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Nas fronteiras mais extremas do Céu, inicia-se um imenso abismo (o Marek-Zun-Itinir, na linguagem dos anjos) que separa o Paraíso, o Inferno e o universo material.


Dizem que, há muito tempo, houve uma vez em que o anjo Marind chegou às bordas do Paraíso e, pensativa, ela contemplou aquele abismo. Sua face estava tomada pela preocupação; seu coração, dividido e indeciso; e em sua hesitante mão direita, o punho fechado firmemente, carregava um dos itens mais importantes de toda a história da Eternidade, mas sua consciência estava afligida pela dúvida numa missão em que ela realmente não acreditava.

Mesmo para os padrões angelicais, Marind era bela. Seus cabelos eram escuros como as profundezas do Cosmos e caíam sobre seus ombros; seu rosto era de uma beleza singular, como um quadro ao qual um artista dedicara-se anos e anos de sua vida, para fazê-lo e refaze-lo em busca de uma inalcançável perfeição; seus olhos eram negros e refletiam profundidade e antigüidade e havia algo de uma essência intensa por trás deles; a pele era como o luar e o corpo mostrava-se tão bem proporcionado, em formas tão habilmente construídas, que arrancaria elogios do mais cuidadoso escultor.

Comentava-se que o Marek-Zun-Itnir incitava a reflexões, como se fosse um espelho no qual se pudesse ver a própria alma. Naquele momento, ela compreendeu essa verdade.

Lembrou do anjo que já foi chamado de Samael, um ferimento em seu coração que doeria para sempre. Ela o conheceu e eles se amaram de uma forma tão intensa, pois Samael era chamas, desejo e sedução, de modo que, muitas vezes, tudo era tão assustador que Marind pensava em fugir, mas ficava, pois se sentia incapaz de deixá-lo. Porém, o espírito de Samael estava dividido entre aquela qualidade adorável que o fazia o mais amado de todos os anjos, um amor excessivo por si mesmo e uma inclinação para a loucura. Por mais que tenha sofrido, houve um momento em que Marind precisou abandoná-lo e encontrou em si forças para tanto, quando ele já usava o título de Lúcifer e discursava para outros anjos idéias disparatadas sobre rebelião, destronar o Criador e ascender a si próprio ao trono do Céu. A loucura havia vencido.

Seu coração desfazendo-se em lágrimas, ela conheceu o anjo Zashiel. No começo ambos hesitaram, todavia, por fim, tornaram-se amantes. Com ele, ela encontrou um amor profundo e confortável que lhe acariciava e enaltecia o espírito. E ele era uma fortaleza na qual ela podia se abrigar e com quem gostaria de permanecer por toda a Eternidade.

Porém, a loucura de Lúcifer seduziu um terço dos anjos do Paraíso e a Guerra se iniciou. Chamas tomaram conta do lugar que antes conhecera apenas a paz, houve mortes por toda parte e o solo sagrado do Céu foi coberto por cadáveres. No final do conflito, o próprio Zashiel transpassou com uma espada o orgulhoso e louco Lúcifer e entregou-o moribundo aos pés do Criador.

A rebelião havia terminado. Lúcifer sobreviveu e foi atirado no abismo junto com os outros revoltosos, que imploraram por piedade, mas não ele, que zombava do Céu e jurava vingança. Os rebeldes caíram até se recolher no Yaret-Yarung-Aranun, o reino sombrio que lhes serviria de prisão pela eternidade e que em um tempo futuro seria chamado de Inferno.

Porém, a Guerra havia marcado a alma de Zashiel com letras de fogo e dor e ele havia mudado para sempre. Atormentado e melancólico, seu amor por Marind definhou, devorado pelas memórias do conflito. E, mais uma vez, o coração de Marind foi ferido e ela sentiu-o desfazer-se em seu peito quando Zashiel a deixou.

"Você não é um dos anjos da Paixão, Marind" - os outros disseram - "então, por que tanto ama e sofre?" Ela desconhecia a resposta e isso a fazia sofrer ainda mais.

E agora estava naquele lugar, na margem do Marek-Zun-Itinir, em sua mão segurando a mais questionável de todas as missões que já recebera e completamente incerta do que deveria fazer...

Marind.

Ela se virou. Seu coração acelerou-se e seu espírito foi novamente afligido pelas memórias felizes e dolorosas de um tempo perdido.

Zashiel. — ela disse, ainda incrédula de que ele pudesse estar ali.

— Sim. Senti que você estava em um profundo dilema e prestes a fazer algo realmente errado, que repercutiria por toda a Eternidade. Você precisava de mim e eu vim.

—Os outros o mandaram, não foi?

— Não, — ele respondeu e havia tanta melancolia naquele belo rosto que ela se entristeceu ao compará-lo com o amante em suas lembranças — vim por minha própria escolha. Ainda me sinto ligado a você. Me preocupo com seu bem-estar e suas decisões.

— Em outro tempo, você diria que me amava.

— Eu amei você, tanto quanto pude. Mas a Guerra aconteceu para todos nós. Para muitos custou a vida, para outros, a alma. Tudo aquilo devorou minhas certezas e amar era algo de que eu não me sentia mais capaz. Sinto muito se magoei você.

— E o que isso importa agora, não é? O que é um coração partido e mais alguém infeliz diante da Eternidade? Que relevância isso pode ter no esquema geral das coisas? — ela questionou e um tormento profundo escondia-se por trás daquelas palavras.

— Importa mais do que imagina. — opinou ele, com uma sabedoria antiga. São os detalhes que determinam o resultado final de todo o plano do Criador. Todavia, estou aqui para conversar sobre a tarefa que você recebeu e sua hesitação em cumpri-la.

— Ah, talvez você se ache mais capaz de executá-la, não quer tomá-la de minhas mãos e seguir em frente cumprindo o que o Criador me ordenou: "leve isto até o novo mundo que criei e deixe-os lá, como as sementes do futuro, para que povoem aquela esfera"?

— Não tenho este desejo. E essa é uma tarefa que cabe apenas a você. Há grande discordância entre os anjos sobre isto que agora carrega. Muitos, ainda que com relutância, escolheram respeitar a decisão do Criador, enquanto outros estão contendo a tentação de interferirem contra você. Eu jamais permitiria que a machucassem.

— Eu não preciso de sua ajuda. Eu saberia me defender sozinha.

— Por certo. Porém, há outro ponto que desejo discutir: Lúcifer entrou em contato com você, não é? Não se espante que eu saiba. Há muito que preciso saber, pelo bem de todos nós.

— É, — ela respondeu e seu rosto assumiu um tom mais sombrio, enquanto as memórias percorriam sua mente — ele me visitou em sonhos. Falou sobre esta tarefa que recebi, me mostrou o que estas criaturas são e do que ainda serão capazes. Tanto horror, dor e morte. As palavras dele me pareceram sábias e convincentes.

— Semear a dúvida é o dom de Lúcifer. — sentenciou Zashiel—, no entanto, ele é um dos seres, em toda a criação, que vive perdido em enganar a si mesmo. Os planos do Criador são profundos demais e precisam ser vistos em seus nuances para serem compreendidos. Aquele que um dia chamamos de Samael costuma contentar-se em observar apenas um aspecto de um todo maior, dessa forma, comete o engano que o definiu para sempre.

— Mas você também viu nessas coisas o que Samael me mostrou, não é? Como pode acreditar que a decisão de nosso Mestre em criá-las é a melhor, sabendo todo o horror que podem fazer?

— Como eu disse, Lúcifer olhou apenas para um lado, — a resposta dele foi firme e poderosa — eu observei todos que pude. Naquilo que você chamou de "coisas" há grandes potencialidades, algumas maravilhosas. Esperança, Marind, a base que mantém a própria Eternidade. Há grande quantidade dessa dádiva nelas, e a possibilidade de um futuro como nunca sonhamos. Lúcifer viu isto de forma errada e temeu pelos próprios planos que elaborou.

— Para alguém que perdeu suas certezas, você me parece muito seguro sobre essas criaturas... — ironizou ela.

— Com o fim das certezas, outras devem ser erguidas e, na ausência dessas, resta-nos acreditar em uma coisa ou outra. Esperança, como eu disse, a expectativa de que coisas boas aconteçam e de nossos objetivos se concretizem. É dessa forma que a vida continua.

— Há! — ela se viu inesperadamente zombando dele — você fala como um daqueles anjos filósofos!

— Se tenho o que se chama de sabedoria, sou prudente o bastante para entender que é suficiente apenas para mim mesmo.

— E o que acontece agora?

— Este é um daqueles momentos que definem a Eternidade. Cabe a você decidir o que vai acontecer e como tudo será daqui por diante.

— Isso não me parece justo. Nunca pedi por isto. Eu poderia simplesmente abrir minha mão direita e atirar essas coisas no abismo, onde se perderiam para sempre e o assunto estaria encerrado.

— Sim, poderia, mas há algo que eu gostaria de dizer: você não é um dos anjos da Paixão e sempre se questionou por que seu coração tem tanta capacidade de amar e sofrer. É uma verdade simples que nada existe sem uma função. E esse seu dom será necessário hoje e em vários outros momentos de sua vida. Peço apenas que olhe e escute o que carrega agora em sua mão. Observe-os com seu coração, não com as palavras de Lúcifer e nem com as minhas, decida o que deve fazer e a Eternidade seguirá o curso que for possível.

— Como sabe que vou tomar a decisão correta? — indagou ela.

— Esperança, é o que dá significado a tudo. O Criador tem Esperança por você, bem como a Eternidade... E eu, não menos que eles. Agora devo partir e deixá-la sozinha com seu coração e consciência.

— Você fala tanto em esperança. Posso esperar que você volte para mim?

— Você tem livre-arbítrio, porém lembre-se que a esperança pode se concretizar de forma diferente do que desejamos...

— O que?...

— Eu sinto... Vislumbres de seu futuro... Você encontrará e amará outro... Porém, não posso garantir que será feliz com ele...

— Sei. "Nunca há garantias, só expectativa". Você é vago demais. — disse ela, com uma partícula de irritação.

— Cada um de nós é limitado por si mesmo — Zashiel ficou em silêncio e seus olhos encontraram os dela e, por um instante, foi como se o tempo pudesse retroceder e Marind se imaginou novamente beijando-o, mais uma vez nos braços dele, numa época em que tudo era melhor e parecia perfeito e eterno. Porém, foi apenas um instante da Eternidade. Um momento que logo passou. — Adeus, Marind.

— Adeus, Zashiel.

E ele voou para longe dali e, no peito, Marind sentiu um doloroso vazio, como se seu coração partisse junto com Zashiel. Ela jamais soube, mas havia lágrimas nos olhos dele. Quanto a Marind, sentia-se triste demais para chorar, por isso guardou suas próprias lágrimas em algum lugar de seu espírito.

Sozinha, ela olhou para seu punho fechado e tentou ver e escutar as criaturas que repousavam ali. Não apenas os horrores delas, mas sim os sonhos e possibilidades. Primeiro, ela pensou nas palavras de Lúcifer e as ignorou. Depois, lembrou do que dissera Zashiel e ignorou isso também. E buscou seu próprio coração e uma resposta que deveria estar lá dentro.

Então, ela sorriu e alçou vôo por sobre o abismo em direção ao novo mundo que seu Mestre criara. Por todo o caminho, ela não abriu sua mão direita e nem deixou cair as criaturas que estavam alojadas lá, porque de algum modo havia compreendido uma verdade que não saberia enunciar e porque uma parte sua começava a amar aqueles seres.

E Marind libertou sobre aquele planeta, o mesmo que, em época futura, seria chamado de Terra, as almas dos primeiros seres humanos. E a Eternidade seguiu o curso que deveria e, no Paraíso e em todos os lugares, o Criador sorriu.

 

FIM

(Dedicado a Luiz A. Hasse)

 

Nota da autora: a personagem Marind surgiu no conto "Lord Dri", história que escrevi utilizando o personagem Lord Dri, criado por Adriano Siqueira (http://www.adrianosiqueira.cjb.net/)

Comentários  

0 #1 Johnny31 27-10-2005 21:44
Perfeito... parabéns... De muito bom gosto a complexidade do diálogo entre Marind e Zashiel... Parabéns mais uma vez...
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0 #2 AngélicaVisitante 29-10-2005 03:43
Esse site eh muito bom...
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0 #3 Sobre comentário de Johnny31Visitante 30-10-2005 03:04
Obrigada, Johnny! :-)

Fico muito contente que tenha gostado.Há alguns outros contos meus aqui no site e, uma vez que o Guardião é muito bacana, estou sempre postando novos trabalhos aqui.
Obrigada.

Rita.
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0 #4 TelonioVisitante 03-03-2006 10:54
só não entendi porque ele não parava de dormir. Era uma projeçao astral?
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0 #5 Betânia castroVisitante 11-05-2006 18:20
amei e muito interessante essa historia e prende nossa atenção mesmo....,vocês arrasaram.parabens....
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0 #6 Mensageiro Obscuro 11-06-2006 15:29
Saudações obscuras!

Parabéns, belo texto! Espero que tenha seus textos publicados em mais sites na internet para divulgar seus talentos.

O Adriano Siqueira é umpesquisador competente a respeito do vampirismo, além disso escreve boas histórias.

Abraços obscuros.
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Contos Estronhos - Contos e Crônicas

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