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“O que é pior que uma partida infeliz?
Talvez um regresso mais desafortunado ainda...”
(Monsieur Henri Corredeiras)

De pé, agora um fantasma, observo a cena e medito. Meu cadáver caído ali, a cabeça despedaçada no chão do gabinete, perto da mesa de reuniões, junto à pistola que usei — arma de fogo, uma das peças mais antigas e valiosas de minha coleção. Não é uma forma bonita de se terminar, admito, mas, apesar de nossas duzentas e cinqüenta e seis religiões oficiais condenarem o suicídio, não vi outra escolha.

Quando eu estava vivo, chamavam-me de Lottar Gan Amor, Administrador Mundial do Povo Malkin. Prefiro achar que fiz o melhor mandato possível, apenas não imaginei que no final dele algo assim aconteceria:
Cinco sextos de nossa população já foram dizimados e as principais cidades estão sendo engolidas pelas chamas. A defesa planetária falhou vergonhosamente, todas as propostas de rendição foram sumariamente rejeitadas e, veja nosso céu, coberto e infestado por aquelas horríveis espaçonaves do inimigo.
 
Se, no futuro, perguntarem qual nosso erro... Foi a benevolência. Há cem gerações, nosso povo deixou de ser nômade e invadiu e colonizou este mundo. Meus ancestrais conquistaram e dizimaram metade da antiga espécie dominante do planeta. A lógica dizia que fizéssemos o mesmo com o resto. Porém, havia liberais entre nossos políticos. Aqueles espíritos fracos conseguiram nos convencer a mostrar piedade e, assim, orgulhosos de nós mesmos, decidimos enviar os sobreviventes de um povo derrotado para o exílio em algum ponto distante no espaço cósmico.
Entretanto, como poderíamos supor algo assim, não é? Não entendo de que modo nossos antigos inimigos progrediram tanto e desenvolveram uma tecnologia dessas. Voltaram, querem retomar o lar que um dia foi deles e parecem considerar a extinção de meu povo um preço aceitável. Decidi não estar vivo para ver isso.
 
Então, tudo começa a ficar escuro para mim e minhas percepções vão desaparecendo. Se irei para alguma terra mítica de recompensas ou punições eternas ou se apenas abraçarei o esquecimento é algo que vou descobrir breve.
Eu realmente lamento. Nossos inimigos, esses abomináveis humanos, vencem e recuperam este mundo. Talvez até o renomeiem de volta a como o chamavam. “Terra”. Sempre achei horrível o som desta palavra. Quase obsceno.
 
 
FIM
Dedicado a Daniel Folador
 

Contos Estronhos - Contos e Crônicas

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