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A vida não é fácil não é mesmo?
Viver dói... Mas não é só isso... Respirar é como morrer a cada instante e renascer com cada novo inspirar...

Como uma música ouvida de trás para frente, Acácia seguia a vida com passos arrastados, lentos e doloridos. Era o peso das eras numa existência sem vida.  Reclamava demais do existir, da monotonia de seus dias, da falta de novidade. Tinha uma vida estável, financeiramente falando. Mas, como costuma ser com o ser humano, faltava-lhe algo.

Por conta deste vazio em seu ser, toda a noite envolvia-se com pessoas dos mais variados tipos e tribos. Passava a madrugada inteira a visitar novos lugares e a experimentar novos beijos e corpos, sentir novos aromas e infinitas formas de amar e se divertir.
Ria. Ria muito. Sempre.
Garanto a todos que ela viveu como nenhuma mulher jamais ousou, mas por certo desejou viver. Entretanto era vazia. Incompleta.

Numa destas noites a lua estava em sua forma mais plena.  Mostrava-se na fase minguante, mas trazia a intensidade e o brilho da lua cheia.
E Isso só Acácia percebeu. Admirava o céu sempre.
Ao sair de seu quarto, depois de um dia todo de trabalho monótono e sem graça para uma empresa de websites, olhou para o céu negro e disse:  

Ah amada lua! Estrelas amigas! Noite que vela meus atos, quero respirar mais uma vez teu ar nobre e ser mais uma em meio esta multidão de ratos suburbanos que povoam-te e em ti se inebriam.

Esta noite, Acácia estava mais melancólica que nunca. Desejava morrer. Fechar os olhos. Nunca mais voltar para casa. Desaparecer.
 Só não tinha coragem de se matar porque no fundo de seu coração o que de fato ela sentia era o desejo de ser salva.
Sim! Desejo de ser resgatada desta forma de vida.

Nunca deixou nenhum homem ou mulher se aproximar demais de seu coração. Nem ela mesma o conhecia tamanha frieza e medo de amar. Afastava assim todos que ousavam chegar mais perto de seu coração ultrapassando o limite imposto por ela: seu corpo belo e esguio.
Porém Acácia era observada há muito por um ser que também admirava e perambulava na noite paulistana. Nesta noite ele também estava admirado pela lua que, imponente, vigiava o bando de homens e mulheres que transitavam pela, como é conhecida, Avenida Nova.
Não eram as baladas que aconteciam em locais fechados como barzinhos e Pub´s que Acácia apreciava freqüentar. Ela se exauria nas reuniões que aconteciam na praça no meio da avenida. Ela era livre demais para ficar fechada entre paredes. Já o fazia durante o dia.
Nesta praça havia de tudo. Roda para discutir e cantar música, filosofar, recitar poesias, beber e até mesmo dançar.
Alguns amantes ousados cometiam o amor em seus carros ou encostados em troncos de árvores sem pudor algum nem medo de ninguém.

As noites também têm se tornado iguais, não é querida? – disse um rapaz que a perseguia há tempos e ela, tão cansada de viver, nem percebeu.
Ele trazia um olhar calmo, leve e profundo. Trajava roupa comum, jeans e camiseta e uma taça de vinho nas mãos.
Acácia ficou surpresa. De súbito um frio percorreu sua espinha de dentro para fora. Sentiu-se cambalear. Pernas moles. Mas logo voltou a si. Entorpecida pela voz rouca do rapaz de presença um tanto paradoxal, pois era perturbadora e deliciosa ao mesmo tempo.
Afirmou-se no chão e logo voltou ao seu mundo indiferente pensando ser ele mais um homem comum atrás de um pouco de diversão.

Bem é para isso que estou aqui, embora nunca me deparei com um homem como este. Nunca senti tamanho impacto, mas não há de ser nada – pensou – Só mais um menos um como sempre.
Boa noite - respondeu Acácia com a voz embargada sabe-se lá de quê.
Mas que diabos! - briga consigo mesma em pensamento - Que acontece comigo? Ele é somente mais um. Igual...

Boa noite? Não diria isso. – disse ele – Hoje de fato não será boa para você querida criança. Está pronta para passear comigo?

O tom da voz do rapaz a irritou um pouco. Entretanto se diverte com esse tipo de flerte criativo.
É alguns homens sabem mesmo inovar.

Sim! Vamos passear. Adoro conversar sob o véu da noite.  Aonde vamos?

Vamos para teu infinito querida. Tenho certeza que não o conhece. Estou enganado?

Ai. Cada uma que me aparece. (pensou)

Acácia irritou-se e teve vontade de deixar o estranho falando sozinho naquele mesmo momento, mas não pôde. Sua vontade já havia sido vencida por algo desconhecido por ela. Sua própria mente.
Continuaram a andar. Seguir em frente. Viraram à esquerda e de súbito Acácia se viu numa rua que nunca, por incrível que pareça, visitou. Esta era estreita e sem saída. Um rio passava atrás das últimas casas fazendo com que o barulho das águas sujas deixasse o ambiente musicalmente leve.
Encostou-a na parede. E pediu para que fechasse os olhos por alguns minutos. Acácia sentiu medo e riu. Fechou os olhos e sentiu alguns beijos suaves percorrerem seu pescoço. Esperava que o rapaz a tocasse todo o corpo quando nada aconteceu a não ser o som daquela voz rouca murmurando algo que ela não compreendia. Soava estranho. Parecia outra língua. E era baixinho... Cada vez mais baixinho... Sumindo... E ela... Aos poucos morrendo...

De repente se viu numa floresta totalmente povoada de cavalos negros. Correndo atordoados. Atropelando uns aos outros. Muita poeira. Sol cegando a visão. Só se podia ver árvores frondosas enfileiradas. Gigantescas. Medonhas. Lindas.
Sentiu-se pegar por um cavalheiro que a colocou num desses cavalos. Ele corria. Desenfreado. E ela sentiu pavor.
 Tentou olhar para o rosto de seu salvador, ou algoz?
 Não conseguia. Só pôde enxergar que o ser possuía cabelos longos e loiros como os dela, pois estes batiam em seu rosto gélido pelo vento da manhã.
Logo o cavalheiro a deixou cair num imenso abismo sem fim. Ela gritava. Queria voltar.

Voltar de onde e para onde? Para que voltar para meu mundo sem graça. Igual. Devo estar morrendo. Este deve ser meu inferno - indagou - Afinal o que é tão ruim? Esta queda infernal ou o existir sem vida?

Olhe para si querida.

Quem disse isso? Onde está você? O que fez comigo? Fale comigo! Agora!

Mas só o silêncio da queda abissal era ouvido. E ela conhecia aquela voz. A voz do homem que a acompanhara momentos antes.
Só então ela se deu conta que estava sozinha na queda. E não era sonho, nem entorpecente. Ela estava dentro de sua mente. Sua consciência bagunçada.
Ela então percebia o descuido de si mesma e começou a se perguntar o que tinha feito de sua vida. Porque se sentia tão sozinha. O que estava fazendo a si própria?
E se viu só. Sem resposta. Era ela com ela mesma mais ninguém. Podia se ferir e se salvar. Tinha a liberdade de ser em suas mãos. Sempre teve.
Então soltou um grito e o abismo terminou num chão frio. Milhares de corcéis passaram por cima de seu corpo como compressores e ela gemia. Gemia de prazer e de medo. Sentia-se nascer.
Foi quando abriu os olhos e se viu na rua de sua própria casa. Deitada no asfalto frio e negro. Perdida, trêmula, descontrolada e louca.
Foi com dificuldade que se levantou e andou vacilante até o portão que já estava aberto e subiu as escadas que levavam para a entrada de seu agridoce lar.
Deitou-se no sofá.
E ria. E chorava. E sonhava. Estava incrédula e sem saber de fato o que acontecera. Mas sentia uma vontade imensa de viver.

Devo mesmo estar ficando maluca. Aquele cara não existiu. Eu não existo. A vida não existe. A vida é uma mentira. Todos estão loucos. Eu, aquele cara, o mundo todo! E eu sequer perguntei seu nome. Também de que valeria? Ele não existe!
De tanto discutir consigo mesma adormeceu.

Acordou no horário de costume, dez horas da manhã e seguiu seu dia como se nada tivesse acontecido. Nunca dormira tão bem. Sentia-se leve. Descansada. Porém em sua mente uma voz inquieta perguntava o que diabos acontecera naquela noite.

Ah. Calma Acácia. Foi só um pouco de pânico. Não foi nada. A vida estava enfadonha demais. Já passou. Não foi nada. Não vê? Estou aqui, em minha casa, com minhas coisas e minha vida como sempre foi. Como sempre foi! Como sempre... humpf... (desconsolo).

Tomou seu café. O pão estava tão saboroso. O leite...

Mas que coisa. Que leite é esse? Hmmm muito bom!

Comeu. Sorriu. Vestiu-se. Caminhou até o computador, mas no meio do caminho a campainha tocou.
Acácia se assustou. Riu. Foi atender o cliente. Sim porque só clientes a visitavam...

Abriu a porta! Nossa. Que dor! Que júbilo! Pelos deuses! Era ele. O homem da noite passada.
Pensa logo ser uma brincadeira.

E diz com ironia: O Senhor! Afinal! O que quer de mim?

O rapaz com olhar assustado sorriso no canto dos lábios diz:

Desculpe, quero apenas que faça para mim um website.

Afinal, qual a diferença de existir e viver?


Comentários  

+1 #1 Abissal...Psiquê 13-09-2008 22:59
Um mergulho abissal nos labirintos do ser...pertinente despertar do espírito...
Tocante,profund o, mágico,maravilh oso...Maravilhosa!
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+1 #2 Miriam Castilho 17-09-2008 17:14
Ah, querida, amei esse texto!
Me tocou, principalmente pelas vezes em que eu mesma estive me sentindo à beira de um precipício, prester a pular!
Viver SEMPRE vale a pena...
Bjus no teu coração.
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Contos Estronhos - Contos e Crônicas

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