Assim era nosso herói. Um rosto sem traços, um corpo deslizando nas sombras, um homem sem nome. Alguém que buscou sua felicidade por toda vida e a descobriu no colo de uma deusa.
Sua audácia justificava-se na pura necessidade de amar. Na vontade de realizar seu desejo, mesmo que lhe custasse a própria vida. Disposto a entregar corpo e espírito, repetiu a si mesmo, antes de partir: "E de que vale a minha vida, se não posso sentir sua respiração junto de mim? Por que viver se não por ela?"
Um homem sem destino, pois este já o abandonara há dias, quando havia tomado sua teimosa decisão de desafiar o poderoso Hades. Descer ao inferno, andar sobre as rochas incandescentes e se perder em meio as cavernas do Tártaro, lhe parecia um preço ridículo a se pagar pelo amor de Perséfone. Queimar sua alma no fogo da insanidade não seria pior que viver sem o olhar de sua deusa.
Um dia Hades a tomou de Zeus. Nosso herói estava convencido de que a tomaria em seu braços e a beijaria. Um segundo. Era tudo que ele queria. Um segundo e sua alma aquiesceria em mergulhar num poço de lava ou mesmo em ser aprisionada e chorar eternamente lágrimas secas, fagulhas ardentes nas cavidades que outrora carregaram olhos brilhantes e cheios de vida. Enquanto Hades detinha o poder e a sagacidade, esse homem tomado pela loucura, conhecia apenas sua própria e estúpida coragem e nada mais.
Perséfone detinha a beleza deslumbrante que era capaz de cegar até mesmo um semi-deus, o que dizer então de um simples ser humano? No entanto ele se achava digno daquele divino amor, porque o sentia por todos os lados e com tal intensidade, que se deixou levar ao que seria o seu fim. Caronte foi além de condutor, testemunha de sua viagem até os domínios do invisível.
"Não há vida sem o teu olhar. Não há música sem tua voz. Sem tua pele, não tenho serventia para minhas mãos. Para que meus lábios se não posso sentir a maciez de sua boca? Deixe-me vê-la Perséfone! Deixe-me sentir o frescor de seu hálito soprando-me a vida da qual nunca vivi. Permita-me olhar teu corpo, saciar meu desejo, mesmo que no instante seguinte eu seja enviado para o sofrimento eterno, sob o açoite de Hades. Seja minha para sempre, mesmo que seja apenas em minha mente. Perséfone... Me tome como seu. Que Hades me mate, decrete meu fim, mas que não me prive desse momento. Amo-te como nenhum deus jamais te amou ou amará. Tenho-te em minha carne, em meu sangue e em minha própria essência. Nasci para te amar e se te amar não puder, que me ceifem a vida em troca de um segundo que justifique minha passagem pela terra."
E essas foram as últimas palavras de nosso herói. Uma prece feita ao seu grande e único amor. Uma súplica de vida e de morte. Ele havia nascido para amá-la e amando estava, quando deu seu último suspiro em vida, nos braços de Perséfone.
Comentários
Realmente parabéns!
Um conto belíssimo, trágico e belo.
Maravilhoso.
Rita.
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