Dom, 29 de Junho de 2008 06:29
Escrito por Agnes Mirra
“Ele ainda não telefonou. Será que não vem mais?”. Sara fez essas pergunta inúmeras vezes. Estava ansiosa, havia mais de três anos que não via o amigo, Enzo. Há dois dias atrás ele finalmente deu notícias. E viria visitá-la.
Passava das dez. Ela resolveu telefonar. O celular estava desligado. “Enzo não mudou nada mesmo.” Trocou-se e pegou o livro predileto dele “F de Foguete”, ao qual a presenteou antes de ir embora. Leu algumas páginas, e o sono parecia chegar. De repente o telefone tocou:
_ Sara?
_Ora, ora! Quem é vivo sempre aparece. Onde você está?
_ Estou bem aqui no seu jardim.
Ela trocou-se depressa e logo estava no jardim, diante dele.
_ Não vai me dar uma abraço, ‘baixinha’?
Ela riu e o abraçou.
_ Não achei que ia demorar tanto tempo pra voltar. Senti sua falta, ‘magrelo’!
_ Também senti a sua, só por isso voltei aqui.
_ Vem, vamos entrar, o pessoal todo também quer te ver. – Ela o segura pela mão.
_ Será que não podemos ficar um pouco mais aqui, como nos velhos tempos? Só um pouco mesmo, apenas o tempo suficiente para te contar algumas coisas. Depois eu entro e falo com todo mundo, até com Rufus, o peludo. Ele ainda existe?
_ Sim, sim, só que sumiu. Espero que esteja vivo ainda.
_ Sério? Coitado. Como foi isso?
_ Uma amiga louca de Alfredo, Sofia. Aquela garota sempre me deu arrepios!
_ Lembro dela. É, sempre foi estranha mesmo. Mas porque ela pegou o gato?
_ Sei lá. Acho que queria afetar Alfredo. Não sei bem o que houve. Mas, deixa isso pra lá,vamos sentar ali, no ‘nosso banquinho’. Reparou na pintura dele agora?
_ Sara, Sara. Você e suas cores! Ficou ótimo lilás. Mas eu gostava quando era preto.
Eles sentam e conversam alegremente. Eram como irmãos, embora a maioria achasse que ‘rolava algo mais’. O que sempre esteve implícito, afinal.
_ Enzo, porque passou tanto tempo sem dá um telefonema, enviar um e-mail, nada?
_ Desculpe, Sara. Eu pisei na bola, sei disso. Mas é que não parava num lugar por mais de uma semana, e se ligasse certamente quereria voltar. Gosto daqui tenho meus amigos, minha família, tenho você. Se tivesse contato, não ia agüentar.
_ Tá, vou perdoar, mas só porque gosto de você e tava com saudades, viu? Senão...
_ Senão, o quê? “Baixinha”?
_ Ah, “Magrelo”, pára de me chamar de “Baixinha”!
Conversaram por mais de uma hora ininterrupta. A noite agradável abrigava no céu uma lua magnífica. As estrelas pareciam brilhar tanto quanto os olhos de Sara.
_ Sabe, eu nunca imaginei que ia tão fundo nessa história de colecionar. Mas desde pequeno você tem esse vício.
_ Vício? Engraçado ouvir isso. Nunca me senti um ‘viciado’ em colecionar coisas.
_ Mas você é. Bom, ainda bem que nem todos os vícios são ruins. A propósito, o que você está colecionando agora?
Enzo olhou os olhos da amiga, mas na da falou. Depois de uma pausa, ele finalmente falou:
_ Nada. Depois falemos disso. Não vou ficar muito tempo aqui, então quero aproveitar cada segundo.
_ Como assim? Porque não diz? E que papo é esse de ir embora logo? Nada disso, você vai ficar pelo menos um mês aqui!
_ Eu adoraria, mas não posso. Não posso mesmo.
O olhar de Enzo foi tomado por uma tristeza que deixou Sara desconcertada. Ela o abraçou sem entender a reação do amigo.
_ O que está havendo? Meteu-se em alguma encrenca, é isso?
_ Não. Não é nada disso. Minha atual coleção tema ver com você. Por isso voltei, e não posso demorar.
Ela ri aliviada.
_Ah, então é isso? O que quer então? Ai, meu Deus!Deve ser algo que eu goste muito, por isso você está assim, né? Tudo bem, peça o que quiser. Eu te dou! Não posso te negar nada, vamos, é só pedir!
_ Sara... Eu não pedi às outras pessoas. Elas não me dariam!Por isso eu tomava delas. Entende?
_ Enzo, seu ‘magrelo’, o que andou pedindo?Aliás, roubando? Estou ficando preocupada. Fale o que é! Somos amigos, lembra? Sempre me contou tudo. E sabe que pode contar sempre.
_ Minha atual coleção me deixou obcecado. Durante esse três anos eu saí por aí à procura do que ansiava. Não podia ficar aqui, não aqui. E foi por isso que fui embora, justamente por causa desse momento. E foi por isso também que voltei.
_ Enzo, quer falar de uma vez por todas o que quer de mim? Quanto mistério!
_ Você completa a minha coleção, Sara. Só você.
_ Então diga o que quer, e eu te dou. Simples!
_ Deixa eu te mostrar algo, aí você verá o que quero.
Enzo abre um saco e Sara, ao olhar o conteúdo, fica estática ao lado dele. A única coisa que se move é uma lágrima que escorre do seu olho esquerdo. Ela não olha para ele, fita o chão, após alguns segundos com os olhos fechados. Permanece ali, imóvel, ao seu lado.
_ Agora entende porque não peço? Entende? Mas com você, e só com você, agi diferente. Vê porque também não posso ficar aqui, nem em lugar nenhum?
O silêncio entre eles permanece. Ela olha o céu agora, que parece agredi-la com sua beleza tênue, diante do que ela acabara de viver. Enzo, chora e a abraça, pedindo desculpas. Sara não se move. Apenas escuta o que ele diz:
_ Sara, eu sinto muito, mas preciso terminar a coleção. Eu preciso de você! Por favor, dê-me, não me faça arrancar de você, por favor! Sei como fazer, não haverá perigo, é só aceitar e será mais fácil. Está tudo pronto pra recebê-la. Preciso que me dê. Por favor, dê-me...
O silêncio se rompe, ela respira fundo e diz:
_ Qual das minhas mãos você quer? A direita ou a esquerda?
FIM
(Inspirado em meu namorado.)
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