deserta de consolação, o reverendo esforçou-se para levantar, porém, não tinha controle sobre suas pernas. Com a voz mergulhada em aflição, chamou pelo santo nome de Jesus. Logo em seguida, pressionou a pequena cruz do terço contra a própria testa. Chorou. Uma ardência parecida com febre fê-lo tremer e oscilar em delírio. Seus olhos viram besouros negros surgirem dos cantos mais escuros e escalarem suas pernas. Serpentes igualmente negras rodearam-no e passearam por seu corpo febril. Em pânico, o padre usou a única arma que tinha: a oração.
Com respiração estertorante, sua voz saía quase inaudível. Na prece fervorosa, implorou a que Deus afastasse as alienações impostas pelo demônio. E foi nesta hora que uma menina de doze anos descortinou-se das trevas de um canto qualquer. Seu vestido longo e negro inflava sutilmente por conta do vento que se alastrava vindo da janela. Seu rosto sem expressão, pálido, proporcionava-lhe um sombrio aspecto cadavérico. O padre, de imediato, virou a cabeça para, com grande horror, encará-la.
- Vim buscá-lo, padre. Pessoalmente. - falou a menina, num tom absurdamente frio.
O rosto do homem contorceu-se em diversas expressões. A voz morreu-lhe na garganta e seus olhos esbugalharam-se de forma espantosa.
- Você não é real... - ele conseguiu sussurrar - É uma imagem falsa...
E ele estava certo: era a imagem da menina Alice nas garras de Satanás.
O demônio em forma de criança aproximou-se do sacerdote. Por algum tempo, ficou a observar as serpentes e os besouros cruzarem-se na disputa pelo corpo do servo de Deus. Quando o religioso e o anticristo fitaram-se bem de perto, o padre cerrou novamente os olhos e voltou a rezar.
- Pare com isso! - sugeriu a menina numa voz modificada - grossa e medonha.
- Senhor, livre-me das trevas... Banhe-me com tua luz divina... Senhor...
- SEU FILHO DA PUTA!! Acha mesmo que depois do que fez Ele o acolherá? - vociferou a jovem, numa voz monstruosa.
Sob choro convulsionado, o padre tampou o rosto com as mãos e, desta forma, choramingou:
- Deus perdoa sempre...
- Acredita mesmo nisso? – suavizou o tom e completou - Você é meu por direito.
Neste exato momento, o homem preso ao chão passou a sofrer fortes espasmos e mais uma vez vomitou em cima das pernas. Mas, desta feita, vomitou uma enxurrada de seu próprio sangue. O desespero que o assaltava atingiu o ápice.
Com fisionomia impressionantemente séria, o demônio imbuído de forma humana pegou nas mãos uma das serpentes que no momento passeava pelo pescoço do padre e, calmamente, proseou:
- Encontraram o corpo da menina Alice que há três dias você estuprou, matou e enterrou atrás da igreja. Eles sabem e estão vindo atrás de você.
Num ataque como os de um esquizofrênico, o pároco passou a se lastimar de forma que transeuntes do lado de fora da casa poderiam facilmente ouvir.
- Luxúria... A luxúria destruiu-o, padre. - acusou a criatura pálida.
Com o semblante mais frio que uma pessoa pode possuir, o demônio - em posse da imagem da menina Alice, agachou-se. Delicadamente, pousou a serpente no chão e esta novamente escalou o corpo do trêmulo homem ajoelhado.
- Olhe para mim, padre. Olhe dentro dos meus olhos. ? exigiu.
O cristão que debilmente estava a se lastimar calou-se. O suor banhava-lhe o rosto e encharcava seu cabelo curto, contudo, aparentava agora mais controlado. Vacilante, obedeceu a ordem que lhe foi dada.
O olhar da criatura era profundo. Um brilho indefinido e maquiavélico demonstrava a essência daquela alma.
- Posso ver o futuro, padre... e o seu não é nada promissor. - revelou o rei da escuridão e, logo depois, ergueu-se e rumou até a janela aberta.
A luz do farol de um carro que passava pela rua iluminou aquela face pálida e juvenil por segundos.
- Vou falar um pouco sobre seu futuro... Além do estupro e assassinato desta menina, descobrirão que um garoto de onze anos e outro de dezesseis, por diversas vezes, praticaram sexo oral com o padre, atrás da sacristia.
Sentindo o abismo próximo, o padre pedófilo por mais uma vez caiu em choro convulsivo. Seu corpo saltava em espasmos involuntários em resposta ao peso e à vergonha pelas palavras que ouvia.
- Pessoas revoltadas queimarão esta casa. Você será excomungando pelo Vaticano. Seu rosto aparecerá em telejornais de todo o mundo. Aplaudirão sua prisão. E na carceragem, sofrerá represálias horríveis. - profetizou Satanás.
- Pare!!!... Pare com isso... Por favor, pare... - choramingou o criminoso e terminou num murmúrio:
- Não pude evitar... eles queriam... eles queriam...
A garota de voz potente aproximou-se do traidor da santa fé e, irônica, lançou:
- Sei que não é culpado. Afinal, ninguém os obrigou, não é mesmo?
Uma avalanche de imagens pornográficas invadiu a mente doente do jesuíta. Imagens nojentas de suas ações com menores. O pensamento do julgamento que teria - em vida ou em morte - agora martelou seu cérebro como uma marreta maldosa composta por espinhos. A consciência de o chão ter se aberto sob seus pés, abrindo um poço infinito, evanesceu sua fé. Com a alma esfarrapada, o reverendo arqueou o tronco, encostando a testa no chão imundo de vômito.
- Quero ajudá-lo, padre. - disse o ardiloso.
Com um simples gesto de mão, o ser das trevas ordenou que as criaturas que passeavam pelo corpo do padre o deixassem. Hierarquicamente foi obedecido. Os besouros e as serpentes procuraram as trevas por onde, como num truque de mágica, desapareceram.
- Vou poupá-lo de todo o sofrimento que, a partir de hoje, esse mundo vai lhe impor.
Parecendo se mover por vontade própria, uma faca postada sobre a mesa da cozinha, rolou e caiu no piso de cerâmica. Foi com espanto que o homem tido como religioso assistiu o objeto de corte rolar fantasmagoricamente da cozinha até perto de si, na sala.
- Venha comigo. Agora você só tem a mim. - revelou o dono das almas perdidas.
- Não... Não... Deus vai me salvar... Eu tenho fé...
- Sua fé é fraca e inútil. E seu tempo está acabando. - atacou severo.
O som estridente de sirenes de carros de polícia, já se podia ouvir. Vinham buscá-lo. O barulho irritante de freadas bruscas na frente da casa do criminoso ecoou naquele início de noite. Luzes azuis e vermelhas entraram pela janela e lamberam as paredes da sala.
- Sofrerá muito mais aqui, sob as leis deles. A morte é fuga. - persuadiu o demônio. E quando este assistiu a mão do padre apanhar a faca de cabo de madeira no chão, não se preocupou em conter o sorriso que enfeitou o sombrio, no entanto jovial rosto de seu disfarce.
Minutos depois, quando policiais irromperam na residência, encontraram o padre pedófilo caído no centro da sala, com uma faca cravada no estômago.
- Menos um porco no mundo... Que esse filho da puta queime no inferno! - desejou um dos policiais tomado pelo ódio, sem saber que naquele exato momento, seu desejo estava sendo executado, da forma mais dolorosa possível.
Comentários
Meus parabéns Evandro, principalmente por conseguir transformar um tema tão atual e polêmico como é a pedofilia de batina neste impressionante conto! Gostei demais, principalmente do final.
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Abraço.
Medonho o conto... e polêmico!
Prometi e cumpri!
Tenho lido seus textos,olha vou te dizer um coisa,gosto d+ das descrições de detalhes,gestos k vc explora.A narrativa é riquissima de caracteristicas é faz do conto envolvente.
Acredita até lembrei da minha adolescencia qd eu lia " agatha cristhian". Parabéns!!! bjo
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