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"Principiei a sentir o mesmo odor misturado de esgoto e sangue podre que infestara o meu quarto na manhã anterior, notei o fedor exalando de dentro da bacia de água de arruda do Da Cruz."
PARTE 2

O outro lado da moeda.

Toda história tem, pelo menos, dois lados - duas versões, sem que, necessariamente, uma delas seja equivocada. As ciências humanas têm aventado que um acontecimento em particular pode ter uma série de explicações diferentes - diferentes pontos de vista, cada um influenciado pela forma como o analista do caso aprendeu a conceber o mundo: o meio social em que ele vive, os valores que tem, a cultura que lhe foi legada através do tempo, seus tabus, seu folclore, sua moralidade, seus preconceitos. Sendo assim, podemos dizer que a análise de um caso pode ter como seu resultado final a somatória de todos esses fatores que constroem o sujeito - da mesma forma, também, podemos dizer que uma análise principia pelo resultado desejado, ou seja: iniciamos uma ação visando obter um resultado pré-determinado. Toda ação possui uma reação que já é conhecida, ou pelo menos esperada...
Ao me decidir levar a cabo a tarefa de constituir este relato, deixei de lado duas possibilidades que poderiam ter influência cabal na construção da personalidade de José de Jacó:
A primeira possibilidade a ser abandonada foi a de que equívocos poderiam ser cometidos. Todo ponto de vista pressupõe uma capacidade de julgamento, que, por sua vez, se baseia na concepção de mundo construída. Ainda que diferentes pontos de vista possam ser admitidos como verdadeiros, vários outros não. Isto se dá pelo simples fato de serem equivocados. O que fiz foi acreditar piamente em uma só forma de perceber as coisas.
Minha confiança excessiva em meu julgamento levou ao abandono da segunda possibilidade: o sobrenatural.
Esta não é exatamente uma opção que você leve em conta logo de cara, principalmente em nossa cultura, tão aferrada em valores positivos, onde o julgamento baseia-se em ações e impressões, nunca na intenção real, mas na presumida. Mas e se pudéssemos ter acesso ao que se passava com os pensamentos de José durante aqueles momentos críticos? E se essa perspectiva fosse narrada pelo próprio?
Dizem que momentos antes da morte ou em circunstâncias em há a iminência dela, todos fazem uma revisão dos momentos marcantes da própria vida em uma fração de segundo. O momento do nascimento, a morte de um animal de estimação, o carinho da mãe, o casamento, o nascimento do primeiro filho - as lembranças correm diante da vista como um estroboscópio de slides, marcando fundo na alma os sentimentos de alegria ou arrependimento. Talvez seja este o julgamento final!...e como mais tarde pude constatar, a morte de José não fora diferente.
No momento em que terminava de redigir a primeira versão deste relato, recebi uma estranha ligação de um senhor que se dizia chamar Robério da Cruz. Ao telefone ele informou ser médium em Ribeirão Preto, estado de São Paulo, e que teria uma importante mensagem enviada para mim do além túmulo. Já que a tal mensagem não possuía remetente, anotei o endereço do centro espírita e, cético que sou, não dei importância e esqueci. Naquela mesma noite fui acometido por pesadelos infernais. Despertei em meio à noite de um sobressalto, em minha pequena quitinete no Morumbi, com uma voz macabra, ressoando de todos os lados, como que parida das trevas que me engoliam, sussurrando como uma multidão em meus ouvidos: "covarde!... mentiroso!... desgraçado!...".
Durante os dias que constituíram as semanas subseqüentes o episódio se repetia. Todas as noites a voz proferia ataques crescentes em ameaças. Mas, para mim, era apenas produto da imaginação. Coisas também começaram a dar errado: o carro quebrou, três vezes; perdi um emprego e uma namorada; fui assaltado e espancado. No entanto, acreditava que era apenas uma maré de azar que me acometia... Até que tudo culminasse naquela aterrorizante manhã de quinta, 05 de maio:
A quarta-feira havia transcorrido normalmente (fato inédito durante aqueles dias), sem nenhum fato extraordinário. A noite, igualmente, havia sido tranqüila, dormi bem, como há muito tempo não fazia, mas na manhã de quinta fui despertado por um fedor misturado de excrementos, sangue podre e cadáver em decomposição. Esfreguei os olhos e me dirigi, ainda cambaleante, ao banheiro, onde acreditava estar ocorrendo um vazamento de esgoto ou algo parecido. Cruzei com a porta da pequena cozinha e enxerguei de soslaio um vulto lá dentro. Atordoei-me com o susto e agarrei os batentes, encarei o interior, e o que vi gelou os meus ossos e vem assombrando meus pensamentos até hoje. Mesmo agora, enquanto lhes transcrevo estas linhas, posso sentir o mesmo arrepio a percorrer a espinha.
Sentado em um tamborete, único móvel do cômodo, desenhava-se a figura de um homem - pernas cruzadas, envergando negro de cima a baixo - encarando-me com um ódio penetrante, dilacerando minha carne, comprimindo meu coração. Fui varrido pelo horror, lancei-me assustado contra a parede contrária à porta sentindo o abandono da sustentação. Agachei até ficar encolhido, em posição fetal, espremido no rodapé, absolutamente congelado, petrificado com a visão.
Bazofia-se, nos meandros do imaginário popular, sobre almas desencarnadas que fazem suas aparições transmutadas em sombras ou vultos: pontos de luz, névoas etéreas...Bobagens!... Tal fantasma possuía forma como um homem qualquer, era uma pessoa que estava ali, quase palpável, comum, não fosse por seu rosto... Horrível, aquela face mantinha-se deformada ainda pelo choque que causara o passamento do defunto: os olhos e nariz moídos em uma massa sanguinolenta, afundados no crânio; as faces e o queixo esfolados com a caveira exposta... - a testa esmigalhada deixava escapar pedaços do encéfalo misturados ao líquido cérebro-espinhal e sangue, formando assim um visgo que derramava por todo o chão da cozinha e escorria em minha direção.
Não dissemos uma palavra, eu e o espectro. Mas, mesmo estando enterrado em silêncio, surgiu em minha mente a certeza de que aquela entidade se tratava do próprio José de Jacó. Imediatamente me dei conta de que o dia anterior havia sido o aniversário dos fatos que ora narramos. Aquela alma atormentada estava condenada a reviver, todo ano, os momentos de sua maior agonia em vida. Ele havia acabado de passar novamente por aquilo tudo e viera me fazer uma visita macabra.
O terror não durou por muito tempo, talvez um minuto ou dois, talvez nem isto, mas era real e desapareceu, tão subitamente quanto havia aparecido, levando consigo o fedor que o acompanhava. Eu apenas colocara as mãos sobre os olhos em uma ação de pavor, ao retirar, já não estava mais lá, era como se nunca tivesse estado. Permaneci na mesma posição durante cerca de duas horas, paralisado de medo, olhando ora para os azulejos esverdeados da cozinha, ora para a pilha de louça suja sobre a pia, ora para o banquinho onde o defunto se sentara. Quando consegui me recompor, fui até a geladeira e "almocei" a primeira porcaria que encontrei, recolhi uma muda de roupa do armário do quarto de dormir e enfiei numa mochila, peguei meu carro e segui viagem para Ribeirão Preto.
Cheguei à cidade pelo meio da tarde, sentia fome e sede, decidi degustar o famoso chope que fazia o renome local, e desta forma poder acalmar meus nervos ainda tensos. A cidade era quente e não possuía maiores atrativos, me dirigi para a choparia que se localizava no centro, diante de uma bela e ampla praça bastante arborizada.  As ruas que a circundavam estavam coalhadas de lojas de sapatos e artigos de vestimenta vendidos a preços muito baixos. Fiquei ali bebendo chope, comendo um "tira-gosto" e observando o vai-e-vem das pessoas que consumiam aqueles artigos. Bebi até ficar completamente bêbado e me dirigi para a pousada mais barata e pulguenta de toda Ribeirão Preto. Dormi e acordei cedo.
Ás oito e meia da manhã já estava à porta do endereço que o tal Robério da Cruz havia me dado:
 O homem era baixinho e gordo, meia idade, olhos tristes e inexpressivos afundados em uns óculos de lentes espessas. Nada naquela figura indicava que fosse o que dizia ser. Ele não pareceu surpreso em me ver, de fato disse que seus guias o haviam avisado que eu receberia uma visita mais ou menos por aquela data, por conseqüência ele esperara a minha visita.
Fui conduzido a uma espécie de garagem onde várias cadeiras estavam dispostas em fileiras voltadas para uma grande mesa, era lá que se realizavam as sessões espíritas, sempre ás 20 horas. Sentamo-nos à grande mesa em posições contrárias, de frente um para o outro. Confesso que sentia uma certa agonia e constrangimento ao olhar de frente para aqueles olhos pequeninos, atrás daqueles "fundos-de-garrafa"...mas Robério (ou "Da Cruz", como costumava ser chamado...) me passava um sentimento de tranqüilidade. A própria configuração do lugar contribuía para que me sentisse desta forma. Recendia no ar um leve perfume de incenso e as paredes eram decoradas com coloridas imagens de anjos e santos brincando entre crianças. Também vasos de flores, entremeadas com ramos de alecrim e arruda, decoravam todos os cantos.  Na parede dos fundos, diretamente atrás de Da Cruz, alinhado com sua cabeça, pendurava-se um crucifixo feito em madeira negra e entalhado em estilo gótico - com borlas rebuscadas nas extremidades e um cristo de olhar sofrido que olhava para baixo como se estivesse abençoando o médium que levava no nome o objeto de seu martírio. Estava em paz, não havia a menor pista do que ocorreria nas próximas horas, não tinha idéia do que eu estava prestes a testemunhar: a experiência mais angustiante e aterradora de toda minha vida.
Conversamos por algum tempo, durante o qual ele me explicou que nunca antes havia presenciado um ser desencarnado com um desejo tão grande de se comunicar, e que, portanto, a mensagem deveria ser muito importante. Disse que não sabia de quem se tratava, e que apenas recebera o pedido por vários de seus guias, o que não era usual. Perguntou-me se conhecia o falecido, ao que respondi que não pessoalmente, mas sabia de quem se tratava sim, ao que ele atalhou:
Hum... isso não é comum. A grande maioria das mensagens que costumo psicografar é endereçada a entes familiares. Curioso...
Então... porquê eu?
Não sei, mas talvez possamos descobrir isso durante a sessão... também estou curioso. Lurdes! - gritou ele na direção de uma porta adjacente localizada à esquerda - Lurdes, meu amor!
Oi Da Cruz! - respondeu a mulher colocando apenas a cabeça por entre os batentes da porta.
Esta é minha esposa, Lurdes. Lurdes este é o Sr.*****.
Por favor...senhor está no céu...muito prazer! - respondi com educação.
Satisfação... - tornou a mulher. Seca.
Lurdes, minha querida, você poderia me fazer o favor de trazer aquela bacia de água de arruda que preparei ontem à noite? Há...e se não for muito incômodo, poderia também trazer uma jarra de água gelada e dois copos para mim e o nosso convidado?
Já, já... - e saiu calmamente.
Obrigado!
Enquanto a mulher foi tomar conta dos preparativos Da Cruz me advertia que nem sempre a sessão obtinha êxito: o espírito poderia não se manifestar, ou, ainda, outros poderiam manifestar-se em seu lugar, bem como ao mesmo tempo em que o espírito invocado.
­—   Prontinho! - interrompeu a mulher com a bacia na cabeça e a jarra d'água e os copos na mão direita. Naquele momento ela se assemelhava com uma lavadeira de beira de rio, sorri baixinho e com a mão na frente da boca para esconder os dentes.
Deus lhe pague, minha querida...pode colocar aqui...assim... - orientou para que colocasse a bacia em cima da grande mesa à direita,  à sua esquerda ficaram a jarra e os copos. Encheu um copo, tomou um gole e continuou:
 Como ainda não travei conhecimento direto com esta pessoa...esta entidade...não posso garantir que teremos sucesso nesta sessão - abaixou-se para pegar um bloco de notas preso a uma prancheta de madeira e alguns lápis e cryons — veja...eu não incorporo, nem tampouco sou vidente, apenas, humildemente, transcrevo as mensagens que me chegam do além. Veja...eu apenas preciso que você me auxilie virando as páginas do bloco e que reze comigo. Vamos começar!
 Uma pontada de arrepio percorreu minha espinha enquanto o pequenino homem aspergia com um galhinho de arruda o conteúdo da bacia em um sinal da cruz. Primeiro em mim, depois em volta de si mesmo para os quatro cantos. Fazia isso de olhos fechados e  aparentando muita fé, recitando, bem baixinho, uma liturgia da qual pude distinguir apenas algumas palavras como "guias", "anjos", "sangue de Jesus Cristo", "elementais da natureza". Em seguida rezamos juntos um Pai Nosso e uma Ave Maria. O homem apoiou a testa na palma da mão esquerda e com a direita segurou um lápis em posição de escrita por sobre a prancheta e o bloco. E assim ficou por longos minutos...
Cada segundo demorava uma hora enquanto eu ficava observando em silêncio aquele homem - homem? Era quase um homúnculo! Com o rosto enterrado na palma da mão, inerte, escondido atrás daqueles óculos que eram maiores em estatura do que ele próprio! Esperando uma manifestação do além túmulo que, não fosse pela aparição do dia anterior, eu teria sérias dúvidas quanto à sua veracidade. Senti-me ridículo...
Não, acho que não... - o médium quebrou o silêncio.
Como?  - respondi sem entender nada.
Acho que os espíritos não querem se manifestar hoje.
Mas...não podemos tentar mais um pouco?
Sim, vou fazer isso, mas...eu não sei... - parecia pressentir algo.
Sniff...sniff...hum, sua esposa está assando algo na cozinha? De repente subiu esse cheiro forte de queimado! Acho que algo está queimando! - falei isso com um súbito embrulho no estômago.
A reação de Da Cruz a este meu comentário foi totalmente inesperada, ele levou um susto e arregalou os olhos em uma expressão de pavor instantâneo. Por uma fração de segundo fiquei estático, sem entender a reação do médium, quando...a jarra d'água e os copos voaram em direção à parede espatifando-se em mil pedaços:
Telecinésia... Da Cruz, foi você que fez iss...
Mas...Ao me voltar para o médium o meu espanto foi ainda maior: os olhos do homem estavam revirados para trás, deixando à mostra apenas as partes brancas dos globos; as faces estavam retorcidas em um espasmo de dor profunda, com um esgar horrendo da boca como se estivesse rindo, gritando coisas como: "exxú!, filha da puta! me dá pinga!" - neste mesmo momento a mão esquerda pareceu brigar com a direita, tomando-lhe o lápis e a prancheta e iniciando a escrever desabaladamente! Fazia isso latindo como um cachorro e berrando como um bode, tudo ao mesmo tempo!
Principiei a sentir o mesmo odor misturado de esgoto e sangue podre que infestara o meu quarto na manhã anterior, notei o fedor exalando de dentro da bacia de água de arruda do Da Cruz. Também percebi que os ramos de arruda que enfeitavam os arranjos de flores em todos os cantos haviam murchado.
Eu fiquei realmente estarrecido após presenciar aquilo! E acreditem em mim, amigos leitores, quando digo: realmente boquiaberto! Levantei-me e fiz menção de sair correndo, mas as cadeiras que antes estavam dispostas em fileiras moveram-se todas em minha direção! era como se tivesse soprado um furacão dentro da sala! Ficaram todas amontoadas, estranhamente equilibradas por uma força sobrenatural. A mão direita do homem estava gelada e me agarrou pelo braço com uma força descomunal, ordenando:
Sente-se! Vire a página!
Sentei-me.
Sob tais circunstâncias, era melhor obedecer!
Fiquei virando as páginas por algum tempo.
Aqueles gritos horríveis não paravam por um segundo. A voz, que saía do fundo da garganta com um bafo pútrido, não era aquela do médium, era grave, às vezes aguda, e vinha de todos os lados ao mesmo tempo. E arrotava, e cuspia, e babava, e golfava um vômito lodoso com cheiro de cachaça. Ora babava sangue, ora um líquido viscoso esbranquiçado semelhante ao esperma. Gritava palavrões, vociferava blasfêmias, rosnava e latia...
Devo dizer-lhes que resisti ali bravamente! Após um tempo que creio ter sido de mais de hora, tomei coragem e perguntei:
quem é você?
Somos nós!
Quem é Nooz?
Nós todos, seu imbecil!
Hãã...quem?
Exxútrancarua,pombagira,cthulu,azazeeeeeeell! O tinhoso, o chifrudo, o cooooisaruuuiiim! O Caim que habitou o deserto! O que cortou a cabeça de João Batista! O que estuprou Maria e a fez defecar um filho bastardo! Hahahahahahahahahahaha!
Olhei de relance para parede atrás de Da Cruz, e, acreditem em mim, a cruz gótica estava rotacionando em sentido anti-horário, em torno do eixo que ficava logo acima da cabeça do cristo, até ficar completamente invertida, de ponta cabeça. Lembrei-me de José de Jacó, pendurado.
Certo! E... o que você quer de mim?
A sua alma! - gelei.
A lâmpada que estava no teto acima da mesa estourou dentro do globo:
Viemos trazer um dos nossos para falar!
E quem é ele?
Calaboca!
O nome dele é "calaboca"? - fiz isso imitando o jeito dele falar. Acho que não gostou da brincadeira...A cruz gótica despencou no chão quebrando-se em duas partes, em um corte que passava longitudinalmente ao pé do cristo e formava uma ponta na parte inferior.
Calaboca! Vira a página!
...
Fiquei calado por mais pouco tempo:
José! José de Jacó! É você?
Ele não tem permissssão para falar! É nossssso essssscravo...nossssssa putinha! Assssssim como você... hahahahaha! - imitava uma cobra. - Nosso cão,nossocãozinhonossoporquinhonossaovelhinha,agenteenrabaeleagentefodeelecomeocúdele... - era agora uma criancinha, uma menininha de voz fininha e baixinha.
Engrossando gradualmente a voz como em um modulador ele vociferou lentamente: — Sssiiiintaaaa-nooooos!
Neste exato momento senti algo gelado subindo pelos meus pés, olhei para baixo e lá estavam centenas, milhares, centenas de milhares de vermes, baratas, lacraias, cobras, lagartos e escorpiões, todos subindo pelas minhas pernas...dor...uma dor excruciante cada vez que me ferroavam...Mordiam-me...Devoravam-me...eu me debatia...esperneava... — saiam de mim!.. — ai, mais uma mordida...rastejando sobre minha camisa, lambendo minha barriga...entrando em minha boca, ouvidos...dor...ai!ai!ai! muita dor...rasgando o meu nariz...— não, não entrem em mim...por Deus não!
Ele não está aqui!
Os insetos sumiram da mesma forma que apareceram.
Gostou? Nossas crianças...quando estiver aqui conosco lhe prometo a eternidade em um buraco cheio deles. Hahahahaha! Bundão!
Eu tremia como uma vara verde, acho que até me mijei...não podia acreditar que aquilo era real. Eu mal conseguia falar, balbuciando e gaguejando:
e-e-e-e-e o d-d-d-Da Cruz? Ele está aí? E-e-eu q-quero f-falar com ele!
O possuído contorceu-se de dor ganindo como um cão, era como se estivesse lutando contra algo interno, uma batalha travada no limbo entre o céu e o inferno. Ao me aperceber disto pensei que talvez fosse uma fraqueza, resolvi insistir:
Eu exijo falar com o Da Cruz! Eu quero falar com ele agora! - Inclinei-me para frente.
ELE ESTÁ MOOOORTOOOOO! - Disse isso com um berro de ódio, tão poderoso que fez tremer todo o local, um vendaval quente nascido das entranhas de sua garganta me empurrou de volta para o encosto da cadeira. Tinha cheiro de enxofre. — Ele está no inferno! Empalado e seviciado em uma cruz por toda a eternidade! Sofrendo, sofrendo, sofrendo...
É mentira! Você é o príncipe das mentiras!
Obrigado!
M-Me deixe falar com ele...por favor.
Então voismecê quer falar com o feiticeiro... - ...sarcasmo... —  esse porco agora é nosso..nosso!...mas se voismecê o quer tanto...voismecê fique com ele!­ - disse com um estranho sotaque mineiro.
O demônio iniciou então uma flatulência grave, muito longa, extremamente mal cheirosa, que culminou em uma diarréia aquosa que escorreu pelo chão do centro espírita:
hahahaha! Aí está ele! É merda! hahahahahaha!
Seu nojento! Porco!
Obrigado! Maldade a sua!
Em momento algum a mão esquerda parara de escrever enquanto a direita segurava meu antebraço com um pulso de aço. Mas subitamente a esquerda parou, a direita afrouxou seu aperto.
Tá pronto?
...*...
Aproveitei que a mão havia afrouxado seu aperto e me soltei, agarrei a bacia com água de arruda e despejei todo seu conteúdo por sobre o médium possesso. O resultado foi como se a água estivesse fervendo: o demônio soltou um grito profundo de agonia em meio a um espasmo, enquanto o couro cabeludo e a pele do rosto formavam bolhas e derretiam como plástico no fogo. Quase que imediatamente as cadeiras, que haviam permanecido equilibradas como uma muralha, desabaram no chão com um estrondo.
Saí chispando - tropeçando e rolando por cima das cadeiras amontoadas. Dirigi-me para o cômodo à esquerda (de onde viera Dona Lurdes), para avisar do acontecido, mas encontrei a mulher na sala de estar pendurada pelo pescoço por um pano de prato atado ao lustre, morta por estrangulamento. Voltei-me para Da Cruz apenas a tempo de ver os seus olhos explodirem em uma massa sangrenta que atirara longe os seus óculos. O homem cambaleou e caiu de cara na mesa, só então percebi a cruz gótica, usada como adaga, encravada na base posterior de seu crânio, logo acima da nuca e apontada na direção da parte de trás dos olhos. Agora a cruz estava novamente de cabeça para cima...
Completamente aturdido, em estado de choque, fiquei perambulando pela casa sem saber o que fazer, entrei na cozinha e abri a geladeira, havia uma lata de cerveja... geladíssima...tomei toda de um só gole, também havia meia garrafa de vinho vagabundo, provavelmente para cozinhar, bebi também de uma só vez. Senti minhas extremidades aquecendo-se aos poucos e uma pontada de coragem retornando: encima da pia havia uma tábua de carne com um enorme cutelo fincado, agarrei pelo cabo e saí brandindo-o ameaçadoramente pela casa como se pudesse me defender com ele...
Ao retornar à sala de estar notei algo que antes não havia percebido - o cômodo possuía vários pequenos altares religiosos com imagens de santos decorando as estantes de livros, o aparador da TV, a cristaleira. Algo bastante típico em casas do interior, onde as pessoas possuem uma religiosidade mais exacerbada. Mas foi apenas ao me deter com mais atenção que percebi algo estranho, as imagens estavam todas profanadas: havia uma imagem de Santa Rita de Cássia quebrada no meio e arrumada como se estivesse inclinada para frente, logo atrás uma imagem de São Francisco dava a impressão de estar currando a santa. Uma imagem de Nossa Senhora Aparecida estava sem a coroa, com os lábios pintados com batom e uma tinta vermelha escorrendo do lugar onde seria sua genitália. Já a imagem de São Jorge estava re-arrumada com um humor sádico: a lança do santo estava introduzida no rabo do cavalo branco, o dragão estava encima do cavalo e o santo no lugar do dragão.
Havia uma bíblia em um aparador no canto, me dirigi até ela, estava de cabeça para baixo;  ao folheá-la percebi que as páginas estavam todas rasgadas ou rabiscadas com obscenidades. Um rangido atrás de mim. Assustei-me e deixei cair o livro, voltei-me com o cutelo pronto a fatiar qualquer coisa que pudesse me atacar, mas era apenas o cadáver pendurado da mulher que balançava com o vento de uma janela à direita. Só então eu vi que havia uma enorme cruz de madeira enfiada em seu ânus. Que atos repugnantes praticara aquela mulher antes do suicídio? Achei melhor não pensar nisso.
Retornei à garagem, abri caminho entre as cadeiras reviradas até o corpo inerte do médium. Cutuquei-o na cabeça com o cutelo uma e outra vez: nada. Estava inerte. Com minha mão esquerda segurei a cruz gótica movendo-a de um lado para outro, tentei arrancá-la...Bam! a mão gelada do morto agarrou meu antebraço e antes que pudesse pensar em algo ela me puxava para perto da boca escancarada do corpo, que agora se erguia com as órbitas dos olhos vazias me encarando em uma expressão de desespero. Em um ato reflexo golpeei o cutelo  com toda força, decepando na altura do pulso a mão que me restringia e encravando fundo o cutelo no tampo da mesa. Caí desequilibrado de costas por sobre o amontoado de cadeiras. Ao me levantar percebi que a mão continuava viva e vinha subindo em direção ao meu rosto, soltei um grito de pavor e me livrei dela arremessando-a longe.
Corri novamente em direção à sala de estar mas empaquei no batente ao divisar a imagem de Lurdes a se debater violentamente na forca, balançando de lá para cá...minha cabeça rodou...senti que ia desmaiar, mas fui despertado por um novo horror: a mão decepada estava agarrando os meus calcanhares e tentava subir pela perna. Desvencilhei-me dela com um espasmo e a esmaguei com um pisão!
Rodei nos calcanhares e saí correndo desembestado em direção à porta que havia usado para entrar na garagem, mas ao chegar nos batentes a minha passagem foi novamente obstruída. Lá, estavam aquelas órbitas vazias a me encarar...o cadáver pálido do médium escancarava em um sorriso de esgar, em meio ao pórtico, com a prancheta e o bloco na mão:
Cremos que não vamos mais te levar para o inferno!
..por..*.
Você é muito burro!
Empurrou a prancheta e o bloco de encontro ao meu peito:
Tome, vá-se daqui!
 Tendo dito isso ele correu em minha direção me atravessando como se eu fosse feito de ar. Olhei para trás para tentar ver aonde ia mas apenas vi o corpo do Da Cruz de cara na mesa, do mesmo jeito que o havia deixado.
Pulei no carro e rasguei a estrada que me traria de volta a São Paulo. Após vinte minutos de viagem, e a uma distância a qual achei segura,  parei no primeiro posto de gasolina que encontrei e comecei a ler a carta psicografada.
O que ela continha?
...De fato era uma mensagem de José de Jacó...
Contendo o outro lado da moeda...o qual transcrevo a seguir:

FIM DA PARTE 2

(CONTINUA...)

 
Não perca no próximo número: Morte! Assassinato! Infidelidade! Penetre (se tiver coragem...) no mundo de José de Jacó e descubra sua verdadeira personalidade. Você vai se surpreender!
PARTE 3:
A Redenção de um lavador de janelas.
O epílogo de José.
A queda infinita.

(todas as situações, logradouros, personagens vivos, mortos ou morto-vivos descritos aqui não têm qualquer relação com a realidade, qualquer semelhança é mera coincidência)

*                   *                    *

Comentários  

0 #1 desculpasboka 04-12-2006 15:43
Peço desculpas pelo embuste do subtítulo (Sexo, blasfêmia e depravação). Fiz isso para testar uma teoria que vem sendo confirmada. Espero que isto não impeça o nobre leitor de continuar acompanhando a saga do lavador de janelas. Este foi meu primeiro conto de horror escrito realmente à sério e me deu muito orgulho o fato de ter sido premiado em um concurso literário na terra mãe de nossa língua. Humildemente envio as minhas escusas e o meu sincero agradecimento.
ass: Bocca.
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