Sex, 11 de Julho de 2008 10:49
Escrito por Richard Diegues
Dois copos com café sobre o balcão. Ao lado do primeiro, o capacete vermelho de Pedro, quase tão surrado quanto a fórmica onde estava apoiado. Ao lado do outro, o de Milton.
Depois de provar o café, Pedro jogou mais três colheres de açúcar nele. Milton adicionou quatro. Bem cheias. Tudo estava amargo de repente.
– Ontem foi o Xandi. O quinto agora. Porra, justo o Xandi, o mais cuidadoso da turma. E foi feio. Parou quase toda a Vinte e Três.
– Você viu o corpo dele? – perguntou Milton, arrependendo-se em seguida.
– Não, de jeito nenhum. O Chico me avisou pelo celular. Hoje, se eu vejo sinal de congestionamento, me mando, e entro na primeira quebrada. Nem pego mais via principal. Tenho fugido dos carros. Demoro mais pra fazer as entregas, faturo menos, mas...
Um outro capacete foi batido contra o balcão. Edmundo sentou na banqueta livre, ao lado da dupla. Barba rala, rosto farto. Olheiras fartas, olhos ralos.
– É do Xandi que vocês ‘tão falando? – pergunta, gesticulando ao balconista que trouxesse café com leite e um pão na chapa. – Disseram que foi na Vinte e Três, lá perto do túnel. Foi feio pelo jeito.
Os dois balançaram a cabeça afirmativamente. O café e o pão chegaram pela frente. Chico chegou por trás.
– Eu passei pela Vinte e Três ontem, assim que fiquei sabendo. ‘Tava em serviço de rua. Quase me borrei, mas passei por lá – disse, entrando na conversa, sentando em outra banqueta. – Quando cheguei já tinham levado. Só tinha a moto torta. E o sangue no chão. Graças a Deus. Eu não queria ver. Só precisava confirmar. Foi o quinto, perceberam?
Os quatro permaneceram sentados. Lado a lado. Calados. Comida intocada no balcão. Cada um mastigando apenas pensamentos.
– O Nego foi no Viaduto do Chá. Porra, foi bem na hora da muvuca. Seis da tarde. Gente pra cacete e ninguém viu nada. Como pode? – resmungou Pedro, em desabafo.
– Um camelô disse que viu um carro preto. Com uma loira no volante.
Edmundo deu um safanão na nuca de Milton.
– Pára com isso! Daqui a pouco vai dizer que também anda sendo perseguido por aí – gritou Edmundo, conferindo se alguém os observava, além do balconista.
O silêncio seguiu gelado. Passou um bom tempo, até ser quebrado pelos soluços de Milton.
– E eu tô vendo mesmo. Vi um carro lá na Dom Pedro, ontem a noite, quando voltava pra casa. Ele vinha na faixa contrária. E não vêm com esse papo de que “é só parecido”. A loira ‘tava lá, me olhando com cara de ódio.
– Eu também vi – disse Chico, exaltado. – Duas vezes. Uma na Brigadeiro. Outra na Paulista. Imagina, bem na Paulista. E o Pedro também já viu – acusou, apontando o colega.
– Eu não tenho certeza se vi – Pedro esquivou-se. – Eu ia saindo de casa. Foi antes de ontem. Vinha aqui pro boteco, como todo dia, pra fazer hora antes de ir pro trampo. Tirei a moto da garagem e olhei pra esquina. Nova mania minha. E tinha um carro preto parado lá. Não dava pra ver bem, mas não arrisquei. Entrei novamente e liguei pro trampo. Disse que ‘tava doente.
Os três ficaram encarando Edmundo, que remexia nervoso na viseira do seu capacete.
– ‘Tá certo! Eu também vi a piranha. Vi na Vergueiro, na Juscelino, na Bandeirantes, na Avenida do Estado. Ela quase me acertou, lá na São João... eu tô vendo a vaca toda hora! – falou alto, histérico.
Nenhum dos quatro olhava para o outro. Cada um fitava um ponto diferente do balcão ensebado. Chico rompeu o silêncio dessa vez.
– Quase oito horas. Tenho que ir trabalhar – disse, pegando seu capacete, enquanto levantava e olhava para o balconista. – Pedrinho, põe na minha conta.
Os demais também se levantaram. Saíram do bar e ficaram olhando para as motos recostadas na guia. Ajeitavam as mochilas sem pressa. Colocavam os capacetes sem vontade. Por fim, subiram nas motocicletas e deram partida. Todos olharam várias vezes para as duas esquinas. Estava frio. Suavam mesmo assim.
– Hoje é sexta. A gente podia marcar um outro churrasco amanhã... lá na represa – gritou Pedro, tentando suplantar o barulho dos motores.
– É, a gente podia ir lá novamente. Podia levar equipamento de mergulho. Todo mundo faz isso por lá – respondeu Chico, olhando para os demais.
– Eu levo! – falou Edmundo, sem ânimo. – A gente faz um pouco de mergulho. Todo mundo faz. E se achar alguma coisa estranha... não tô dizendo que vamos achar... a gente chama a polícia. Eles resolvem tudo, sem erro. A gente explica que estava se divertindo e, caso ache algo como... um carro preto, na água, diz que foi só coincidência. Esse tipo de coisa não tem pista.
– Eles vão sacar. Os cara são esperto.
– Se. Eu disse “se”, houver algum corpo por lá, dentro de um carro, já tem mais de dez dias. Deve estar podre, saca? E camisinha não deixa vestígio. Isso é, se a gente achar alguma coisa desse tipo por lá. E se tiver acontecido algo que precise de camisinha. É só suposição, entenderam? Suposição! Tudo se resolve... acho que se essa tal loira existisse, só ‘tá querendo sossego.
– Um enterro decente. Isso deve bastar, né? Não Acham?
Todos concordaram com um gesto de cabeça. Precisavam acreditar. Um a um foram partindo. Eram quatro. Os que ainda restavam da turma. Seguiram seu caminho, esforçando-se para conseguirem chegar ao dia seguinte. Todos atentos ao trânsito. Cada um remoendo sua culpa.
Fim.
Contos Estronhos -
Contos e Crônicas
Comentários
Boa sacada a do conto. :evil:
Força e sucesso ao Estronho!
Bjus.
@candygn
O negócio com culpa, um assunto aparentemente cotidiano numa história que se mostra depois sobrenatural.. Bem legal =]
@Petra_frey
bem interessante. queria saber o desfecho xD
@NubiaEsther
@HPJulioCesar
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