![]() | "Eu vi os pedaços do seu corpo jogados por todo lado, as entranhas e até mesmo sua cabeça, que foi cuidadosamente colocada no chão por seu treinador, depois que este a recebeu como um sádico presente de um rival." |
(Baseado nos personagens e conceitos do conto "Gladius", de Rita Maria Felix da Silva. Se você ainda não leu, clique aqui).
Parte I - Há tantas coisas a serem esclarecidas...
No meio de tanto sangue derramado naquela lona, não restava mais nada a fazer. Vi meu melhor amigo ser completamente aniquilado como se fosse um inofensivo coelho diante de um lince faminto. Eu vi os pedaços do seu corpo jogados por todo lado, as entranhas e até mesmo sua cabeça, que foi cuidadosamente colocada no chão por seu treinador, depois que este a recebeu como um sádico presente de um rival. Seus olhos ainda meio abertos me fizeram imaginar que seu espírito ainda poderia estar ali, tentando entender o que havia acontecido.
Talvez por medo de profanar sua alma, não quis tocar em nada. Preferi conversar com ele como conversávamos sempre. Agachei-me perto de sua cabeça e perguntei se ele ainda estava ali. Para todos os outros na Arena, havia sido só mais uma luta de lobisomens. Para mim fora mais. Eu acabara de perder o que tinha de mais importante na vida.
Decidi não chorar, como sei que Bernardo iria querer. Meu amigo sonhava com um mundo melhor para nossa espécie, onde todos os lupinos poderiam ser felizes. Um lugar sem humanos.
- Acho que vou sentir muito a sua falta, amigão. Nossas conversas durante a noite no bar, nossas gargalhadas ao fazer piadas com aqueles morcegos super-desenvolvidos... Ah, meu amigo. O que eu posso fazer por você? Diga-me. Nunca fui um bom lutador como você. Não conseguiria nem em cem anos, vingar sua morte lutando com aquele sujeito.
Depois de fazer uma pequena pausa, me toquei que estava falando com um monte de carne jogado ao chão. Se Bernardo estivesse mesmo ali, em espírito, bastava que eu olhasse ao redor. Era ali que ele gostava de ficar desde que viemos do Chile. Estava sempre treinando, sempre conversando com os outros lutadores. Ele amava o que fazia.
Saí da Arena inconformado. Deixei o carro na porta e fui andando para casa. Poucos passos a diante, um sanguinário flertava com aquela que seria mais tarde sua vítima. Ele me olhou e acenou com a cabeça. Deveria me conhecer da Arena, mas seu rosto não me pareceu familiar naquele momento. Retribuí o sinal apenas por educação, ou talvez apenas para evitar qualquer tipo de problema.
A Lua cheia iluminava até mesmo as ruas escuras próximas ao local. Os sanguinários quebravam as lâmpadas para pegarem suas vítimas de surpresa e na maioria das noites não se via praticamente nada. Meu corpo estava todo arrepiado e eu quase não conseguia me controlar. Nessas ocasiões em que o nervosismo ou uma dor emocional tomava conta de minha mente, era difícil manter a transformação sob controle. Não que eu quisesse manter meu anonimato, pois há muito ele já não existia. Muitas criaturas noturnas já sabiam o que eu era, mas essa noite eu gostaria de pensar em tudo que aconteceu e não seria uma boa idéia sair por aí atacando humanos estúpidos.
Parei em frente ao hotel, mas preferi não subir. Fui até o bar onde ficávamos depois dos treinos. Não quis me sentar na mesma mesinha velha de sempre. Fiquei na mesa ao lado e olhava para nosso lugar preferido, como se quisesse ver a noite anterior, quando estávamos ali brincando com lindas vampirinhas, provocando-as só por farra. Sabíamos que não seria possível fazer nada com elas. Não seria prudente e nem mesmo sentíamos vontade. Era só diversão. E pra elas também. Lembrei do sorriso no rosto dele quando uma delas disse-lhe que trocaria cinqüenta anos de sua vida por uma noite em que pudesse deixar de ser uma sanguinária, apenas para poder ficar com ele.
Nessa hora, Rick interrompeu minhas lembranças sentando ao meu lado. Com um copo nas mãos, pegou um pouco de vodka da garrafa que estava sobre minha mesa.
- Sabe... Eu nunca vi uma luta tão violenta. Cara, isso foi muito estranho. Não era apenas uma luta. Eu vi ódio nos olhos daquele sujeito. Como se fosse uma vingança... Como se ele realmente quisesse apenas destruir, destruir, destruir... Não entendo por quê. Você tem idéia? Vê algum motivo?
Até então eu não havia percebido esses detalhes. Depois de ouvir aquilo, tentei buscar em minha mente algum motivo, alguma briga na qual ele poderia ter se envolvido, alguma mulher... Sim, poderia ser. Mas... Não... Com certeza ele me contaria. Desde que viemos pra cá, estávamos juntos praticamente todos os dias.
Ele inventou que eu era seu empresário no Chile só para me trazer. Éramos amigos de infância e eu era apaixonado por ele. Claro que ele nunca ficou sabendo disso. Tinha medo que não entendesse e se afastasse. Era melhor tê-lo por perto como amigo, do que longe de mim. Quando Lamartine chegou a nosso país para buscá-lo, achei que iria perdê-lo, mas ele foi logo dizendo que só viria se seu empresário viesse junto. Ah, se Lamartine soubesse que eu sempre fui contra essas lutas e que nunca sequer o empresariei.
- Rick, você viu Bernardo com alguém estranho nos últimos dias?
- Estranho como, Alonzo?
- Ora Rick! Estranho! Que não fosse nosso conhecido. Alguma mulher, por exemplo.
- Não. Nas poucas vezes que me encontrei com ele fora da Arena, ele estava ou com você ou com Lamartine. Mas...
- Mas?
- Não sei se isso tem alguma importância, mas eu vi aquele cara... O treinador do tal Caio, observando Bernardo por muito tempo.
- Mas todos os treinadores observavam Bernardo. Ele lutava muito bem. Nem sei como aquilo foi acontecer daquela maneira. Ele perdeu muito fácil.
- Não, mas ele não estava na Arena. Esse cara estava aqui ontem. Sabe, quando vocês estavam conversando com as vampiras naquela mesa ali. Ele ficou o tempo todo no balcão olhando pra vocês. Não tirava os olhos.
- Poderia ser apenas ansiedade pela luta... Ou não.
Não dei muita importância para esse detalhe naquela noite. Saí do bar já meio "alto" e fui para o hotel. Acordei tarde e com fome. Desci para ver se achava algum lugar decente para comer e, claro, naquele bairro medonho seria impossível. Resolvi ir até o centro.
Depois de comer quatro suculentos e mal passados bifes de picanha, saí do restaurante e fui andar um pouco para me despedir da cidade. Afinal, por que ficaria ali sem o Bernardo? Voltaria para o Chile no dia seguinte. Mas meu objetivo mudaria logo em seguida, ou pelo menos seria adiado.
Poucos passos depois do restaurante, avistei Caio, o sujeito que acabou com Bernardo. Estava abraçado a uma mulher linda, jovem e aparentemente feliz. Fiquei parado. Não sabia o que fazer ou se deveria fazer alguma coisa. Ele estava se despedindo da garota e eu fiquei apenas olhando. Quando ele deu um último beijo, virou-se e veio em minha direção. Deu uma última olhada para trás e sorriu para ela. Continuou andando e me viu. E pior... Me reconheceu.
- O que está olhando cara? — questionou ele.
Permaneci em silêncio, mas olhando bem dentro dos seus olhos, sem piscar um minuto sequer. Tive que me controlar para não partir pra cima dele, o que na verdade seria suicídio, mesmo estando ele em forma humana.
- Diga. O que está olhando? Você também estava de olho na minha garota? Hein? Por falar nisso, o que está fazendo aqui? — grunhiu Caio.
Continuei em silêncio, apenas pensando por que ele teria dito: "Você também estava de olho na minha garota?". Teria sido esse o motivo daquele ódio na luta? Bernardo teria mesmo se envolvido com a namorada de Caio? Mas quando, se estávamos quase sempre juntos?
— Olha aqui cara. Volte para o buraco de onde você veio. Acabei com seu amiguinho e você seria ainda mais fácil. Seu amigo só morreu porque se meteu onde não devia. Está me entendendo? — ameaçou ele.
Ficamos em silêncio por um tempo, olhando os olhos um do outro. Então ele trombou propositadamente em meu ombro enquanto continuava seu caminho. Apenas olhei de soslaio para me certificar que ele não me daria um golpe traiçoeiro. Olhei em direção ao prédio de onde os dois haviam saído e a garota ainda estava lá, olhando meio desconfiada para mim. Quando comecei a andar em sua direção, ela entrou no prédio. Resolvi deixar pra lá.
Mas, depois de andar cerca de duas quadras sem rumo e sem ao menos prestar a atenção para onde estava indo, resolvi voltar pelo mesmo caminho. Alguma coisa me dizia para passar novamente em frente ao prédio daquela garota. E ao passar, olhei para a portaria e lá estava ela, sentada no hall do prédio, lendo uma revista. Por que ela estaria ali? Se morava no prédio, por que ainda não havia subido? Minha resposta veio logo em seguida.
Um táxi parou do outro lado da rua e buzinou. O porteiro do prédio chamou a garota e ela ergueu a cabeça. Me virei e andei alguns metros, entrando em um bar.
Ela atravessou a rua e abriu a porta do carro. Quando o motorista manobrou para retornar, eles passaram exatamente onde eu estava e pude ver no banco de trás o homem que havia entregado a cabeça de Bernardo nas mãos de Lamartine. Diomedes, o treinador de Caio.
Foi naquela hora que decidi que o retorno para casa podia esperar.
(... continua)
Comentários
Li Gládio como uma divertida experiência de lobisomens e vampiros bem-ambientados ao século 21 e agora leio esta continuação como uma história de intriga, muito diferente da anterior e ainda assim muito familiar.
Antes acompanhávamos os fatos do ponto de vista de um vampiro sacana. Agora usaremos os olhos de um lobisomem sentimental.
Cool!
Nossa! Desse jeito vou acabar acreditando que sou essa escritora toda que você diz! Brincadeirinha, amiga, muito obrigada. Fico muito contente que esteja gostando de "Naquela Lona".
Rita.
Gostei de Gladius, do treinador fdp, mas curti ainda mais essa segunda parte, que inspira uma vingança passional. Yes!
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