Sex, 23 de Dezembro de 2005 20:15
Escrito por M.D.Amado
Tantos anos vivendo dentro de um cemitério me fizeram ver o mundo com outros olhos. Filho de coveiro, fui criado entre túmulos, coroas de flores, velas e velórios.
O cheiro da morte sempre me acompanhou em minhas refeições. Sempre convivi com vozes e sussurros misteriosos. Vultos transitando entre as lápides eram tão comuns quanto pessoas num funeral. Nunca me importei com os mortos. Eles estavam ali, assim como eu. Para mim nunca houve diferença entre eles e os vivos. Se tivesse que brigar com algum deles, brigava. Se tivesse que demonstrar admiração pela história de outro, sempre o fazia. Mortos nunca me assustaram, ao contrário dos vivos.
Agora, anos depois de me formar, volto novamente ao lugar onde tudo teve início. Meu pai, com muito suor, sempre me possibilitou estudar nas melhores escolas que seu dinheiro podia pagar. Se consegui ser o brilhante profissional que todos dizem, todos os méritos devem cair sobre ele. Na minha formatura lá estava ele, sorrindo orgulhoso. Já lhe faltavam alguns dentes, assim também como pouco do juízo. Sua cabeça já não era mais a mesma de quando me carregava no colo e brincávamos entre os túmulos e jardins do cemitério.
No dia em que consegui meu primeiro emprego, ele me disse que sua missão tinha sido cumprida. Foi a última coisa que me disse. No dia seguinte, faleceu. Um ataque repentino do coração me tirou meu pai.
Lutei durante anos contra a morte. Salvei pessoas. Evitei que outras tivessem o mesmo destino de meu pai. Mas ele nunca voltaria. Nada do que eu fizesse poderia mudar o que tinha acontecido.
No hospital eu também via vultos, ouvia vozes pelos corredores e sentia o cheiro da morte. Ela rondava todos os quartos, espreitando, esperando o momento certo de levar alguém. Muitas vezes conseguíamos adiar essa "colheita" da velha ceifadora. Outras vezes, perdíamos o jogo de imediato.
Mas hoje já não sinto o cheiro da morte. Não vejo mais os vultos vagando por aqui. Vejo apenas as flores de uma coroa, pessoas reunidas em volta de um caixão no salão principal, uma criança chorando e alguns adolescentes contando piadas do lado de fora.
O entardecer aqui é frio e sombrio nesse dia de hoje. Retornando ao meu antigo lar, essas lembranças me fizeram viver novamente anos e anos de alegria junto a meu pai. Porém não escuto mais as mesmas vozes de outrora. As vozes que ouço agora são familiares. São meus filhos, minha esposa e meus amigos.
Hoje estou aqui, ao lado da morte. E seu cheiro se tornou diferente. Tem perfume de rosas. Veio me buscar e trouxe com ela, meu pai. Ele me sorriu, passou o braço em volta de meus ombros e deixamos, com muita tristeza, o lugar que sempre nos proporcionou alegria.
Outra vida, outra missão. *** FIM ***
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Comentários
Desejo um Feliz Natal para você, Marcelo, para sua familia e tudo que desejamos num dia de natal... Feliz natal para Johnny31 e obrigada pelo Feliz Natal...
Por fim, Feliz Natal a todos...
E mais uma vez, o conto ficou emocionante... Muito emocionante... E a morte talvez tenha mesmo um cheiro de rosas, porém vindo do outro lado...
Beijos, Camila Lages...
Feliz ano novo e toda felecidade do mundo pra você!
beijos
Vanessa Lopes
Um conto curto, completo, linear e extremamente delicado, que mostra com nitidez o seu amadurecimento como autor.
Aaaaaaaaah, moleque!!!
Beijos e parabéns.
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