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Os maus recuavam diante dele transidos de medo, tremiam os que praticavam o mal e a salvação do povo firmava-se em suas mãos.
(I Macabeus 3:6)

O inferno é bem pior do que os grandes escritores Dante Alighieri e John Milton imaginaram; La Divina Commedia e Paradise Lost não são nada se comparados aos meus reais relatos. O caos é eterno. A dor é extrema. O calor completamente insuportável. Os inimigos estão em todas as partes. Nossos piores temores, os mais íntimos, nos rondam incessantemente... Mas, isso não é nada pra mim, pois meus sentimentos de vingança e perversidade são bem superiores aos dos próprios demônios e, facilmente escapei deste mundo... Mas digo que o verdadeiro palco dos horrores está em nossa própria mente, pois quem constrói o inferno dia após dia, somos nós. Apenas nós...
(...)
 
1650 a.C.: 300 anos na Terra se passaram, três dias no inferno se passou. Estou de volta, e a dor que sinto n’alma é quase insuportável. O silêncio na Terra é incomparável, de tal maneira que cheguei ao êxtase supremo. Ao tocar meus pés nestas gramas verdejantes, lembrei-me imediatamente da minha terra natal, a extinta Zahur, onde meu povo foi impiedosamente exterminado pelas hordas dos demônios. Minhas vistas doem ao visualizar novamente tanta beleza. O frio congela o meu corpo. E a pureza do espírito animal me faz chegar ao gozo espiritual. Eu sou um ser das trevas, mas preciso de luz. Caminharei eternamente em busca de vingança, e minha espada sedenta por sangue será minha fiel companheira.
 
(...)
 
2009 d.C.: nestes séculos de andanças, destruí as cidades de Sodom e Amorah, onde a perversidade chegava ao extremo, assim como Atlântida, a cidade que se beneficiaria da ciência e dominaria e destruiria o mundo. Conheci e morei por alguns anos com a feiticeira Évora, a mesma que ensinou magia negra ao temido São Cipriano. Tive acesso e sabotei inúmeras manobras de Adolf Hitler, assim como olhei nos obscuros e profundos olhos de Idi Amin Dada Oumee, enxergando mais uma vez as instalações do inferno. Mas, antes disto, tive o nome de Barrabás, e fui liberto no lugar de um homem chamado Jesus Christus, e, digo que não me arrependo, pois se não fosse por este feito, ele não seguiria o caminho que seu pai determinou, e jamais seria conhecido entre os povos de todas as nações. Caminho através dos séculos, e o tempo é minha eterna prisão. Todos os miseráveis dias, pessoas nascem e morrem, mas eu permaneço intacto, sentindo em todos os momentos esta insuportável dor. Sou conhecedor de inúmeras línguas extintas. Mestre nas ciências ocultas, e o melhor esgrimista entre todos os que existiram nessas terras. Mas nada disso compensa o que sinto. Nada compensa o que sinto...

Hoje, pálido como a cera de uma vela. Cabelos negros, compridos abaixo dos ombros. Roupas de griffe, botas de couro... e a mesma solidão de sempre. Caminho quase despercebido entre os transeuntes do poluído centro da cidade de São Paulo. Sou notado algumas vezes apenas pela minha estatura, assim como minhas vestes, que deveras chamam a atenção, mas, nada anormal para uma cidade possuidora de uma grande pluralidade de estilos, e o meu pode ser classificado como gótico. Meu olhar, indiscreto e sombrio, procura pelos sinais de perversidade em outros olhares, e quando os encontro, o fio da minha espada fala por mim. Talvez seja por isso que caminho livremente; auxilio o Todo Poderoso eliminando os perversos, e auxílio a entidade suprema dos infernos, aumentando as suas tropas infernais. Sou a sombra, o olhar do gato negro, a névoa que ronda os cemitérios e o suspiro do último alento. Caminhando no Viaduto do Chá, digo isso tranquilamente entre uma tragada e outra, visualizando a fumaça do meu Camel Light que às vezes se transformam em tristes imagens do passado. Imagens de um tempo em que eu não conhecia a maldade, e que meu nome não era pronunciado pelos seres humanos milhões de vezes por segundo: diabo.
 
FIM

SOBRE O AUTOR ADEMIR PASCALE - Lingüista, crítico de cinema, ativista cultura, escritor, professor de informática (LINUX), idealizador do projeto de inclusão social Vá ao Cinema e do zine TerrorZine - Minicontos de Terror e editor do portal Cranik (www.cranik.com), é também autor do audiolivro Cinema - Despertando seu olhar crítico (Editora Alyá). Já publicou seus contos em diversas antologias e está com o romance O Desejo de Lilith - Revelações em um diário no prelo. Contato com o autor:  Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

Comentários  

0 #1 Realmente interessante!Márson Alquati 15-01-2009 04:48
A exemplo do maravilhoso conto "Alegoria da Maldade", nesta continuação, Ademir Pascale nos revela mais um pouco do que certamente será um grande livro! Adorei as interferências positivas de Lúcifer nas passagens da História, de modo a desmistificar aquele a quem fomos ensinados desde crianças a temer e a odiar.
Meus parabéns Ademir e um grande abraço.
Márson Alquati - autor de ETHERNYT, A Guerra dos Anjos!
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0 #2 Evandro Guerra 28-02-2009 18:54
Do caralho esse conto. Parabéns.
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