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Era pra ser apenas mais um dia de trabalho na lanchonete...

Por volta de 16:00h dois sujeitos com cara de poucos amigos entraram, olharam para o balcão de salgados e vieram na minha direção. Um deles, o maior e mais forte, foi logo cuspindo seu pedido – cuspindo mesmo, porque o homem parecia ter uma torneira aberta na boca.

- Uma empada de bacalhau!
- De bacalhau acabou senhor. Acabei de servir as duas últimas. – apontei levemente com a cabeça para o rapaz sentado, próximo a ponta do balcão.

O sujeito estufou o peito e caminhou até onde estava o rapaz, que já ia abocanhar sua primeira empada. Não houve tempo para a primeira mordida. Levou um tiro a queima roupa. Antes mesmo de seu corpo tombar no chão, batendo com a cabeça na lixeira, o atirador falou bem alto:

- Mortos não comem empadas! – e puxou o pratinho com as duas empadas para o seu lado.

Assustado como todos no local, me recolhi ao fundo da cozinha. Mas de onde estava podia ver nitidamente que o homem que levara o tiro se mexia. Seu corpo se contorcia e sofria pequenos espasmos musculares. Pude ver quando a bala do revólver foi expelida de sua pele e seu ferimento se fechou. Daquele momento em diante seu corpo começou a se transformar. A primeira vista parecia crescer e escurecer. Somente depois é que notei que o escurecimento era na verdade uma grande quantidade de longos pelos negros. Seu rosto ficou desfigurado, dando-lhe feições caninas, de grandes proporções. Alheio a essa estranha mutação que acontecia atrás dele, o autor do disparo terminava de comer as duas empadas, com a educação de um glutão, e dava gargalhadas com a boca cheia, enquanto conversava bobagens com o segundo sujeito que o acompanhava.

Quando terminou, deu um último gole no seu refrigerante e bateu a mão no balcão dizendo que o lanche era por conta da casa. Quando se virou para ir embora, esbarrou na criatura. Tinha cerca de dois metros de altura e seus ombros pareciam desenhar uma montanha de pedras peludas. Os grandes olhos amarelos fitaram o sujeito de cima a baixo. Com uma das mãos ele o segurou pelo pescoço, deixando seus pés erguidos a poucos centímetros do chão. Com as garras afiadas da outra mão, rasgou seu ventre e alguns segundos depois retirou uma espécie de massa viscosa, amarelada e suja de sangue.

Depois disso soltou o sujeito, que agora trazia estampado em seu rosto o pavor de estar vendo suas tripas caídas no chão imundo da lanchonete. A criatura abriu a boca e jogou aquela massa gosmenta para dentro. Antes de sair esbarrando em todas as pessoas ao redor, olhou para trás, parou por um segundo e disse baixinho:

- Realmente... Mortos não comem empadas. Mas eu não estou morto e a empada é minha.

Virou-se em direção a porta, deu um passo e parou novamente. Moveu levemente a cabeça para o lado esquerdo e me procurou. Olhando fixamente para mim, ironizou:

- De bacalhau essa empada só tem o nome.
 
 

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