Não mais, nunca mais, estranho os olhos lacrimejantes, éramos, no entanto, um só, mas o que importava se a vida ia rápida em seus trilhos deixando-nos sozinhos sem saber onde e como pisar?
Não mais me importava coisa alguma, aquelas roupas jogadas sem ordem no chão, aquele cheiro de nada misturado com o álcool da noite anterior, eu, sozinho, ficava na poltrona sentado, ainda entorpecido, o álcool, o cigarro por fumar deitado no cinzeiro elegante de cristal. Onde estivera? O que se passara? Apenas passagens rápidas, eu entrei no quarto, uma fúria incontrolável tomava meu corpo, a garrafa lá, linda e majestosa ao lado da cama na mesa de cabeceira, beba-me, virei metade em um gole apenas, tonturas, sentei no chão mesmo e, trêmulo, acendi o cigarro, aquele cheiro, depois disso não sei, nem sei como vim sentar na poltrona. O paletó jogado no chão, os sapatos virados, o sol nascendo preguiçoso, começo ou fim?
Precisava de um café urgentemente! Lentamente dirigi-me a cozinha, preparei um daqueles capuccinos instantâneos, não tinha o gosto do café da minha mãe, doces lembranças, mas dava para tentar acordar, há! Como se eu fosse lembrar de muita coisa, a cabeça doía, será que fora muito a farra? Um banho! Sim um banho simples e rápido, água fria escorrendo no corpo, minha visão embaçava aos poucos, os óculos! Onde estariam? Não os encontrava, ao retornar ao quarto ainda procurava, como um tonto, varias vezes no mesmo lugar, mesmo sabendo que lá não estariam. O banheiro! Talvez os óculos estivessem lá, estavam, partidos em cima da pia! Ah! Como enxergaria agora? Simples, não enxergaria! Precisava de um banho, quanta confusão! Desliguei o chuveiro, a água desceu fria e cortante pelo corpo nu, corpinho não muito bonito por sinal, devia ter me arranhado durante a noite, costumo fazer isso quando, antes de dormir, algo eletrizante aconteceu comigo, mas não importava, nada importa a essa altura. O sabonete não estava lá!
Droga! Pisei no chão frio do banheiro, água por todos os lados, o chão parecendo uma grade poça, droga, sem tapetinho de toalha! Tateei em busca da toalha de banho pelo menos, quem disse que achava? Devia tê-la esquecido no varal, agora não havia mais tempo, sai sem nada mesmo molhando todo o caminho até o armário onde guardava o sabonete, minha cabeça não parava de doer, eu praguejava cada movimento, por fim, resolvi olhar-me no espelho, e onde está o espelho? Não estava lá, confuso apenas peguei o sabonete e fui terminar meu banho, depois, segui molhado para o quarto, ainda envolto naquele cheiro de álcool e bruma, a poltrona lá, convidativa, sentei, o cigarro morto, ao seu lado o maço novinho, acendi um, meus músculos relaxaram, eu realmente precisava sair daquela loucura! E veio-me a cabeça. Seus olhos lacrimejantes, suas palavras sem nexo, riso ou choro? Era confuso.
Assustei-me com o toque do telefone, alo? Era ela, ligava-me pedindo para vê-la naquele café de esquina, precisava escolher uma roupa, algo decente em meio à bagunça, parecia que vinte mulheres haviam festejado no meu quarto, e se fora? Como eu não me lembrava? Por fim coloquei uma calça cáqui e uma camisa azul-marinho, bela combinação. Sem paletós, estava enjoado demais para tanto, minha cabeça ainda doía, fazia um frio glacial, a garrafa ainda estava pela metade, com mais um gole dei cabo nela, o cigarro fumado há pouco tempo jazia morto ao lado do companheiro de caixinha. Mais um capuccino faria-me bem, na cozinha preparei um e virei de uma vez só, pouco me importando se queimaria ou não a língua, quem liga? Quem se importa? Os olhos lacrimejantes, com força eu tentava lembrar, os olhos chorosos, o riso distante... Meus pulsos doíam também, cada hora uma dor nova, e meus óculos quebrados, eu não enxergava bulhufas a minha frente!
Recolhi a chave do carro na fechadura da porta, segui até a garagem, algo no ar fez-me tossir violentamente, o carro não estava lá, será que fora roubado também? Quanta sorte numa única manhã! Maldição! Mas, se havia sido roubado a chave não era para estar comigo, observei-a na palma da mão, não era a chave do carro, era a reserva da porta da casa, havia imaginado a chave do carro lá, eu precisava sair de casa, o ar poderia fazer-me bem, mas meu corpo era mole, estava mole, fui para meu quarto novamente, comecei, meio a contragosto, a arrumar aquela bagunça infernal. Um paletó jogado no chão, em baixo o canivete, depois um copo parcialmente quebrado, brigara eu comigo mesmo? A garrafa finalizada na manhã mesmo e o cinzeiro de cristal, dois cigarros mortos, aquele cheiro misteriosamente sedutor do álcool e a névoa da minha miopia. Mais roupas jogadas pelo chão, recolhi todas e coloquei no cesto de lavar, depois fui ao banheiro dar uma olhada no óculos quebrado, onde eu deixara a fita crepe? Poderia juntar a ponte e tentar usar por enquanto até mandar fazer uma armação nova, estava na hora.
O vapor inexistente na hora do banho reinava no banheiro, como? Desligara o chuveiro para tomar banho, uma toalha pendurada na porta, eu não havia visto? O tapetinho perto da janela, como eu estava distraído! Limpei a bagunça do banheiro e sentei-me no vaso, o que acontecera? Minha cabeça doía muito, peguei a toalha (a porta fica perto do vaso) e escondi meu rosto nela, um cheiro adocicado veio ao meu nariz, estranho, a toalha branca tinha pequenas manchas vermelhas, toquei uma delas, gosmenta, meus pulsos doíam tanto, minha cabeça doía, tontura, levantei, joguei a toalha no cesto de lavar do corredor junto com aquelas roupas e decidi ir ver televisão. Tentativa vã, não enxergava nada, era tudo névoa, eu lembrava apenas daqueles olhos lacrimejantes e do riso choroso de sua voz.
Ela me ligara e eu não fora ao seu encontro, estaria ela me esperando ainda? Viria ela a minha casa para perguntar-me o que acontecera? Ela era uma criatura estranha, pálida e bela, anêmica e sedutora, aquele ar doentio excitava-me, um desejo compulsivo de sugar a sua vida desgraçada, mas os olhos eram mais brilhantes do que deveriam ser, não gostava dos olhos, principalmente quando ela chorava, eles ficavam mais brilhantes ainda. E, no entanto, eu adorava fazê-la chorar e implorar a mim por clemência, ah! O que isso tudo importa? Se os seus olhos ainda brilhavam na minha mente? Nada importa, não mais, nunca mais! Eu sei que precisaria sair de casa um pouco, para vê-la, doía-me vê-la sofrer ao mesmo tempo em que me alegrava, estranho, mas era verdade, ela era linda quando implorava, uma característica nunca encontrada por mim nas outras namoradas que tive, uma novidade!
Resolvi procurar a fita crepe para colar os óculos e por fim dissipar a maldita névoa da minha miopia, minha mãe fizera isso uma vez com meus primeiros óculos, ficara ridículo, todos riram de mim e eu ficara furioso, que direito eles tinham? Sempre fora caçoado, sempre, uma piada sem graça, mas tudo bem, eu superei e consegui o que eles nunca conseguiram, um emprego decente. A maldita fita crepe não queria ser encontrada, procurei em quase todas as gavetas, sobrara apenas o baú. Baú de minha mãe, muitas lembranças estavam enterradas lá eu não queria revivê-las, tinha medo, mas para dissipar a maldita névoa eu faria tudo. Cheguei perto, tremia compulsivamente, girei a chavinha no baú (a chavinha sempre ficava no baú) e abri. Tontura.
O jardim sempre fora belo e amplo, lembro-me até hoje de quantas vezes caminhei por lá em meio a névoa, acho que nasci míope, desde pequenino via tudo através da névoa, minha vida era mergulhada em névoa, até quando ganhei meus óculos, o jardim não era tão belo, mas como minha mente já fizera uma imagem dele, para mim, mesmo com aquelas árvores secas e as flores mortas e esquecidas, era sempre belo e majestoso. A casa era escura e o rosto de minha mãe deformado, ela sofrera um acidente antes de eu nascer. Os óculos mostraram-me uma realidade nunca antes imaginada, eu não a queria, mas precisava dela, necessariamente indesejada. As ruas da cidade eram frias e claras, muito claras, eu via cada defeito, cada desgraça, desde o momento dos óculos então passei a amar o belo real. Não mais me arriscava a olhar pra um rosto sem os óculos, a admirar uma paisagem sem os óculos, apenas de noite, quando tudo, independente de miopia, é névoa.
Namorara sempre moças lindas e perfeitas, porém cansei-me. Certo dia, enquanto andava distraído, tropecei numa saliência da calçada, meus óculos voaram longe e uma simpática mocinha recolhera-os para mim. A primeira vista era bela, muito bela, os olhos brilhantes, mas depois, quando coloquei os óculos, percebi ser uma pobre mocinha doente na sua angústia e melancolia. Apaixonei-me, estranho, pois não a queria perfeita, queria-a sofredora, então, fazia-a chorar, tirava os óculos, observava seu anêmico rosto choroso em meio a míope névoa e depois, já com os óculos, consolava-a em meu peito. Mas seus olhos eram demasiadamente brilhantes, mesmo na névoa, isso fazia crescer em mim uma inquietante perturbação. Não importa, eu precisava achar a fita crepe, ela não viera procurar-me, nem eu a procuraria então. Achei! Estava lá, no fundo do baú, escondida por todas aquelas fotos antigas de névoa, minha vida era a névoa.
Levei o rolo de fita para o banheiro e arrumei os óculos lá mesmo em cima da pia, coloquei-os, o espelho estava no mesmo lugar, como eu era pálido, o tapetinho estava vermelho. Confuso. Segui para o quarto, o canivete recolhido para cima da mesa de cabeceira manchado de vermelho, o cinzeiro com os cigarros mortos parcialmente quebrado, sangue na cama, no chão, por todo lugar, seus olhos lacrimejantes, seu riso choroso, seu sarcasmo, sua dor, eu a fizera chorar pela última vez, sua voz, seus olhos brilhantes, de ódio, o baú entreaberto, vazio, minha vida não mais era névoa, estava tudo claro agora, meus pulsos doíam presos na cama, minha cabeça doía com o ferimento do toco de madeira, tudo rodava. Por fim, sem névoa, apenas escuridão!
Camila Lages
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