Franzino, narigudo, óculos fundo de garrafa, as roupas pareciam nunca estar na medida certa, sempre sobrava pano de um lado ou do outro, mas Ferdinando esforçava-se para estar alinhado.
Por sorte e influência de um tio distante tinha conseguido um cargo em uma grande empresa lider em exportação de ferramentas.
Conhecia tudo no ramo, sabia como cada peça era fabricada e seu funcionamento, afinal tinha passado pela linha de produção, vendas, etc até chegar ao cargo que ocupava, assessor direto do presidente da empresa.
Subira de cargo não tanto por seus esforços, mas muito mais por sua aptidão a puxa-saco, chegando a servir de "capacho" ao chefe, que abusava do poder que tinha e humilhava o pobre.
Conformavasse o coitado, pensando consigo mesmo que seu salário valia à pena, era invejado por todos.
Nos corredores ouvia sempre as mesmas frases.
-Bom dia puxa-saco.
-Boa tarde puxa-saco.
Até o próprio patrão chamava-o assim em certas ocasiões, quando chegava de mau humor, ou então quando havia algum problema na empresa.
-Puxa-saco inútil, onde está o relatório que pedi?
-Um dia ainda despeço você seu puxa-saco!
Durante cinco anos Ferdinando ouviu isso: puxa-saco, às vezes achava que ninguém mais lembrava seu nome, à noite se remoia pensando nisso, porque o tratavam assim?
Esforçava-se ao máximo para agradar, talvez até demais...
Um dia o patrão chamou-o para uma reunião importante.
Atrasou-se no transito e acabou por adentrar a sala com cinco minutos de atraso.
Assim que abriu a porta sentiu o olhar fulminante do patrão, em seguida todos os outros olhares sobre ele.
O patrão disse num tom mais alto que o costumeiro:
- Puxa-saco inútil, não serve nem para chegar no horário!
Um cara que estava na ponta da mesa levou a mão à boca tentando abafar o riso, mas não teve sucesso, e pior, foi seguido por todos em uma gargalhada coletiva que fez os ossos dele gelarem de ódio e humilhação.
Como podia aquilo estar acontecendo depois de anos de dedicação a ele, e agora por causa de cinco minutos aquela cena...
Tentou agüentar o tremor das pernas para não desabar, assim que pode virou e saiu dali.
Não pregou olho durante a noite.
A mesma cena passava diante de seus olhos por dezenas, centenas de vezes.
Seu corpo estremecia quando lembrava:
-Puxa-saco, puxa-saco...A frase ecoava em sua mente assim como as gargalhadas.
De manhã tomou um banho, vestiu-se e foi para a empresa.
Fosse como fosse não podia deixar de cumprir sua obrigação.
Neste dia ninguém disse:
-Bom dia puxa-saco.
Pelos corredores só ouvia risinhos idiotas pela suas costas.Doeu mais que o apelido maldito que ouvia sempre.
Passou pelo mostruário de ferramentas e pegou algo.
Entrou na sala do presidente da empresa, o metido estava com cara de cínico, mas antes que pronunciasse palavra recebeu um golpe na cabeça que o fez desmaiar.
Ferdinando mais do que depressa o amarrou em sua própria cadeira com o fio do telefone, bem apertado a ponto dele quase não poder respirar.
O chefe acordou e logo percebeu que estava enrascado, a boca fechada com fita adesiva, daquelas que não descolam, de primeira qualidade, fabricada ali mesmo, as calças arriadas até os joelhos...
Ferdinando agora ria alto!
Agiu rápido, com um movimento teatral levantou a ferramenta, uma torqueza enorme, e levou-a na direção dos testículos do patrão.
O homem tentava espernear, livra-se das amarras, mas não conseguia.
Enlouquecido o empregado puxou o saco escrotal do presidente da empresa com uma das mãos e com a outra usou a torques para pegar bem na base.
Apertava devagar e incessantemente os bagos do homem enquanto lágrimas desciam pelas faces dele.
Agora com as duas mãos, ele apertava a ferramenta e ria, ria sem parar, sentindo o gosto da vingança na alma.
O sangue já escorria por seus dedos quando um barulho abafado foi ouvido.
As bolas do patrão jaziam ali aos seus pés numa poça de sangue.
O presidente da grande empresa perdeu novamente os sentidos diante de tanta dor.
Ferdinando jogou a torqueza ao lado das peças arrancadas do patrão e emitiu a frase que saiu como um grunhido:
-Puxa-saco.....
Ninguém entendeu porque Ferdinando saiu gargalhando pelos corredores.
Comentários
Meus parabéns Miriam!
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