Seg, 02 de Fevereiro de 2009 21:22
Escrito por Evandro Guerra
É noite alta e o vento sopra - nem quente e nem frio. O firmamento escuro mostra-se repleto de estrelas e exibe uma lua grande e brilhante, aparentando estar gorda e pesada. O mar está calmo e o silêncio fala agressivamente.
Destacada pela luz prateada da lua, a criatura se mantém imóvel, em pé no topo da montanha. Melancólica, tem o olhar fixo nas pequenas marolas. Sua feição facial e suas asas recolhidas revelam tristeza aparente. Intrigou-se ao sentir um fio de lágrima escorrer por seu rosto descorado. Secou-a com os dedos. Surpreendeu-se ao perceber que o líquido expelido de seus olhos era vermelho como sangue. Desde que mergulhou no mundo das trevas, foi a primeira vez que viu sua própria lágrima.
Afundado numa depressão avassaladora, pensamentos angustiantes povoavam-lhe o cérebro. Sente-se como um deserto sem vida, uma pedra oca; um fantasma sem tarja de vivo ou morto.
Em pleno desespero, roga aos deuses para que intercedam por sua alma perdida. Procura redenção. Mas é tarde.
Neste momento, o vento sopra sensivelmente mais forte. Ele pode sentir a quase imperceptível mudança no ar. Sabe que em breve amanhecerá. Depois de um suspiro, fracassado, olhou à sua volta. Relembrou que foi neste lugar, que há 300 anos atrás, fez sua escolha. A paisagem não mudou muito, mas para ele, particularmente, muita coisa mudou.
Se pudesse voltar no tempo faria tudo diferente. Com certeza não cometeria os erros do passado. Respeitaria as leis dos homens, criada pelos deuses.
Em vida cometeu crimes, crimes graves que o levaram a uma condenação de morte. Foi exatamente ali, diante daquele mesmo mar, que sua humanidade foi perdida. Foi onde o atrelaram e deixaram para morrer. Mas algo que seu povo não espera ocorreu. Quando o condenado sentia atingir o ápice da dor, um ser das trevas explendorosamente surgiu e ofereceu-lhe além de resgate, uma proposta irrecusável: poder ilimitado para se vingar.
“Armas mortais não poderão te causar dano. O ar, o mar, o fogo e os elementos da natureza nada poderão contra ti. A imortalidade espera-te... Farei de ti a lâmina que corta a carne, a rocha que aplaca as ondas... Vinga-te e faz do mundo uma cova de cinzas.”
Com o coração envenenado de ódio, ele bebeu do sangue do demônio e transformou-se em uma criatura selvagem e de alma negra, movida pelo instinto de matar. Tornou-se uma praga, o mal da terra.
Com o espírito possuído e numa perversidade incrível, assassinou vários com as próprias mãos. Matou - não por dinheiro, não por riqueza, tampouco por poder... Matou pela necessida- de do feito... pelo puro prazer.
Espadas e flechas nada surdiam sobre ele, a não ser para ampliar seu ódio. Sua animalidade parecia progredir a cada dia. Havia se transformado numa máquina de matar com potencial assombroso. Destruir pessoas tornou-se diabolicamente simples nesse contexto.
Pouco tempo depois, ganhou sua vingança. Aniquilou todos aqueles que o condenaram em vida. Assassinou pais, mães, filhos... famílias inteiras. Distribuiu pânico e terror pelos quatro cantos do mundo. Não havia adversários à sua altura. Ninguém era páreo para ele. Nada podia detê-lo.
Desde então - sob total exílio - os segundos, os minutos, as horas, os dias, os meses arrastam-se repletos de agonia.
Hoje, 300 anos depois, a humanidade vive escondida, assombrada e com medo. Suas vidas nunca mais foram as mesmas. Moradas subterrâneas e condutas de segurança, tornaram-se necessárias para a sobrevivência. Nunca mais crianças foram vistas brincando nos campos e, muito menos, homens trabalhando em colheitas ou construções. Conseqüentemente, o progresso foi seriamente afetado. Da mesma forma, para a criatura alada, as coisas não andam bem... Isso se dá porque o mal é inescrupuloso... Engana, mente, trapaceia até mesmo os seus.
No começo, ele era invulnerável, mas com o passar do tempo seus poderes foram decaindo. Antes matava por diversão, hoje mata por necessidade. O motivo é que agora precisa de sangue como um humano precisa de água para viver. Seu corpo sofreu algumas mutações ao longo de décadas. No início, não importava se a luz do sol ou da lua iluminava a terra... agora, só lhe é possível voar na escuridão da noite porque o fulgor do astro-rei, inexplicavelmente, tornou-se nocivo para ele, tornou-se cáustico como ácido. Pelo menos, os humanos ainda desconhecem suas fraquezas.
Nos últimos cem anos sua animalidade foi baixando o tom e uma solidão vem lhe agredindo de forma violenta, fazendo-o refletir sobre sua maldição eterna.
Mesmo de dia, quando está escondido em cavernas ou grutas, o sono não vem. Há 300 anos não dorme. Há 300 anos não sonha. Vive a culpar os deuses por sua desgraçada vida como se não fosse ele mesmo o responsável por suas escolhas. Ninguém além de nós é culpado pelos insucessos de nossas vidas. Se você se oferece ao mal, nele viverá. Lágrimas, independente de suas cores, não mudarão o presente, muito menos o passado.
O céu ainda continuava escuro, no entanto, ao longe, em meio a duas montanhas, uma tonalidade levemente alaranjada indicava onde o sol nasceria. Aos poucos, todo o firmamento passou a se tingir. O monstro levou os olhos para aquela direção. Em câmera lenta, raios de sol estenderam-se como braços se espreguiçando e a claridade passou a vestir a Terra.
Assumindo uma postura agressiva, o atormentado urrou como uma fera. Seus olhos antes negros como carvão, cintilaram ostentando uma cor vermelha flamejante. Com visível irritação, ele abriu suas enormes asas negras e decolou, buscando refúgio no seu devido lugar...
a escuridão.
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Comentários
Um forte abraço do seu fã e amigo! Márson.
www.ethernyt.blogspot.com
Meus perabéns... Sucesso sempre...
Afetuoso Abraço!
PARABÉNS!!!
BJO
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