Banner
(2 votes)
Num recanto fora da realidade, o Criador do Universo ponderava. Estava de pé, braços cruzados, o semblante pesaroso e sombrio. Em seu ombro direito, o Espírito, segundo membro da Trindade, repousava. Após o que pode ter sido alguns segundos ou até mesmo uma eternidade, ele apontou para sua obra e assim falou:
— Veja, Espírito, o que tragicamente ocorreu com este universo: corrompido de modo irrevogável, irremediavelmente degenerado, desviado e perdido de qualquer propósito original. Um reino de caos e maldade, uma abominação que ofende a si mesmo... E a mim. Que isso termine agora!
E estalou os dedos da mão direita e o universo se contorceu, gritou e explodiu. Da infinidade de energias liberadas, o Criador ordenou que um novo cosmo começasse a se formar, enquanto lágrimas escorriam-lhe dos olhos.
— Mas uma vez você chora. — observou o espírito.
— Sim. Essa foi a versão 2718 do universo. Uma das que mais gostei... Particularmente aquele mundo...
— A Terra?
— A Terra. Eu tinha muita esperança sobre ela. Você me conhece: não há maior felicidade para mim que criar um universo... Nem tristeza mais profunda que destruir um. Trilhões de seres extintos num só instante. Nada me machuca o coração mais que isso.
— Criador, embora nenhuma coisa possa ser escondida de mim, sempre escolhi respeitar sua privacidade. Há, porém, uma pergunta que, há tempos, desejo fazer. Importa-se?
O Criador do Universo sorriu, um riso que poderia gerar uma centena de sóis numa galáxia e apagar uma centena em outra:
— Não. Entenderei como uma cortesia entre nós. Pergunte o que desejar.
— 2718 universos. Todas essas vezes, em nenhuma ponderou sobre a moralidade disso? Quero dizer, não seria mais correto deixar que o universo — se corrompido, pervertido, como fosse — continuasse existindo, do que retirar a vida de tantas criaturas? Nunca se questionou sobre o que está fazendo?
— Todo o tempo, Espírito, todo o tempo... — respondeu o Criador e naquelas palavras havia dor suficiente para que a população de um bilhão de mundos cometesse suicídio — Mas... Vamos. Devemos agora ir falar com o Terceiro de nós... Meu Filho. Suponho que ele vai querer tentar salvar este novo universo também.
Lá foram ambos. O Criador nada mais disse o resto do caminho. O Espírito cantarolou a melodia mais triste que se possa imaginar.


FIM
Dedicado a Jean Gabriel

Comentários  

0 #1 Guardião do Estronho 18-09-2008 10:06
Excelente Rita! Uma visão muito interessante do "criador". Só deve causar polêmica entre os eventuais fanáticos religiosos que visitam o site rsrs... E que infelizmente são desprovidos de respeito a obras fictícias.
Citar
0 #2 Guest 18-09-2008 12:51
Obrigada, Guardião.
:-) Sim, pode causar polêmica, mas tudo bem:
Se puderem respeitar, deixo para lá.
Obrigada e beijos
Rita
Citar
0 #3 Depende do ponto de vista...Cadyy - Camaragibe 29-09-2008 16:10
Sou Evangélica e gostei muito da sua versão. Se na realidade muitos se conscientizasse m que obras fictícias são obras para se ler, gostar ou não e deixar para lá, a vida seria muito mais fácil. Ser fanático é tão prejudicial quanto não crer em nada! Devemos sim respeitar a opinião alheia e, como diz Zeca Pagodinho, deixar a vida nos levar...
Citar
0 #4 Thiago Fiorotti de Carvalho 12-03-2009 14:55
Rita,

Você é demais!
Citar
0 #5 Alex 13-08-2009 19:35
Eu sou um dos que podem ser considerados fanáticos. :P
E adorei o texto, muito bom mesmo. Vou procurar mais textos seus aqui e ler depois. :P
Citar

Contos Estronhos - Contos e Crônicas

Facebook Page: estronhobook Twitter: estronho YouTube: EditoraEstronho
Banner
Nós temos 59 visitantes online