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Um Conto do Hospital Charles Fort


Naquele casarão de arquitetura imponente na esquina da rua larga e antiga, a Dra. Flávia contava seus últimos dias, enquanto a velhice consumia o que lhe restava de vida.

Sua sobrinha-neta, Valéria, vinha visitá-la e, contrariando o que a médica podia esperar de alguém tão jovem, adorava escutar suas histórias sobre o tempo que passou no Hospital Charles Fort, o mesmo para onde, assim se comentava, iam os mais bizarros pacientes.
— O mais estranho deles? — ela repetiu a pergunta da moça e, pensativa, afastou dos lábios a caneca de café, colocando-a, logo em seguida, numa mesinha de madeira ao lado da poltrona, — De todos que já te contei? Hum, difícil dizer.
— Ah, vai, — insistiu a jovem, a face quase brilhava de curiosidade — aposto naquele... O que fez... Você sabe o que com o Dr. Sílvio.
— Aquilo foi realmente horrível. Tragicômico, aliás. Porém... — Flávia silenciou por um instante, organizando as idéias e remexendo em memórias dolorosas e absurdas, enquanto a cidade permanecia mergulhada no silêncio de um feriado e pesadas nuvens de chuva aproximavam-se do leste trazendo consigo um vento frio. — Acho que foi aquele.... Você já se sentiu morrendo?
— O que?
— Aconteceu no final de um plantão. Era um mendigo. Chegou moribundo. Fora linchado na rua. Diante dele, o ar ficou pesado e desagradável. E os olhos... Havia fome neles, uma ânsia por sentimentos, memórias... Por pessoas. Não sei explicar de outra forma.  Era como se a vida estivesse sendo arrancada de mim. Comecei a desmaiar. Carlos, um enfermeiro novato, tentou me segurar. Por acaso, também olhou nos olhos daquele homem e caiu morto instantaneamente. Nenhum exame conseguiu determinar a causa da morte. Nunca disse a ninguém, contudo, de algum modo, eu sabia: a alma fora devorada. O paciente se recuperou quase que de imediato. O governo o levou naquela mesma noite. Em minhas orações, agradeci a Deus por isso.
Valéria ficou em silêncio. Em sua mente, horror e incredulidade duelavam.
Lá fora, as nuvens despejaram sua carga e choveu por todo o resto da tarde.
FIM

Comentários  

0 #1 hugdam 11-02-2006 20:45
Gostei. Sinceramente gostei muito. Tem enredo e a estória foi bem articulada.
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0 #2 inteligenteVisitante 11-02-2006 20:47
NUM INTINDI NADA.
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0 #3 Tabernáculo de Zoéjack bacon 14-02-2006 16:31
Escreves cada dia "mió".
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0 #4 Resposta a comentáriosVisitante 15-02-2006 05:47
A todos que comentaram, muito obrigada!
Periodicamente estou publicando textos aqui na OE. Há outro já aqui.

Rita.
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0 #5 Obra primaVisitante 15-02-2006 16:37
Já conhecia o Silvério de Farias de outros sites. O cara é puro terror, show de bola! Vai acabar virando o Stephen King Tupininquim!
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0 #6 Visitante 15-02-2006 21:23
Caro visitante,

Quem é Silvério de Farias?
Meu nome é Rita Maria Felix da Silva, a autora desse conto.
Fico contente que tenha gostado desta história (obrigada), mas, por favor, não me confunda com outra pessoa. Ok?
Obrigada!

Rita.
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0 #7 Johnny31Johnny31 17-02-2006 15:48
Ora, ora... que bom que voltou Rita... e já voltou mandando muito bem... Texto pequeno, mas muito interessante... A imagem da velha Flávia ficou gravada na minha mente...
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0 #8 Comentário de Johnny31Rita 17-02-2006 23:35
Obrigada, Johnny! :-)
Há uma outra história minha também ocorrendo no Hospital Geral Charles Forte, chama-se "Uma Epifania para Agnes" (Agnes Whitehill). Acho que depois ela será publicada aqui.
Esse Guardião não é uma maravilha? Veja só a oportunidade que ele está me dando para divulgar esses meus textos!
Rita.
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0 #9 MiguelVisitante 30-05-2006 21:15
Fica nisso tudo uma dúvida, Rita: e o que é que o governo fez com o mendigo? É arrepiante só imaginar que alguém pudesse ter um tal poder...


beijos


Miguel
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0 #10 Rita 29-08-2006 20:02
Desculpe só ter respondido esse comentário agora.
O mendigo poderia, dependendo da mentalidade do governo em questão, ser encarado como uma ameaça ou uma arma, por isso ele pode ter sido eliminado, trancafiado em definitivo ou utilizado.
Várias possibilidades.
Rita.
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