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Tantos anos vivendo dentro de um cemitério me fizeram ver o mundo com outros olhos. Filho de coveiro, fui criado entre túmulos, coroas de flores, velas e velórios.

O cheiro da morte sempre me acompanhou em minhas refeições. Sempre convivi com vozes e sussurros misteriosos. Vultos transitando entre as lápides eram tão comuns quanto pessoas num funeral. Nunca me importei com os mortos. Eles estavam ali, assim como eu. Para mim nunca houve diferença entre eles e os vivos. Se tivesse que brigar com algum deles, brigava. Se tivesse que demonstrar admiração pela história de outro, sempre o fazia. Mortos nunca me assustaram, ao contrário dos vivos. 

Agora, anos depois de me formar, volto novamente ao lugar onde tudo teve início. Meu pai, com muito suor, sempre me possibilitou estudar nas melhores escolas que seu dinheiro podia pagar. Se consegui ser o brilhante profissional que todos dizem, todos os méritos devem cair sobre ele. Na minha formatura lá estava ele, sorrindo orgulhoso. Já lhe faltavam alguns dentes, assim também como pouco do juízo. Sua cabeça já não era mais a mesma de quando me carregava no colo e brincávamos entre os túmulos e jardins do cemitério. 

No dia em que consegui meu primeiro emprego, ele me disse que sua missão tinha sido cumprida. Foi a última coisa que me disse. No dia seguinte, faleceu. Um ataque repentino do coração me tirou meu pai.
 
Lutei durante anos contra a morte. Salvei pessoas. Evitei que outras tivessem o mesmo destino de meu pai. Mas ele nunca voltaria. Nada do que eu fizesse poderia mudar o que tinha acontecido. 

No hospital eu também via vultos, ouvia vozes pelos corredores e sentia o cheiro da morte. Ela rondava todos os quartos, espreitando, esperando o momento certo de levar alguém. Muitas vezes conseguíamos adiar essa "colheita" da velha ceifadora. Outras vezes, perdíamos o jogo de imediato. 
   
Mas hoje já não sinto o cheiro da morte. Não vejo mais os vultos vagando por aqui. Vejo apenas as flores de uma coroa, pessoas reunidas em volta de um caixão no salão principal, uma criança chorando e alguns adolescentes contando piadas do lado de fora. 

O entardecer aqui é frio e sombrio nesse dia de hoje. Retornando ao meu antigo lar, essas lembranças me fizeram viver novamente anos e anos de alegria junto a meu pai. Porém não escuto mais as mesmas vozes de outrora. As vozes que ouço agora são familiares.
São meus filhos, minha esposa e meus amigos. 
   
Hoje estou aqui, ao lado da morte. E seu cheiro se tornou diferente. Tem perfume de rosas. Veio me buscar e trouxe com ela, meu pai. Ele me sorriu, passou o braço em volta de meus ombros e deixamos, com muita tristeza, o lugar que sempre nos proporcionou alegria.

Outra vida, outra missão.

*** FIM ***

Comentários  

0 #1 Johnny31Johnny31 24-12-2005 20:43
É guardião... nada melhor do que um bom conto estronho pra finalizar o ano. Será que vc vai nos presentear com outro conto ainda este ano??? hehehehehehe... Feliz Natal pra vc, pra Camila Lages, pra Rita e pra toda a família Estronha e Esquésita!!! Um abração.
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0 #2 Márcia MariaVisitante 25-12-2005 06:51
Pode até ser q não era o objetivo, porém esse conto me emocionou... Boas Festas para vc todos os seus familiares.
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0 #3 Ficou...Camila Lages 25-12-2005 11:50
Ficou emocionante, eu até chorei e é verdade. A morte tem cheiro de rosas...

Desejo um Feliz Natal para você, Marcelo, para sua familia e tudo que desejamos num dia de natal... Feliz natal para Johnny31 e obrigada pelo Feliz Natal...

Por fim, Feliz Natal a todos...

E mais uma vez, o conto ficou emocionante... Muito emocionante... E a morte talvez tenha mesmo um cheiro de rosas, porém vindo do outro lado...

Beijos, Camila Lages...
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0 #4 simples, mas marcante!!Visitante 28-12-2005 06:25
Parabens Marcelo!! A cada dia que passa você esta escrevendo melhor... Este conto apesar de pequeno e completo, realmente você esta fechando o ano muito bem!!
Feliz ano novo e toda felecidade do mundo pra você!
beijos
Vanessa Lopes
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0 #5 SHOW.Visitante 05-01-2006 16:30
Marcelo,
Um conto curto, completo, linear e extremamente delicado, que mostra com nitidez o seu amadurecimento como autor.
Aaaaaaaaah, moleque!!!
Beijos e parabéns.
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0 #6 Nilda-RJVisitante 10-01-2006 19:24
Valeu mesmo....este conto e nota 10, você me parece ser uma pessoa muito inspirada e criativa, realidade fantástica !!!! Parabéns!!
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0 #7 polets 30-08-2006 14:49
Olha só que legal, esse conto foi postado no dia do meu aniversário. Será que foi presente pra mim? eu acho que sim então muito obrigada pelo presente, adorei. :D
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Contos Estronhos - Contos e Crônicas