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Dois copos com café sobre o balcão. Ao lado do primeiro, o capacete vermelho de Pedro, quase tão surrado quanto a fórmica onde estava apoiado. Ao lado do outro, o de Milton.
Depois de provar o café, Pedro jogou mais três colheres de açúcar nele. Milton adicionou quatro. Bem cheias. Tudo estava amargo de repente.
– Ontem foi o Xandi. O quinto agora. Porra, justo o Xandi, o mais cuidadoso da turma. E foi feio. Parou quase toda a Vinte e Três.
– Você viu o corpo dele? – perguntou Milton, arrependendo-se em seguida.
– Não, de jeito nenhum. O Chico me avisou pelo celular. Hoje, se eu vejo sinal de congestionamento, me mando, e entro na primeira quebrada. Nem pego mais via principal. Tenho fugido dos carros. Demoro mais pra fazer as entregas, faturo menos, mas...
Um outro capacete foi batido contra o balcão. Edmundo sentou na banqueta livre, ao lado da dupla. Barba rala, rosto farto. Olheiras fartas, olhos ralos.
– É do Xandi que vocês ‘tão falando? – pergunta, gesticulando ao balconista que trouxesse café com leite e um pão na chapa. – Disseram que foi na Vinte e Três, lá perto do túnel. Foi feio pelo jeito.
Os dois balançaram a cabeça afirmativamente. O café e o pão chegaram pela frente. Chico chegou por trás.
– Eu passei pela Vinte e Três ontem, assim que fiquei sabendo. ‘Tava em serviço de rua. Quase me borrei, mas passei por lá – disse, entrando na conversa, sentando em outra banqueta. – Quando cheguei já tinham levado. Só tinha a moto torta. E o sangue no chão. Graças a Deus. Eu não queria ver. Só precisava confirmar. Foi o quinto, perceberam?
Os quatro permaneceram sentados. Lado a lado. Calados. Comida intocada no balcão. Cada um mastigando apenas pensamentos.
– O Nego foi no Viaduto do Chá. Porra, foi bem na hora da muvuca. Seis da tarde. Gente pra cacete e ninguém viu nada. Como pode? – resmungou Pedro, em desabafo.
– Um camelô disse que viu um carro preto. Com uma loira no volante.
Edmundo deu um safanão na nuca de Milton.
– Pára com isso! Daqui a pouco vai dizer que também anda sendo perseguido por aí – gritou Edmundo, conferindo se alguém os observava, além do balconista.
O silêncio seguiu gelado. Passou um bom tempo, até ser quebrado pelos soluços de Milton.
– E eu tô vendo mesmo. Vi um carro lá na Dom Pedro, ontem a noite, quando voltava pra casa. Ele vinha na faixa contrária. E não vêm com esse papo de que “é só parecido”. A loira ‘tava lá, me olhando com cara de ódio.
– Eu também vi – disse Chico, exaltado. – Duas vezes. Uma na Brigadeiro. Outra na Paulista. Imagina, bem na Paulista. E o Pedro também já viu – acusou, apontando o colega.
– Eu não tenho certeza se vi – Pedro esquivou-se. – Eu ia saindo de casa. Foi antes de ontem. Vinha aqui pro boteco, como todo dia, pra fazer hora antes de ir pro trampo. Tirei a moto da garagem e olhei pra esquina. Nova mania minha. E tinha um carro preto parado lá. Não dava pra ver bem, mas não arrisquei. Entrei novamente e liguei pro trampo. Disse que ‘tava doente.
Os três ficaram encarando Edmundo, que remexia nervoso na viseira do seu capacete.
– ‘Tá certo! Eu também vi a piranha. Vi na Vergueiro, na Juscelino, na Bandeirantes, na Avenida do Estado. Ela quase me acertou, lá na São João... eu tô vendo a vaca toda hora! – falou alto, histérico.
Nenhum dos quatro olhava para o outro. Cada um fitava um ponto diferente do balcão ensebado. Chico rompeu o silêncio dessa vez.
– Quase oito horas. Tenho que ir trabalhar – disse, pegando seu capacete, enquanto levantava e olhava para o balconista. – Pedrinho, põe na minha conta.
Os demais também se levantaram. Saíram do bar e ficaram olhando para as motos recostadas na guia. Ajeitavam as mochilas sem pressa. Colocavam os capacetes sem vontade. Por fim, subiram nas motocicletas e deram partida. Todos olharam várias vezes para as duas esquinas. Estava frio. Suavam mesmo assim.
– Hoje é sexta. A gente podia marcar um outro churrasco amanhã... lá na represa – gritou Pedro, tentando suplantar o barulho dos motores.
– É, a gente podia ir lá novamente. Podia levar equipamento de mergulho. Todo mundo faz isso por lá – respondeu Chico, olhando para os demais.
– Eu levo! – falou Edmundo, sem ânimo. – A gente faz um pouco de mergulho. Todo mundo faz. E se achar alguma coisa estranha... não tô dizendo que vamos achar... a gente chama a polícia. Eles resolvem tudo, sem erro. A gente explica que estava se divertindo e, caso ache algo como... um carro preto, na água, diz que foi só coincidência. Esse tipo de coisa não tem pista.
– Eles vão sacar. Os cara são esperto.
– Se. Eu disse “se”, houver algum corpo por lá, dentro de um carro, já tem mais de dez dias. Deve estar podre, saca? E camisinha não deixa vestígio. Isso é, se a gente achar alguma coisa desse tipo por lá. E se tiver acontecido algo que precise de camisinha. É só suposição, entenderam? Suposição! Tudo se resolve... acho que se essa tal loira existisse, só ‘tá querendo sossego.
– Um enterro decente. Isso deve bastar, né? Não Acham?
Todos concordaram com um gesto de cabeça. Precisavam acreditar. Um a um foram partindo. Eram quatro. Os que ainda restavam da turma. Seguiram seu caminho, esforçando-se para conseguirem chegar ao dia seguinte. Todos atentos ao trânsito. Cada um remoendo sua culpa.

Fim.

Comentários  

+2 #1 Guardião do Estronho 11-07-2008 10:50
Valeu pela colaboração Richard. A coisa tá voltando a engrenar no Estronho. :-)

Boa sacada a do conto. :evil:
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+1 #2 Miriam Castilho. 12-07-2008 21:04
Vlw Richard, seu conto está muito bom!
Força e sucesso ao Estronho!
Bjus.
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0 #3 RE: Morto-boysRenata Neves 04-02-2011 20:36
Ei, parabéns pelo conto! Bem legal a iniciativa de envolver moto-boys nesse tipo de história.
@candygn
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0 #4 RE: Morto-boysjoana tamara 05-02-2011 22:24
Muito bom seu conto!Parabéns! É diferente de tudo que eu li.
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0 #5 Boa RichardRodolfo Bertoli 07-02-2011 08:38
Boa Richard Diegues, pra quem já leu sabe do nível. Bom conto.
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0 #6 RE: Morto-boysPetra Anny Frey 07-02-2011 12:40
Poxa, bem legal o conto...

O negócio com culpa, um assunto aparentemente cotidiano numa história que se mostra depois sobrenatural.. Bem legal =]

@Petra_frey
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0 #7 RE: Morto-boysJulia Hille Frey 07-02-2011 12:45
Poxa, ficou muito bom o conto, dá um arrepio no final com as revelações... Gostei bastante =]
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0 #8 RE: Morto-boysJulia Hille Frey 07-02-2011 13:25
Esqueci de postar meu twitter: @Yulia_frey
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0 #9 Alamoa urbana?Leonardo Triandopolis Vieira 07-02-2011 20:34
Esse conto me lembrou da lenda brasileira da Alamoa, só que em uma versão urbana com motoqueiros e um carro preto!
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0 #10 RE: Moro-boysIrislene Paiva 07-02-2011 20:59
Excelente
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0 #11 RE: Morto-boysBibs 07-02-2011 21:04
acho que gostei mais do título, meio infame ueehuhe
bem interessante. queria saber o desfecho xD
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0 #12 RE: Morto-boysNúbia Esther 07-02-2011 21:15
Caramba! Confesso que me pegou de surpresa eu estava apostando no lado sobrenatural, mas a sacada do conto está muito boa. A culpa e o remorso transformando acontecimentos cotidianos (tá vocês podem até falar que vários motoboys do mesmo grupo mortos não é tão cotidiano assim, mas as estatísticas estão aí para comprovar...) em acontecimentos sobrenaturais que depois provam ser nada mais do que apenas acontecimentos cotidianos. Uma outra forma de se ver a exteriorização do sentimento de culpa. Interessante também a dualidade mocinhoXbandido , no início nos condoemos pelas agruras enfrentadas pelos motoboys e depois, bem no fim fiquei torcendo para que a loira do carro fosse de verdade...

@NubiaEsther
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0 #13 RE: Morto-boysAna Cristina Rodrigues 08-02-2011 15:32
Bom fecho, que explica sem explicar. :)
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0 #14 RE: Morto-boysBruno Camargo Manenti 08-02-2011 15:43
Nossa, achei o conto muito bom! Gostei do jeito que o autor escreve... não dá vontade de parar de ler! Parabéns!
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0 #15 RE: Morto-boysTânia Souza 08-02-2011 15:51
título super criativo, e final surpreendente, o conto vai do cotidiano ao sobrenatural de forma natural, gostei.
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0 #16 RE: Morto-boysThais Pampado 08-02-2011 17:57
Nossa, muito bom esse conto! Achei o título super legal, e eu realmente não esperava esse final! Adorei!
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0 #17 RE: Morto-boysJulio Cesar Vieira 09-02-2011 10:02
Primeiro adorei o título, muito bom. A história é legal também, acho que talvez poderia ter alguma continuação. Mas é bem tensa e envolvente. Gostei do fato de a história 'ser contada' em um ambiente apenas, assim tipo com uma conversa.

@HPJulioCesar
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