Não sei se vou conseguir contar minuciosamente como foi que a conheci. Não sei se tenho comigo as palavras certas para descrever sua beleza. Talvez o torpor causado por sua repentina aparição possa ter ofuscado alguns detalhes. Diálogos não muito importantes podem ter sido perdidos e imagens menos marcantes do que aquele olhar podem ter sido ocultadas.
Era uma tarde fria de um domingo de maio. As ruas sem o caos do dia a dia, o vento soprando folhas e papéis picados no chão e o céu completamente nublado, pintavam diante dos meus olhos um cenário cinza, que aos olhos da maioria poderiam parecer a representação da própria tristeza. Mas para mim, aquela cidade cinza trazia a paz que há muito tempo não me visitava. O meu momento de ficar só.
O carro estava no estacionamento do shopping. Eu havia acabado de sair do cinema. O filme? Não importa. Na verdade não prestei a atenção em nada. Nenhuma cena sequer me chamou a atenção. Ou melhor, uma cena apenas me tirou dos meus pensamentos naquela tarde no cinema. Uma cena em que uma mulher, que julgo ter sido a protagonista, fica de pé no alto de uma cachoeira, abre os braços, fecha os olhos e sente o vento em seu rosto. Ela sorri e depois se abraça. Depois disso não vi mais nada. Voltei para meus pensamentos, agora com a vontade de estar também em um local como aquele. E foi por isso que sai do cinema no meio do filme.
Com a chave na mão, pronto para abrir a porta, me detive. Estava ali parado diante do carro quando tive vontade de sair andando, sem rumo certo. Vi meu reflexo na janela e parei por um instante. Vi a figura de um homem que definitivamente não era eu. Era muito mais velho, mas se parecia comigo e apesar da idade desenhada nos traços de seu rosto, radiava jovialidade. Ele sorria. Um sorriso discreto, mas sincero. Mas algo me fez desviar o olhar para o lado. Era uma placa de propaganda que havia caído perto de mim. O vento a derrubou. Quando olhei novamente para a janela não vi mais aquele homem. O que via era apenas o meu reflexo e mais nada. Instintivamente passei as mãos no meu rosto, como se estivesse querendo confirmar que estava mesmo acordado. Ri de mim mesmo. Novamente fui abrir a porta do carro e novamente me veio a vontade de sair andando. E foi o que fiz.
Comecei a atravessar o estacionamento em direção à saída. Caminhava ora olhando para o céu nublado, ora para meus próprios pés. A vontade era de andar sobre as nuvens e esquecer tudo por aqui. Esquecer daquelas pessoas que cruzaram meu caminho. Esquecer as traições, os falsos amigos e as desilusões travestidas de paixões arrebatadoras. Esquecer os amores perdidos. Perdidos para mim mesmo. Perdidos por não ter tido às vezes coragem, às vezes tato, às vezes alma. Amores que poderiam ter sido eternos, se não tivessem sido tão breves. Que poderiam ter se fortalecido, mas que se renderam a fácil desistência ou talvez a total falta de sensibilidade. Ora minha, ora de quem eu amei... Se é que amei.
Mas o destino resolveu aparecer. Quando cheguei perto da saída, escutei o motor de um carro atrás de mim. Subi na calçada sem olhar para trás, esperando que o veículo passasse, mas ele não passou. Como ainda ouvia o barulho do motor, curioso me virei. Era um utilitário, desses modernos e luxuosos. E dentro dele lá estava ela, olhando diretamente nos meus olhos. Como disse no começo, não tenho em minha mente as palavras certas para descrever tamanha beleza. E foi assim também no exato momento em que seu rosto tomou minha atenção. Só fui capaz de dizer baixinho: Linda. É linda!
Nunca fui de puxar conversa com ninguém assim, dessa forma. Mas algo mais forte que eu, fez com que eu me movesse até a porta do carro. Ela sorriu e... Meu Deus! Nunca havia sentido tanta paz diante de uma pessoa sorrindo. Ela não disse nada além de um delicioso “oi”. Só tirou os olhos dos meus olhos, quando discretamente desviou o olhar para a porta do carro. Na mesma hora entendi o que ela queria. Abri a porta e entrei. Se eu queria andar sobre as nuvens, naquele momento eu estava começando a subir até elas.
Pensei nos amores de ontem. Nas paixões distorcidas e em tudo que havia se passado comigo. Mas de que importava aquilo naquele momento? Ali estava eu, disposto a me entregar novamente a uma aventura ou talvez a uma nova paixão. Por que não?
Andamos por um bom tempo e saímos da cidade. Já na estrada, ela pegou um caminho de terra até chegar a uma enorme fazenda. Conversamos pouco dentro do carro, mas o suficiente para ficar encantado por sua voz. Os assuntos? Não me lembro. Só me lembro da música que escutava ao ouvir a sua voz.
Descemos do carro e eu não acreditava no que estava vendo. Não era exatamente igual a do filme, mas era uma linda e enorme cachoeira.
E eu comecei a entender. Ela deveria estar dentro do cinema também. Deve ter percebido que eu não estava prestando a mínima atenção ao filme, exceto quando surgiu aquela cena em particular. Olhei pra ela e confirmando minha suspeita, ela sorriu. E como se tivesse escutado meu pensamento, disse:
- Sim, eu estava lá. Era isso que você queria não era?
Olhei para o alto da cachoeira e apenas balancei a cabeça confirmando. Por alguns segundos fiquei detido pela beleza daquelas pedras. Eu não estava no alto como imaginei, mas sentia o vento no meu rosto. Abri meus braços, fechei os olhos e depois me abracei. Foi quando ouvi o barulho de algo caindo na água.
Era ela. No chão ao meu lado, suas roupas. Ela nadou até o ponto onde a queda d’água encontrava as pedras e voltou, chegando novamente na parte rasa. Ergueu-se e saiu.
E ela veio... Nua e linda. A água escorrendo por todo o corpo. Aquele corpo incrível. Os cabelos longos molhados, o olhar fixo e aquele sorriso incrivelmente anestesiante. E ela veio... Nua chegou até mim. E Nua me beijou.
E agora estou aqui caminhando sobre as nuvens, como tanto desejei. E quando me é permitido ver meu reflexo, o vejo em minha própria alma. Vejo aquele jovem que um dia reclamava de suas paixões e suas desilusões. Vejo aquele homem que amava o cinza, porque a vida lhe sorria cinza. Mas ai volto a me ver. Tal qual eu me vi na janela do carro. Definitivamente, aquele homem sou eu.
Os médicos disseram que eu morri de um ataque do coração. Pobres coitados! Se acham senhores de suas ciências, mas não entendem, não conhecem, não conseguem sentir. Meu coração não sofreu nenhum ataque. Meu coração foi acariciado por aquelas leves e delicadas mãos.
Ah, esses doutores da terra! Não sabem como é doce morrer ao encontrar nossa própria sorte. Não sabem como é delicioso beijar a nossa própria morte.
Comentários
Parabéns uma vez mais!
Abraços sortudos,
Richard Diegues
www.circulodecronicas.com
www.necrozine.blogspot.com
vc esta de parabens
muito bom...
me vi em alguns trechos .... parece q e a minha istoria , mas a sua chegou ao fim a minha ainda naum .... :D
Você está melhorando cada vez mais.
Rita. :-)
digna de aplausos!! :D
GRANDE!
Gosto das palavras tristes de alguém e adoro quando em breve momentos ficam felizes... Acho que a maneira que o autor a própria morte também foi muito interessante, acho que todos gostariam de morrer assim, num lugar deliciosamente bom com as pessoas que gostamos. Acho que seria muito bom morrer assim... de forma suave, gostaria de desejas isso.
Parabéns ao autor, que escrava mais para a nossa alegria!!!
Não há palavras que possam descrever melhor que essas a presença de uma doce Valquíria, que surge do nada e para ele nos leva.
Sou suspeita pra falar mais alguma coisa, então acho melhor encerrar por aqui.
Que nos próximos anos possa nos brindar com mais e mais belíssimos contos, menino ;)
O texto prende o leitor a cada palavra escrita e nos faz com que você não pare de escrever.
Parabéns!
Escreve de forma simples, mas que cria um ritmo delicioso. Me envolvi com o personagem que se doou ao amor da mulher, que, de certa forma, poderia querer-lhe o mal, concorda?
Excelente!
Grande abraço!
@rafaschiabel
http://lembradaquelahistoria.blogspot.com/
A morte é uma dama de paradoxal beleza e a possibilidade talvez de encontrarmos com nós mesmos. Foi isso que senti ao ler o seu conto. Parabéns!
Achei a condução do texto muito boa, e algumas estruturas soaram bem poéticas. Fiquei pensando sobre qual foi o momento da morte exato. Quando ele vivenciou a epifania de encontrar a própria morte.
Uma coisa que eu achei engraçada foi a morte vir em um utilitário, rs
PArabéns! Só tenho elogios. ;-)
@Maryinbrazil
Muito bem escrito! O modo como ele fala sobre a morte, muito bom.
Thais Pampado
Por Trás da Estante
@thaispampado
Realmente Parabéns ! Gostei Muito !
@HPJulioCesar
@candygn
@Annecelle_E
Você escreve tão bem e o final foi tão lindo, com certeza mereceu ser publicado :-)
Bjus.
Você escreve muito bem!
Adorei o seu blog =)
Sucesso
Nos seus sonhos e desejos mais profundos, vendo a pessoa que gostaria de ter sido.
Aparentemente ele se foi sem arrependimentos , sem se prender a nada e perdoando o que fosse pra perdoar.
Fica uma boa lição pros ainda vivos.
@EricaMarts
Bye
@natalygoncalve s
@GreicySantos
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