O amor se realiza em outra dimensão.
O sexo nos procura a todo o momento...
(Emília Ract)
Fim de tarde de um dia comum. Volto para casa em meu carro conversível. Vidros abertos. Gosto que seja assim, pois aprecio observar o movimento da Nova Cidade. Meu passatempo predileto após um dia de trabalho na U.L.P. (Usina Líquida de Pensamentos).
Dia difícil. Quase não produzi nada. Estava com a mente cheia sei lá eu de quê. As horas se arrastavam, estava ansioso para voltar para casa, mas sem motivo aparente ou racional.
Os dias tem sido longos. Gosto de ficar só, mas estes dias queria conversar. Mas falar de quê? Desacredito de toda forma de relacionamento entre humanos. O mais distante possível. Prazer e conversas aconteciam mais freqüentemente na internet ou de formas computadorizadas.
O carro seguia pelas ruas amplas guiado pelo piloto automático porque eu estava por demais cansado, o sistema GSM funcionava perfeitamente enquanto eu me distraía.
Penso que não morrer tenha deixado os seres humanos em estado de tédio.
Ah, a ciência, ela encontra respostas para tudo!
Estou carente. Temo informar e sinto até vergonha em dizer, mas esta é a realidade. Fazem tempos que não sinto ânimo nem para colocar meu hedonismo em ação. Não experimento nada.
Nem no sexo. Até mesmo a Lawrence, meu robô sempre fiel e pronta para satisfazer todos os tipos de desejos e sonhos programáveis me atraía. Não me sentia inclinado em ativá-la.
Na era líquida em que me encontro, onde tudo se dissolve até Lawrence a mais perfeita “mulher robô”, o sonho de todo homem da era antiga, me irrita. Agora meu desejo por ela além de mecânico é incompleto. Nada.
Saio do carro, cheguei e nem percebi. A voz do computador quem avisa. Nestes dias ando dissolvido no tempo. Deprimido. Aéreo. Mergulhado em pensamentos de eras passadas, mais concretas...
Mas que coisa! Penso que tenho lido livros de História da Humanidade demais e estou perdendo o senso! Vou tomar um banho para eliminar estes pensamentos inúteis!
Entro na sala e as luzes se acendem ao meu comando, como sempre, vou até a minha suíte, caminho até o banheiro passo a passo. De frente para o espelho retiro suavemente o óculos e deixo-o num canto da pia. Solto os cabelos, pois não posso trabalhar com eles soltos (algumas coisas não mudam). Desabotôo a camisa, botão por botão, vagarosamente pensando que poderia ser outra pessoa quem o fizesse...
_ Senhor, o de sempre? – Lawrence pergunta – Mas não é ela quem eu desejo. Meu desejo não tem forma, ainda... Então a desligo.
A calça desliza por minhas pernas de uma só vez e sinto neste momento um calafrio percorrer toda a minha espinha!
Mas que droga! O circulador térmico de ar deve estar com problemas, não registrou que já estou em casa? Mandarei consertar amanhã mesmo!
Bem, agora preciso tirar o calção de cetim. E este é negro, macio e delicado.
Oras, o que acontece comigo, ando me observando demais hoje!
A água da banheira branca e cheia fica à temperatura que gosto, como sempre.
Tão logo coloco meus pés na água e sinto-a me envolver como uma língua a massagear cada centímetro de meus pés e dedos, tão hábil como uma ninfa. Sinto-me relaxar.
Derramo na água morna um óleo de verbena, sua cor é lilás, seu aroma amadeirado como as raízes do carvalho. Começo a me abaixar até ficar coberto pela água fluídica até o pescoço.
Parte de meus cabelos se molham. Sensação boa. Fecho os olhos e ouço apenas o som do silêncio. Tudo acontece devagar, aos poucos a cor vermelha se forma em meus pensamentos.
Estou tranqüilo até que a água parece se agitar, porém não me movo. Esta situação me excita e logo começo a me tocar levemente ainda de olhos fechados. A mão percorre dos peitos até o quadril até que...
Nossa! A água! Está.. Está lambendo minhas intimidades, assim como fez anteriormente com meus pés!
Assusto-me. Decido abrir os olhos e para minha maior surpresa diante de mim surge uma forma feminina se erguendo das águas, feita delas, crescendo de tamanho, lilás e cheirando a verbena...
Sua forma mostra longos cabelos e um corpo escultural de deusa ancestral e seios fartos. Seu olhar é azul, líquido e infernal.
Ela não é humana! Não na forma materializada. Também não é uma imagem holográfica, ela é água pura!
A princípio começo a rir. Sinto-me um lunático. Começo a brigar com Lawrence pedindo para que ela se desligasse, mas percebo que todo o sistema cibernético da casa estava apagado e a casa em total e mais profunda penumbra.
Ela encontrava-se de pé e caminha para cima de mim. Eu não posso me mover. Não quero. Estou paralisado e assombrado também. Ela se abaixa e senta de forma lilithiana sobre meu corpo excitado e ereto.
O movimento começa: Ela comigo, a água com ela, a água em mim acariciando simultaneamente com sua língua invisível.
A forma liquida desta mulher me parece ser mais sólida que qualquer outra que já existiu!
E como é quente! É quente em todos os ângulos e em suas partes internas e externas! Sinto-me no inferno. Num caldeirão de prazer e luxuria!
Enlouqueço com ela. Sinto-me vivo com ela. Eu me sinto transmutar para outra dimensão, e ela em minha a cavalgar. Uma amazona incansável e selvagem.
Quando chego ao ponto máximo do êxtase, aquele no qual Marques de Sabe chamava de “morte”, vejo seu rosto, vermelho como fogo, belo e horrendo e num piscar de olhos ela desaparece. Encosto meu corpo todo na banheira branca fria e vazia quase sem sentidos:
Onde ela está? E a água? A mulher lilás? Onde estou?
Calma homem! Estou em casa! Em meu banheiro, estou nu e molhado de prazer dentro de uma banheira. Só...
Com dificuldade me levanto. Estou com as pernas dormentes, a cabeça confusa ainda. Só consigo pensar em dormir.
Caminho vagarosamente até a cama e me jogo nela ainda molhado. Fecho os olhos na esperança de que a mulher-água volte e me acorde na madrugada e me faça morrer incontáveis vezes.
Sete horas da manhã. O despertador me chama. A minha roupa de trabalho está separada e impecavelmente limpa e passada, como sempre.
O carro já está ligado na garagem, o café na mesa com tudo que aprecio comer.
Lawrence é minha Eva. Tudo sempre funciona bem, como e quando quero.
Sigo a minha rotina, meus dias, e como eles passam rápido. No trabalho agora tenho idéias mirabolantes úteis. Fui promovido.
Entretanto nunca mais fui o mesmo homem que era antes do banho de verbena. Confesso que usei o frasco todo em outros banhos na tentativa de revê-la, mas foi em vão. Desisti então.
Penso que ela deve estar assombrando e alucinando outros. Ela deve ser um espírito e este deve ser livre, pois assim o senti quando nos amamos.
Amamos? Eu disse amamos? Esqueçam.
O que eu realmente quero é ao menos saber por onde anda meu súcubo lilás. A minha mulher sólida! Mulher de eras passadas. A mãe-amante dos antigos. A mulher dos livros que leio e que em minha era não existe mais...
Tudo que é sólido se dissolve no ar. (Karl Marx e Engels)