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Acordei com os pingos grossos daquela chuva de verão castigando meu rosto. Abri os olhos e me vi deitado sobre uma poça enorme de um líquido, que não reconheci de imediato. Sentia dores por todo o corpo. Dores fortes. Senti minhas pernas quebradas, meu braço completamente virado para trás e um vento frio entrando na minha cabeça.

Mas as dores foram sumindo à medida que eu tomava consciência de tudo a minha volta. Comecei a me erguer. Minhas mãos escorregaram naquele líquido viscoso, mas não cheguei a cair. Aquilo tinha cheiro de óleo e sangue.

De joelhos, olhei para o outro lado e vi meu carro completamente destruído, de cabeça para baixo. Não me lembrava de como havia acontecido. Continuei a me levantar e vi o rastro que o veículo deixou no asfalto. Por certo, mais de 40 metros.

Então percebi que o líquido era mesmo óleo misturado com sangue. O meu sangue. Pois olhei para baixo e vi meu corpo estendido no chão. A cabeça com um pedaço da lataria atravessado, como se fosse uma lança. As pernas com fraturas expostas e o tronco parecia de borracha, de tão contorcido.

Morto. Ali estava eu, olhando para aquilo que um dia fora meu corpo. Não sabia o que fazer. Não conseguia gritar, falar e nem ao menos sentia o ar entrando em meus pulmões. Fiquei ali parado por uns instantes, com os braços abertos, mãos sujas, olhos arregalados e sem a mínima noção do que fazer, ou para onde ir.

Lembrei-me das histórias que ouvi por aí. Que quando morremos de repente, nosso corpo fica vagando sem rumo, até que encontremos espíritos que nos ajudem. Até que possamos enxergar uma luz. Comecei então a olhar para os lados, procurando alguém ou alguma luz diferente. Não via nada. Apenas o escuro da estrada, um feixe de luz vindo do único farol que ainda teimava em ficar aceso e alguns pequenos vaga-lumes no meio do mato. Vi um carro parando do outro lado da pista, o som de vozes e logo em seguida, o carro partiu. Deve ter ido pedir ajuda, porque menos de vinte minutos depois, chegou uma viatura da polícia rodoviária. Os homens rodearam o carro, olharam lá dentro a procura de mais alguém. Então mexeram no meu corpo e chamaram alguém pelo rádio.

Nessa hora eu apaguei. Não vi mais nada que se seguiu no local do acidente. Já não estava mais lá. Quando voltei a mim, estava em um lugar úmido, cheio de goteiras, um mau cheiro insuportável e muito silencioso. Ouvia cada pingo. Cada gota caindo no chão.  Andei um pouco, seguindo uma pequena claridade que avistei. Era uma abertura na rocha. Havia luz do outro lado. Olhei para os lados, procurando alguma saída, mas não encontrei nenhuma. Sentei no chão, perto dessa abertura. Pus as mãos na cabeça, quase arrancando os cabelos de desespero. Minha voz não saia, nem ao menos minhas lágrimas, mas eu queria chorar. Eu na verdade estava chorando, mas sem lágrimas.

Em pensamento, perguntava por que estava ali. Seria aquilo o purgatório? Ou meu inferno particular? Durante horas fiquei sentado sem ouvir nem um barulho a não ser aquele gotejar irritante em minha cabeça. Então adormeci.

Sonhei com ela. Estávamos brigando e como sempre, eu esbravejava por um motivo fútil qualquer. Ela tentava me acalmar, mas ignorante como era, eu continuava gritando e gritando. Depois que me acalmei, ela veio e me colocou no colo. Me pediu desculpas por algo e eu, envergonhado pedi perdão pela grosseria. Era sempre assim. Aquele sonho nada mais era do que uma lembrança de uma de nossas brigas.

Ainda adormecido, a vi em um vestido branco, lindo. Ela sorria e escrevia algo no computador. Dizia que era surpresa e que eu não poderia ver até o dia do meu aniversário. Foi quando uma voz interrompeu meu sonho.

Ouvi alguém dizendo: "E hoje é seu aniversário. Como pôde acontecer isso?"

Era o cirurgião. Eu estava ao lado da mesa de cirurgia. Vi meu corpo aberto. Vários médicos ao meu redor. Diziam que havia chances de sobreviver. Eram pequenas, mas eles não queriam desistir. Meu rosto sem vida, um tubo enfiado em minha garganta e um aparelho garantindo o funcionamento dos meus pulmões. Os médicos demonstravam cansaço. Um outro homem entrou na sala, mas não foi percebido por ninguém. Ele olhou para mim e passou as mãos sobre minha cabeça.
   
E então... Agora estou aqui, deitado sobre essa maldita cama há mais de cinco meses. Não mexo as pernas, os braços... Não posso mais fazer amor e por isso ela se foi. Me amava muito, mas como eu poderia fazê-la feliz? Simulei ódio por ela. Fingi jogar a culpa do acidente sobre ela. A expulsei de minha vida para que procurasse ser feliz. No entanto eu ainda a amo. E sempre amarei.

Sabe? Ainda acho que teria sido melhor ter ficado naquele buraco escuro para sempre. Ou talvez vagando por ai. Quero voltar ao acidente.

Comentários  

0 #1 Muito bomVisitante 10-03-2006 17:02
:D
Adorei o trechinho.
Se o livro for todo você ganhou uma leitora.
Deliana

Guardião responde: Não Deliana. O Livro tem um outro conto meu. Esse é um mini-conto. E não um trecho do outro :-)
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0 #2 Rita 12-03-2006 19:39
Marcelo,
Adorei o conto. Muito bem escrito. Uma excelente história de fantasma.
Você está escrevendo cada vez melhor. Um dos melhores pontos desta história foi a forma como você escolheu terminá-la. Eui diria brilhante. E ainda evitou um monte de clichês.
Parabéns.

Rita.
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0 #3 derekVisitante 14-03-2006 11:03
poxa cara vc é bom heim
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0 #4 ate que foi bonzinho...Visitante 17-03-2006 16:03
...na verdade a historia foi bem contada, mas naob da pra acreditar nem uma palavra! Proxima vez tente escrever algo mais realista. :-x :-x :roll: :roll: :zzz


Garibaldo comenta: AI MEUS SAIS!!! Acreditar em quê? Isso é uma obra de ficção!! Ai Senhor!!! Dai-me forças pra aturar!!!
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0 #5 Johnny31Johnny31 17-03-2006 19:34
Putz... deu pra sentir o desespero e solidão do cara... Parabéns Guardião.
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0 #6 NinhaVisitante 25-03-2006 06:24
Adorei o texto, achei
o final muito triste e que muitas vezes acontece na realidade. Sequelas de um acidente maldito que impossibilitam as pessoas de serem felizes.
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