Era um dia claro e frio, não totalmente frio, as pessoas podiam deixar seus casacos no mofo caseiro, mas não podiam sair sem uma blusa de manga longa. Uma temperatura agradável, ao sol não era quente e à sombra era fresca e delicada.
Os parques estavam cheios, pois, para melhorar as coisas, era uma bela tarde de domingo, toalhas de piqueniques espalhadas por ai, crianças correndo com as faces rubras e mães e pais namorando tranqüilamente enquanto olhavam os filhos brincarem despreocupados. Mas sempre que algo está bom acontecem coisas para deixar tudo um pouquinho pior, não que pioraria tudo, mas estragaria uma pequena parcela do divertimento. Uma nuvem carregada e decidida pairava vacilante sobre o parque, talvez ela deixasse de brinde a todas aquelas pessoas felizes sua chuva, talvez fosse no embalo do vento para qualquer lugar longe dali.
A tempestade começara exatamente às três horas da tarde, pelo menos todos já haviam lanchado e saciado a vontade de correr pelos gramados do parque, agora as mães se preocupavam em recolher as toalhas e as cestas e levar seus filhos e maridos para casa, depois preparariam um bolo quentinho e todos comeriam sentados à sala vendo algum filme que passaria na televisão. As outras pessoas (aquelas sem filhos, ou maridos) tomavam o rumo de casa, ora acompanhados dos namorados ou namoradas, ora sozinhas. Velhotes e velhotas, alegres por terem relembrado a juventude nos bancos já decadentes do parque tomavam táxis para não se constiparem com a chuva e poderem voltar com outro vigor para suas casas igualmente velhas. E era assim que acontecia, todos procuravam seus pertences para voltarem para casa tranqüilos e aliviados. Fora uma manhã e um começo de tarde bons para um domingo que prometia ser tedioso!
Ela estava realmente assustada, mãe solteira havia deixado o filho brincar mais ao longe enquanto terminava de ler seu livro tranqüila sob a árvore grande e fresca, porém a primeira gota de chuva molhou a página trezentos e trinta e três de seu livro e uma preocupação brotou em sua mente. Onde estaria seu filho? Saíra para brincar mais perto das árvores densas, mas ainda não voltara, estaria ele explorando a parte mais perigosa do bosque? Ela havia dito para ele não ir muito longe a ponto de não saber voltar. Que mãe irresponsável ela fora! Ele certamente achara o aviso inútil e deveria estar já bem avançado em sua caminhada pelas árvores, será que encontrara, ou fizera, alguma trilha para não se perder? Não poderia mais esperar, colocou o livro já quase encharcado na bolsa e saiu em busca do filho. Entraria no meio das árvores? Por seu filho faria qualquer coisa!
Um lugar úmido, algumas gotas penetravam pelas folhas das árvores, eram realmente muito juntas uma das outras, sabe-se lá o que os jovens de hoje faziam lá quando fugiam dos pais e das regras morais! Ela mesma sabia, ela já fora um desses jovens, ainda era bem jovem, trinta e três anos não são propriedade de velhos! Mas agora quem estava lá era seu filho, seu pequeno filho de seis anos, já muito inteligente para sua idade, mas ainda indefeso. Já fazia um bom tempo que entrara no meio das árvores, não sabia ao certo quanto, mas suas pernas doíam muito e nada de achar seu filho, onde estaria ele? Seria fácil reconhecê-lo em meio às arvores, qual mãe não reconhece seu filho? Até mesmo no meio de uma multidão! Seus pés doíam muito, suas pernas começavam a formigar, era como se aquelas árvores suspirassem para ela parar um pouco e descansar, parecia que a chuva já havia ido embora, que mal faria? Todo mal! Seu filho estava perdido!
As árvores não a fariam desistir, ela continuaria a caminhar, coitada, foi tentar enfrentar as árvores, como era ingênua! Pois foi muito feio da parte dela, muito feio! Sem perceber, numa fração de segundo caiu em um buraco, nem percebera, parecia que ele surgira no instante em que xingara uma raiz que tentara fazê-la cair no chão, não tropeçara na raiz, caíra em um buraco. Seu sangue gelou, pois percebeu que era uma espécie de poço, ao tatear as paredes úmidas percebeu que eram de pedra, paralelepípedos de pedra colocados simetricamente. Sim era um poço! Ah! Pensava apenas em seu filho perdido naquela mata sem fim, aquela mata escura numa noite que prometia ser fria. Não para as felizes famílias dos piqueniques, nessas as mães já haviam dado uma janta quentinha e suculenta para seus filhos e eles já estavam deitados em suas camas com deliciosos cobertores felpudos.
Ele, no entanto, estava à janela vendo a noite ficar cada vez mais escura, achava interessante como o tempo passa e ninguém se dá conta, explicando melhor, ele não entendia como uma pessoa poderia ignorar a passagem dos segundos, eles estavam sempre passando, mas as pessoas não ligavam para isso, pois sempre que iam informar as horas informavam-nas junto com os minutos apenas! Sabia que isso era uma loucura de sua cabeça, mas mesmo assim achava importante as pessoas terem essa consciência de que os segundos estão sempre passando e consumindo nossas forças. E a noite avançava linda e brilhante, apesar das nuvens não deixarem as estrelas aparecerem no céu soturno. Deveria sair, era um adulto jovem e sadio, poderia andar pelas ruas escuras, quem sabe até mesmo passear pelo bosque, a essa hora já abandonado até mesmo pelos mais ardentes amantes. Afinal fazia tanto frio que nem o calor da paixão e da fricção dos corpos compulsivos de prazer fariam aquecer aqueles jovens irresponsáveis.
Colocou seu casaco pesado e saiu, sorrindo, para rua, sua casa ficava a menos de quarto quadras do bosque, seria uma caminhada alegre, quem sabe pararia para conversar com algum mendigo na rua? Se é que os mendigos não teriam procurado algum lugar mais quente para passar a noite... Deixou de lado esses pensamentos e seguiu. As calçadas estavam úmidas e levemente escorregadias. Que vontade tinha de correr! Começou a correr como um desesperado, estava tão delirante que nem percebeu o poste a sua frente, bateu com a cabeça, caiu de costas. Que dor! Massageou o galo na testa, fora uma pancada forte, mas não doía tanto, rapidamente levantou-se e continuou seu caminho. Nem percebera que a cada hora o céu ia ficando mais escuro e o ar mais pesado e frio, se é que o ar frio parece pesado...
Estava desesperada no poço, percebera que esfriara e que a chuva parara, teria que tentar novamente escalar a parede de pedra, mas suas mãos e seus sapatos escorregavam cada vez mais, parecia que à medida que os segundos iam passando as paredes ficavam mais úmidas. Os segundo passando e sua vontade de lutar sumindo, a imagem de seu filho encoberta de névoa bela e aterrorizante. Ninguém passaria por lá naquela hora, ninguém! Tentava tirar aquela névoa da imagem distante de seu filho, mas parecia não surtir efeito suas tentativas e nada lhe dava forças para tentar uma nova escalada, seus olhos pesavam e suas pernas doíam. Homericamente! Faria o que? Simplesmente, tirou o livro úmido da bolsa, pegou o isqueiro que usava para acender seu cigarro (há semanas prometera nunca mais fumar, porém a promessa não durara muito, depois daquela tragédia não agüentara) e fez uma pequena fogueira fajuta no chão que parecia também ser de pedra. Não conseguiria sair dali tão cedo, pensaria então em manter-se confortável. O livro, todas aquelas palavras de romances baratos de banca, queimava com um esforço digno de um herói de guerra mutilado e ela começava a dormir sem perceber que sua calça ficava cada vez mais quente. Um calor se alastrando a medida que seus olhos se fechavam e o ar vindo da boca do poço ia ficando frio, sufocante e pesado, esses dois opostos envolviam seu corpo e uma escuridão monstruosa, com seus dedos de unhas afiadas, ficava mais agarrada a seu corpo.
Ele pretendia chegar até o parque e sentaria em um banco molhado, molharia suas calças e voltaria alegre para casa, como a vida era boa! Nem sentia mais a dor em sua testa! Queria sentar-se logo, suas pernas doíam e pela primeira vez seus olhos pesavam, estaria com sono? Impossível, tomava remédios para não sentir sono, tinha pavor de dormir durante a noite! Por que sentia sono agora? Não se lembrava de ter esquecido de tomar a dose diária do remédio. Ah! Que coisa! Por que justo agora seus olhos pesavam? Começou a andar mais rápido, em contraste com o protesto de suas pernas já muito doloridas, para chegar ao parque logo. E nada de perceber aquela estranha escuridão a sua volta.
Uma moça caminhava sem rumo perto dos bancos, um moço alto com um machucado aparentemente dolorido na testa aproximou-se dela e perguntou por que sua calça estava chamuscada. Ela apenas respondeu que não se lembrava, talvez deixara o cigarro cair e queimar sem querer a calça. Ela então perguntou o que o moço fizera na testa, aquele machucado, parecia doer muito, ele disse que batera em um poste, mas não se lembrava de ter caído, logo não deveria ser algo grave. Um convidou o outro para dar uma volta aos redores do bosque. Simultaneamente os dois disseram sim e, sem saberem o real motivo, deram-se as mãos e saíram andando sem rumo.
Os segundos foram passando, como sempre, nem mais rápidos nem mais calmos, eles andavam sempre na mesma trilha, ora entravam um pouco no parque e sentavam-se em algum banco molhado (nem sentiam suas calças molhadas), ora iam à rua próxima de um poste com uma sombra estranha encostada (talvez algum bêbado perdido). Estavam satisfeitos um com o outro, não perguntaram seus nomes, acho que nem se lembravam de como se chamavam realmente, queriam apenas andar de mãos dadas pelas ruas escuras daquela cidade calma e fria. Tão calma e fria. E os segundos passavam, mas o céu não ficava claro, estava tudo escuro, e as nuvens ainda repousavam sobre suas cabeças. Tudo tão frio, e eles caminhando naquela mesma trilha. Tudo tão escuro para eles que andavam, porém para aquelas famílias, as dos piqueniques, já era hora de chamarem seus filhos para escola, as mães já preparavam o café da manhã e os jornais já apareciam nas portas das casas.
Lages, Camila.
Comentários
A mãe esqueceu o filho, não, ela na verdade não esqueceu, algo aconteceu com ele. Algo aconteceu com ela. E o cara que surgiu do nada ainda não foi... :-)
Talvez eu tenha confundido um pouco mais as coisas... Talvez não...
Porém, obrigada por ter lido o conto todo :-)
Abraços, Camila Lages...
guardião me de uma luz ?? Devo parar de fumar essa erva danada que me deixa altamente criativo ou não??
Johnny31, talvez sim, talvez eu tenha tentado estabelecer um paralelo entre o sofrimento e o extase, mas se foi, creio que foi inconsciente :-) , dei muito do que eu sentia no momento para esse texto...
FLAVIUS, a morte é a atriz principal :-). E sim, a moça morreu, e o cara também, eles estão confusos e perdidos na própria escuridão... E, quanto a essa erva danada que o deixa criativo, não tem ai para mim não? Estou precisando um pouquinho :P .
Abraços, Camila Lages... :-)
nhay, saudades do tempo em que lia tudo o que vc escrevia!
amo-te anjinha...desculpa a demora, mas queria dar atenção total ao seu texto!
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