Ela caminhava rápido por entre os becos, a neblina embaçava sua visão, mas seguia firme em seu propósito.
Era extremamente bela, o rosto tinha traços fortes, o corpo esguio e perfeito estava coberto por um manto negro cujo capuz causava sombras e cobria parte da face.
Neste momento o medo, muito mais que o frio congelava seus ossos, desde que se tornara uma criatura da noite vivia assim, insegura.
Chamavam-na de rainha os vassalos, criaturas repulsivas que sobreviviam do sangue de animais ou dos restos que o Senhor das Trevas a eles destinava , mas ela não se sentia rainha de coisa alguma.
Desde que Ele conquistara seu coração e depois contaminara o sangue dela com o seu próprio ela sabia que nunca reinaria absoluta, passaria o resto da eternidade à sombra dele, além disso, Ele era o grande Mestre, senhor do tempo e de todas os seres notívagos daquele lugar, qualquer noite encontraria outra presa interessante, e ela seria substituída facilmente assim como tinha tomado o lugar de outra.
Afastou os pensamentos, o som de risos chamou sua atenção.
Escondeu-se em um nicho na parede e pôde ver seu Senhor aproximando-se, mas ele não vinha só, estava acompanhado de uma mulher jovem. Apesar de bela era vulgar, seu riso era alto, suas vestes escandalosas, o decote deixava ver os seios e o pescoço alvo.
Ela teve vontade de cravar seus dentes na jugular da jovem e destruí-la.
Saltou diante deles, os caninos expostos e os olhos flamejantes fizeram com que a moça fugisse gritando desesperada.
Ele olhou-a sem surpresa.
-Vieste no meu encalço, minha dama da noite?
-Sim, meu Senhor.
-Não sinta ciúmes, sabes que és a Rainha dos meus domínios!
-Não meu Senhor, eu apenas faço parte dos seus domínios.
Ele enlaçou-a pela cintura daquela maneira que só ele sabia fazer, beijou o pescoço dela com avidez e tocou-a no seu intimo como se soubesse dos seus planos e quisesse dissuadi-la.
Ela sentiu as pernas amolecerem, suava frio, dentro dela a razão lutava contra a vontade do corpo, que o desejava...
Antes que cedesse à paixão que a tomava, puxou a estaca que trazia escondida na bota, por debaixo da capa e cravou-a no coração dele.
O Senhor das Trevas caiu sob seus pés, e por um segundo, antes que o corpo dele virasse pó ela teve a impressão de ver nos olhos dele o que parecia ser o resquício de algum sentimento.
Não, não podia ser, ela estava enganada, ele nunca a amara de verdade, ela tinha sido para ele apenas uma presa fácil assim como tantas outras.
Ela olhou-o pela última vez e riu, riu tão alto que seu riso ecoou forte e foi ouvido por todas as criaturas daquele lugar.
Afastou-se caminhando calmamente e com a segurança que sua atual posição exigia em direção a sua casa. Logo que entrou foi recebida por um criado que a saudou.
-Deseja algo, Minha Rainha?
-Sim, agora sou realmente uma rainha!
-Traga-me o melhor vinho.
Ela ergueu a taça e brindou a si mesma: Vesnicã, Rainha Absoluta das Trevas!
FIM