Ela surgiu do nada, usava aquela fantasia negra, sem definição, máscara no rosto deixando apenas os olhos a mostra, tão misteriosa, tão verdadeira envolta em névoa, brumas.
Os cabelos ligeiramente enrolados, a altura do ombro, balançavam suavemente enquanto andava, vinha em minha direção, o baile a minha volta virara pó diante de tal acontecimento, a música não mais tocava, as risadas eram distantes, meus olhos estavam presos, desejo e curiosidade, tanto mistério num único andar... Névoa, bruma, mistério... Névoa, meus sentidos entorpecidos pela imagem, a máscara, tão verdadeiramente falsa.
Acordei naquela noite sem fôlego, que sonho! O carnaval estava para chegar, não sou muito fã da festa, mas às vezes gosto de observar as múltiplas personalidades que surgem na época, sem contar esse calor escaldante, ah, calor, entorpece e irrita! Costumo caminhar em meio ao desfile de rua, e ficar até tarde da noite observando, vejo o nascer do sol na quarta-feira de cinzas, aqueles restos de fantasias espalhados, as máscaras deixadas para trás, muito inspirador para quem vive da escrita. Não me relaciono, sou complexo o bastante para tal coisa, a única mulher que me entendeu morreu em um acidente caseiro, eu desde então sou frio a tudo, insensível, também, os traumas raramente somem. Não superei o fato, sinceramente, nem quero superar, para que? Ela se foi, assim foi a minha vida.
Conhecemo-nos justamente em um baile de carnaval, eu em minhas observações e ela nas dela, tão comum! Começamos a conversar sobre a noite, sobre as fantasias, sobre tudo e mais um pouco, éramos tão iguais, o modo do nosso olhar, o modo de andar, de sonhar. Apaixonei-me, um amor forte, infelizmente, sou um porre quando me apaixono, mas ela também era, fôramos feitos um para o outro, as partes separadas na criação. Ela viera sentar ao meu lado no banco da praça, perguntara-me por que estava tão hipnotizado pelo desfile e não estava no meio da multidão, respondi apenas que queria saber, entender por que, ela então perguntou por que de que. Eu respondi apenas por que, ela riu, aquela risada doce, por que de que, por que simplesmente. Concordou com a cabeça e sentou-se ao meu lado compartilhando comigo o por que de que.
E justamente dois anos depois ela morreu, dói-me lembrar disso, mas é necessário. Andávamos muito durante a noite trocando opiniões sobre o céu, era até então amizade, não compartilhávamos aquela paixão fulminante, sentimentalmente éramos amantes, porém fisicamente nunca havíamos trocado um beijo, não sei se entenderão, era um amor sim, mútuo, mas não queríamos estragar com o gosto físico da paixão, queríamos deixá-lo apenas nos olhares, nas palavras trocadas timidamente durante o nascer do sol, nos toques rápidos de mão ao crepúsculo era esse nosso amor, no plano do sentimento apenas, tão puramente doce, ardente de desejo, aquele desejo de espera, o mistério! Sim o mistério, amávamos o mistério, como seria o beijo, o toque? Expectativa. Era isso que não nos deixava sentir o físico, ficar apenas no sentimento tímido.
Foi-se com um acidente doméstico, como disse antes, o macarrão cozinhava na panela, tudo parecia normal, esperava-me para o jantar e depois sairíamos para ver a noite e ficaríamos andando até o nascer do sol. Houve um vazamento de gás, ela estava sentada na mesa, não percebeu o cheiro, gripe, foi acender a vela para nosso jantar e houve a combustão. Quando cheguei e vi os bombeiros, a polícia e tudo mais, entendi, chorei três dias e três noites seguidas, meu coração morrera queimado como ela. Na escrivaninha ainda tenho seu retrato belo, doce, sereno, os olhos tão sedutores, tão simples, tão celestiais. Não fui ao seu enterro, deixei para quem a amou sentimentalmente e fisicamente, o enterro é a morte física, para mim ela não morrera totalmente, sua lembrança estava lá, em cada canto da minha vida, mas deixo rosas em sua lápide todos os dias, a alma sente as rosas, é minha oferenda física para uma paixão de corpo que nunca tivemos, talvez não compreendam, dirão que estou me contradizendo, talvez não.
Uma noite, andando sozinho sem rumo algum acabei indo para no cemitério, por ironia do destino era a última noite de carnaval, não estava com saco para ficar absorto nas minhas observações infundadas, para que? Já se passara mais de um ano desde a morte dela e ainda não me acostumara com a sua ausência, talvez porque ainda sentia sua alma perto de mim. Eu quisera assim, acreditar que sua alma ainda estava ao meu lado, como sempre estivera desde nossa primeira troca de olhares, parei no portão, fechado, o mundo dos mortos e dos vivos separados por um simples portão enferrujado. Será? Pularia ou não? Por que não? Rapidamente, nem sei como, passei para o outro lado, ofegante com o esforço não muito comum, corri até a lápide dela, as rosas deixadas naquela manhã estavam murchas, maldito calor! Sentei-me, melhor, deitei-me sobre a pedra fria, não estava desrespeitando ninguém, queria apenas a paixão física que nunca tivera, por que ela se fora sem antes me deixar um beijo?
As conversas, as risadas, tudo coberto por uma misteriosa névoa, um outro mundo, sim, eu ultrapassara a barreia, logo seria quarta-feira de cinzas, logo... Fechei os olhos, imaginei uma vez mais uma cena de paixão ardente entre nossos corpos, as risadas tão distantes, senti como se fosse real, o suspiro, tão próximo. Dormi sonhando, acordei bem quando o sol começava a despontar no horizonte, precisava sair dali, ou talvez as coisas se complicariam para meu lado, corri, agora feliz, para o portão, pulei e fui para casa, aquele dia mudaria tudo, praticamente tudo. Não estava mais melancólico, ou era uma mera alma vagando pelas ruas na escuridão da noite, voltava, de um certo modo, a ser eu, claro, sentia muito a falta dela, ainda deixava-lhe rosas, ainda sentia sua alma ao meu lado, mas agora pelo menos colocava um sorriso em meus lábios secos, sonhava com nossos corpos enlaçando-se, tudo isso: uma máscara no meu sentimento, uma névoa na minha dor.
Conseguia entregar-me novamente às minhas observações sem fundamento, agora sentia sua presença física perto de mim, falando-me coisas, mostrando-me sua opinião, digam que enlouqueci, ficaria grato de ouvir, sim, estava louco, sim, sou louco! E isso tudo era tão confortante, tão docemente a cara dela, o mistério, a névoa, o sentimento apenas, os toques de mão relâmpagos, eu sentia tudo novamente. Tudo! Nas noites de carnaval ficava naquele mesmo banco olhando, observando imaginando seu corpo vindo em minha direção, completamente envolto pela fantasia da verdade, sem mistérios, ela agora era minha, apenas eu a entendera, ela era parte de mim, a parte do todo, o próprio todo. Comprei seu apartamento e, após a reforma, mudei-me para lá, como cada canto tinha seu perfume de rosas, aquelas mesmas deixadas em sua lápide.
Devaneios. Passaram-se cinco anos então, todo aniversário de morte eu deixava uma coroa de flores sem sua morada atual, o coveiro já me conhecia, conversávamos horas todas as manhãs e nos dias da coroa ele sempre se mostrava solidário com minha dor, esses eram os dias em que toda névoa se dissipava para voltar com o nascer do sol seguinte. Meu luto, à minha maneira. E após cinco anos aconteceu. Naquele banco da praça, quarta-feira de cinzas nascendo docemente, tranqüilamente, o sol tímido no horizonte.
Uma figura feminina surgia no horizonte, envolta em névoa, as lantejoulas de sua fantasia indefinida brilhavam, a máscara cobria-lhe todo o rosto. Seria uma moça perdida no fim da festa? Andava normalmente, não estava bêbada, os olhos brilhavam no cenário cor de sangue púrpura, passos leves, decidi concentrar minha atenção nela, o corpo suavemente se movendo em minha direção, ao longe esquecidas conversas, o mundo virara névoa com ela, e ela era todo o mundo. Os cabelos curtos e ligeiramente ondulados balançavam com seu corpo, chegava cada vez mais perto de mim, cantava? Não sei dizer, queria senti-la, estranho, nunca mais quisera sentir alguém, ela eu queria, física e sentimentalmente, completamente. Sua mão, fria, chegou perto de mim, era a hora, sua máscara caiu, não acreditei no que vi. Os lábios tocaram meus olhos, que sonho! Respirei fundo, não acreditava, como poderia? Entreguei-me.
Acordei naquele banco, o mundo era só névoa, qual seria o caminho de volta? Distante sua voz ecoava, tentei achá-la, onde? Não sabia... Seu cheiro róseo, sua voz cristalina, o sentimento, o físico, tudo se misturava e o mundo era névoa, bruma. Caminho ainda. Encontrarei a saída? Não estou crente, mas a crença ajuda? Tudo é névoa, no horizonte só o seu chamado. Linda, leve-me.
Comentários
Camila escreve muito bem..vc sabe ;-)
Você tem muito talento,continu e escrevendo sempre ;-)
Mas seus textos tratam sempre de assunto envolventes, que passam pela cabeça de todos e vc sabe como mostra - los.
Parabens :D
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