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Noite de quinta-feira chuvosa. Quarto no segundo andar daquela casa antiga. Júlia dormia um sono inquieto, enquanto uma voz falava para seu coração:

"Você e os outros me chamavam de Miguel. Quando estava vivo, amei você. Ainda amo, mas depois de hoje nunca mais te verei, porque me tornei perigoso demais e é melhor que eu me exile até este mundo acabar.

Como sabe, a herança de meus pais me permitiu uma vida farta e eu era fascinado pelo sobrenatural. Gastei uma fortuna para descobri tudo que podia sobre esse assunto.

Quando te encontrei, você se tornou minha âncora com o mundo real. Naquela época, me sentiria ridículo dizendo, mas hoje percebo que ‘nenhuma mulher jamais foi amada, como amo você'.

Podíamos ter casado e tido uma vida normal. Porém, não te escutei. Parti aquele dia, jurando que seria uma viagem rápida. Não era minha intenção, mas desapareci. Como você deve ter sofrido!

Vaguei por terras distantes. Eu havia subornado pessoas poderosas em troca da informação que me levaram ao refúgio no Tibet dos últimos remanescentes dos humanos escravos da Atlântida (do tempo em que esta, a Lemúria e Thurseldunium governavam o mundo). Aquelas pessoas guardavam a cripta da divindade deles. Um lorde atlante. Um vampiro. Disseram-me que eu estava destinado a despertá-lo. Algo em mim hesitou, mas mergulhei nos pergaminhos que me mostraram, até que executei aquele terrível ritual. Dez escravos cortando as gargantas uns dos outros, enquanto eu pronunciava encantamentos que fizeram minha alma gritar...

Quando a criatura se ergueu, implorei que algum Deus pudesse me perdoar pelo que eu havia libertado sobre o mundo. Em gratidão, o monstro me transformou em vampiro também.

No tempo que se seguiu, o lorde atlante (o verdadeiro nome dele é impronunciável para alguém que já tenha sido humano) esperou enquanto recuperava as forças e me contava os horrores que planejara para o mundo.

Eu retivera as memórias de minha humanidade. Escondi meus pensamentos como pude, mas ele descobriu sobre você e gargalhou de forma perversa.

Então, me arrastou de volta até aqui e tentou me obrigar a te matar. Eu resisti. Furioso, jurou que te assassinaria diante de meus olhos. O amor não pode ser como nos filmes, mas esta noite lutei por você e, contrariando o impossível, eu o detive e o matei. Desta vez, ninguém poderá despertá-lo.

Júlia, agora tenho que partir. Continue sua vida — minha dádiva para você — e seja feliz. Quanto a mim, neste coração vampírico guardarei eternamente as luminosas memórias dos momentos que passei a teu lado. Adeus."

Júlia sentiu algo frio e morto beijar seus lábios e pulou da cama num sobressalto. No chão do quarto, viu um esqueleto em cujo crânio havia caninos salientes.

A janela estava escancarada. A jovem correu até lá. A chuva havia parado. Em seu coração, Júlia ainda pôde escutar o lamento abissal e distante de um morcego...

 

FIM

Comentários  

0 #1 Filha da NoiteVisitante 11-08-2005 08:42
muito bom
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0 #2 Sobre comentário de Filha da NoiteRita 14-08-2005 11:27
Obrigada!
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0 #3 raiguiteousbrod ers.jack bacon 22-08-2005 12:48
Muito bom, Rita.Lupinesco. 8)
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0 #4 Sobre comentário de raiguiteousbrod ers.Rita 25-08-2005 02:09
Muito obrigada!
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0 #5 isabellaVisitante 16-03-2006 16:05
foi bom cara , d++++++++++ :P :-) :D
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0 #6 Rita 29-08-2006 23:03
Isabella,
Obrigada.
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