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"Confesso que pensei em eliminar minha Maria Madalena, mas eu a amava e, muito prontamente, ela me deu um primeiro filho, depois o segundo, o terceiro. Logo aqueles garotos se tornaram a minha segunda paixão. Afundei-me, cada vez mais, no papel de pai de família respeitável e trabalhador, com fama de tradicionalista e fechado."

PARTE 3

 

A Redenção de um lavador de janelas.

 

A carta estava escrita de maneira caótica, com letras de tamanhos variados, caligrafia cheia de garranchos. Parágrafos se estendiam pelas margens em espiral. Estava toda respingada de vômito e manchada com sangue em alguns pontos. Tentarei reproduzi-la da melhor maneira possível, começa assim:

*                   *                    *

“Inferno, sexta-feira, dia 06, dia 06, dia 06. Maio. Ano de...[lacuna] no inferno os anos não passam!

[rabiscos]

 Esta é a minha confissão e a minha redenção...

Ass: José de Lúcifer

De Satã...

Da Besta...

Do negrume...

Sem luz...

No escuro...

[página preenchida com rabiscos]

A primeira coisa que lembro é uma paisagem: vermelha, seca, mandacarus, xiquexiques; por todos os lados podia-se ver os pontos brancos formados pelas ossadas dos animais mortos... e havia um menino... seis anos, trapos velhos, sujos e rasgados, pernas finas afundadas na lama do açude, que estava quase seco, até os joelhos redondos, enormes. Era eu esse menino. Faminto. Quase inumano. Menos que isso. Os urubus rodavam sobre minha cabeça apenas esperando o momento derradeiro. Malditos...[ilegível]...da puta!

Eu olhava para a outra margem através do ar quente, tremeluzente, que tostava a lama seca, rachada, que antes formava o leito do açude. Tentava encher uma cabaça com a água lamacenta, gosto de lodo, que serviria para cozinhar nossa lavagem e nos daria de beber.

Ouvi um grito esganiçado:

                 ‘José! José, minino indiabrado, rem cá!’ – minha mãe, a única pessoa no mundo que já me chamou pelo meu nome crist...[rabiscos]... meu primeiro nome —‘ rem cá logui, antes que eu te dê ua pisa!’

Ela não falava muito ...a minha mãe... mas quando falava era para nos admoestar, xingar, praguejar. Corri como pude, descalço, por sobre os espinhos e seixos, com aquela cabaça pesada de água à tiracolo, era quase do meu tamanho.

Parei de fronte à franzina senhora e levantei o meu nariz grande, remelento.

Aparência cansada, envelhecida, ela segurava minha irmã, bebê, escanchada nos quartos por sobre a barriga prenhe e, sem nenhuma emoção, me falou:

                 ‘nói ramo sim’bora. Pega tuas coi’s.’

                 Mas mãe...

                 ‘Seu pai num raí mais vortá. Foi sim’bora. Nói ramo pra Sum Paulo.’ – melhor. Pelo menos agora aquele velho cachaceiro não ia mais bater em mim e na minha mãe. Anos mais tarde fiquei sabendo que ele havia enchido os cornos de cachaça e desafiado o coronel, senhor do lugar. Morreu retalhado a golpes de facão.

A viagem durou mais de semana. Primeiro a pé, dois dias por entre a caatinga cearense, depois em um ‘pau-de-arara’ caindo aos pedaços. Viagem dura. A única comida que havia era farinha, carne seca e rapadura. O pouco dinheiro era conseguido por miserenta esmola pedida a cada parada.

São Paulo, cidade fria, em todos os sentidos, mas generosa... esmola abundante, lixo rico. É incrível ver o que as pessoas jogam fora. Foi debaixo de um dos inúmeros viadutos que habitávamos naqueles tempos que fiz uma promessa: eu iria, um dia, jogar tanta coisa fora no lixo que os mendigos da porta da minha casa seriam os mais gordos do mundo! Custasse o que custasse!

No dia seguinte eu roubei uma caixa de sapateiro, espanquei o dono até à morte, abri sua barriga e comi seu fígado! Ninguém deu atenção, era só mais um mendigo nas ruas sujas de São Paulo!

Não vou contar como nossas vidas melhoram, nem como pude estudar, nem, muito menos, de como matei minha mãe e fiz parecer um ataque de coração!

Eh... eh... tudo bem...

Essa última eu conto...

Afinal... ‘a vaidade é o meu pecado favorito’.

Foi simples... eu a matei de pavor!

Ela apenas me flagrara estuprando pela décima vez a minha irmã, e eu ameacei matar a filhinha dela! A véia caiu dura no ato!

Eu já tinha dezoito anos, e podia cuidar da minha família.

Fiz o nosso vizinho, um farmacêutico, casar com minha irmã, que estava grávida de um filho meu.

Foi nesta mesma época que eu conheci Maria das Dores. Eu a chamava: Maria Madalena! Era uma puta! Mas não se enganem, não era uma dessas putas de rua qualquer, era uma daquelas que freqüentam a Igreja Universal Do Reino Quadrado Retângulo Do Triangulo Obliquo, Não-Sei-Das-Quantas. Virei um fiel ardoroso! Eu ia à missa todos os domingos, participava de todas as congregações. De dia rezava, e de noite comia minha Maria Madalena. Acabamos casando. Os caras da rua diziam: — pô, Nariz, como é que você conseguiu pegar a mulher mais gostosa da rua? – nunca respondi. Afinal, agora eu era crente, respeitável, nunca me misturaria com aqueles vagabundos. O que eles não sabiam era que eu havia descoberto que Maria tinha sido estuprada pelo pastor da igreja quando tinha doze anos, e havia gostado. Desde então ela mantinha um casinho com aquele velho barrigudo. Eu peguei os dois e usei de chantagem para conseguir o que queria.

Mas não me levem a mal, eu amava aquela meretriz, de verdade, mesmo ela sendo uma vadia. 

No entanto, não era necessário o casamento. Meu real interesse em casar com Maria residia nas posses do pai dela. O velho Abraão não era rico, mas possuía a melhor casa da nossa rua, um carro e um emprego razoável. Em um subúrbio da maldita São Paulo, onde ninguém tem nada, quem tem alguma coisa é rei. Ele não gostava muito de mim, como todo mundo, mas mesmo assim me arrumou um emprego na empresa onde trabalhava, a SERVCOM. Uma vez lá dentro, progredi rápido, com muito trabalho, realizando tarefas variadas, de vez em quando dedurava para a chefia alguns colegas por suas faltas... sabe como é... essas coisas contam pontos com o patrão. Além do mais, nesse país, a única forma de subir é passando por cima dos outros. Rapidamente alcancei um dos postos da firma que melhor remuneravam: lavador e reparador de fachadas de arranha-céus executivos. Agora o próximo passo era me livrar do velho e botar as mãos em sua herança.

Tinha de parecer acidente, mas foi muito fácil, Abraão era alcoólatra e todos sabiam disso. Adorava uma “cachacinha”, e ainda trabalhava como eletricista chefe na mesma firma em que eu. Esperei, e esperei... até que houvesse uma coincidência de turnos em que fôssemos trabalhar em um mesmo prédio; cuidei para que houvesse uma garrafa de pinga dentro da caixa de ferramentas do eletricista. Aguardei até quase o fim do expediente, disse ao meu parceiro que precisava ir ao banheiro e me dirigi para a casa de máquinas do elevador. Encontrei o velho já completamente bêbado trabalhando em uma caixa de fusíveis e o empurrei de cara no quadro de alta-tensão. Eu só conseguia lembrar do meu pai enquanto me divertia vendo o velho fritar até a morte. Tive tempo de retornar ao trabalho e chorei e me desesperei quando descobriram a tragédia. Fui eu que dei as más notícias para a família e cuidei de todos os preparativos do funeral.

As coisas não saíram bem da forma que havia esperado: Maria herdou, como filha única, 50% dos bens, os outros 50% cabiam à cônjuge. Comecei a planejar a retirada da velha mãe de Maria, mas novamente a sorte me sorriu. A velha era doente, tinha pressão alta, diabetes. Não durou nem até o final do processo de inventário.

[página completamente preenchida com risadas]

Confesso que pensei em eliminar minha Maria Madalena, mas eu a amava e, muito prontamente, ela me deu um primeiro filho, depois o segundo, o terceiro. Logo aqueles garotos se tornaram a minha segunda paixão. Afundei-me, cada vez mais, no papel de pai de família respeitável e trabalhador, com fama de tradicionalista e fechado. Geralmente as pessoas tomam os assassinos como vagabundos e preguiçosos, mas não eu, sempre fui trabalhador árduo, me orgulhava disso. Ninguém nunca colocou suspeitas quanto à minha compulsão por trabalho ou quanto à minha devoção pela igreja, mesmo sendo, esta última, uma farsa. Com o tempo deixei completamente de matar. Apenas por uma vez, em todos esses anos, cheguei perto de cometer outro assassinato: foi quando minha segunda irmã também engravidou de mim. Ameaçou me denunciar. Dei-lhe uma surra de quebrar os ossos e coloquei a culpa em um suposto namorado dela. Escorracei-a da família como a um cachorro, dizendo que irmã minha não teria um filho fora do casamento - ela sumiu no mundo, nunca mais ouvi falar.

Foram anos de ouro aqueles. Os mais felizes de minha vida.[rabiscos]

Mas duraram apenas uma década.[página inteira preenchida com palavrões]

A vadia, desgraçada, puta maldita, piranha da minha mulher me traía. E eu, naquele momento, não poderia matá-la, esquartejá-la, cozê-la em óleo quente, junto com aquele amantezinho dela. Porque? Como marido traído eu seria o primeiro suspeito. Tive de agüentar ser corno por cinco anos. Cinco anos! Sabia quando se encontravam, sabia até quando iam se encontrar, sabia quem era o amante e o que fazia: seu nome era João Batista, um traficantezinho pé-de-chinelo que aplicava pequenos golpes em nosso bairro.

Empenhei cada minuto, cada segundo livre de que dispunha para maquinar sobre e investigar a vida dos dois. Gravei conversas, segui o amante pela noite adentro... descobri quem eram seus comparsas, conheci alguns. Em pouco tempo eu tinha a ‘ficha corrida’ do sujeito. Conhecia suas falcatruas, pequenos assaltos, e alguns ‘aviões’ de entrega de cocaína que costumava fazer. Poderia tê-lo matado de vários modos diferentes... ‘mas a vingança é um prato comido frio!’.

Maria tinha de morrer junto. Matar João Batista era fácil. Seria engraçado se eu o decapitasse... mas isso eu deixo para Herodes. Tinha de ser mais inteligente... 

Foi quando chegou a semana do trabalhador do ano de 19**... deixo as pirâmides calcularem as areias do tempo...

O feriado era na quinta-feira, isso significava que provavelmente teríamos  o ‘enforcamento’ da sexta-feira.  Eu sabia que vários edifícios da Paulista pagavam extra para serviços em feriados. Candidatei-me a uma das vagas. Um pequeno problema aqui... não encontrei um parceiro para o trabalho em minha empresa. Seria melhor para o álibi se encontrasse... mas fiquei tranqüilo, já passei por situações piores...

Na sexta-feira eu segui o Batista até um de seus ‘aviões’, esperei ele entregar a droga ao garoto que a entregaria ao traficante, abordei o guri na esquina de trás e esfaqueei-o à morte, roubei a droga. Sentei-me em um banco de praça e escrevi uma carta anônima ao chefe do tráfico, dedurando João Batista pela morte do garoto e o roubo da droga. Na carta eu também informava o paradeiro de Batista na tarde de domingo: estaria comendo a mulher de um crente, no endereço: ********. Entreguei-a sem envelope a um moleque que brincava em frente a uma boca de fumo, tomei o cuidado de acrescentar um bilhete com os dizeres: “sem testemunhas, ass. Capt. A. Pilatos”.

Eu havia visto, esporádicas vezes, esse PM, esse tal de capitão Pilatos, recebendo propina das mãos do Batista.

O Brasil é um país bastante benévolo para com os assassinos. Quem iria suspeitar de uma pessoa como eu: crente, pai de família, trabalhador...

Passei o sábado todo em casa, assisti aos noticiários de meteorologia falando sobre uma frente-fria sobre São Paulo. No domingo à tarde fui trabalhar...”.

*                   *                    *

O restante dos fatos já lhes foi relatado. Também, a partir deste ponto, a carta faz referências e advertências diretas à minha pessoa, as quais nunca me atreverei contar. Permita-nos, o leitor, que terminemos de contar o destino malfadado de José de Jacó segundo nosso ponto de vista inicial:

 

FIM DA PARTE 3

(CONTINUA...)

 

 

 

Cuidado com quem você contrata para trabalhar, você pode estar contratando o seu assassino... 

Não perca no próximo número: Atreva-se a ir ao inferno e descubra a sina de José.

-                       PARTE 4 (epílogo):

-                       O epílogo de José.

-                       A queda infinita.

 

(todas as situações, logradouros, personagens vivos, mortos ou morto-vivos descritos aqui não têm qualquer relação com a realidade, qualquer semelhança é mera coincidência)

 

*                   *                   

Comentários  

0 #1 DESCULPASboka 11-12-2006 05:35
Peço desculpas pelo embuste do subtítulo (Sexo, blasfêmia e depravação). Fiz isso para testar uma teoria que vem sendo confirmada. Espero que isto não impeça o nobre leitor de continuar acompanhando a saga do lavador de janelas. Este foi meu primeiro conto de horror escrito realmente à sério e me deu muito orgulho o fato de ter sido premiado em um concurso literário na terra mãe de nossa língua. Humildemente envio as minhas escusas e o meu sincero agradecimento.
ass: Bocca.
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0 #2 Tathy 11-12-2006 09:17
Muito bom... Excelente...
=))))
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