
Foi numa tarde de outono que tudo aconteceu. Eu estava encostado na cerca de arame farpado que separava a igrejinha da estrada que passava logo a sua frente. Estava cansado, com sede, com sono e muito, muito confuso.
Havia me perdido na noite anterior naquela estrada. Meu carro quebrou e comecei a andar, depois de desistir de ficar parado na frente do carro esperando alguém passar. Como era uma estrada municipal e de pouco movimento durante o dia, era de se esperar que ninguém ou quase ninguém passasse por ela durante a madrugada. Era a ligação entre duas pequenas cidades e a essa hora, os moradores com certeza estavam dormindo.
Me lembro de ter visto, poucos passos depois do início de minha caminhada, uma placa que indicava que a cidade mais próxima encontrava-se a 35km de onde eu estava. Me recordo como se fosse agora, que eu me apoiei nessa placa e comecei a rir do meu azar. 35km, e eu de sapato, camisa social e calça de terno.
E como é estranho o silêncio em nossas vidas. Eu, tão acostumado ao barulho interminável da capital, agora estava ali ouvindo apenas o som dos meus passos no acostamento, o barulho do vento nas folhas das árvores, grilos, sapos e vez por outra um uivo ao longe, uma coruja que passava em vôo razante, talvez procurando por roedores para se alimentar e... Sussurros. Eu poderia jurar ter ouvido sussurros durante quase todo o tempo em que caminhei por aquela estrada. Confesso que não consegui identificar nenhuma palavra sequer. Era uma língua desconhecida para mim. Algo que soava forte nos finais das palavras e que atropelava vogais com o som de consoantes duplas, triplas talvez.
Eu olhava para os lados, para trás e até para o alto procurando... Procurando algo sem saber exatamente o que ou quem procurar. A luz da lua cheia ajudava e muito no caminho. Notei alguns poucos vaga-lumes na beira da estrada. Pareciam me acompanhar durante parte do trajeto. Mas também reparei que a quantidade diminuia à medida que eu avançava pela estrada. Em pouco tempo restavam apenas dois deles. E esses dois começaram a voar próximos a mim. Muito próximos. Tentei afastá-los com as mãos, mas era inútil. Eles sempre voltavam.
Cheguei até uma ponte estreita e pude ouvir o barulho do riacho que passava sob ela. Encostei na mureta para descansar um pouco. Apoiei meus braços enquanto levantava alternadamente meus pés, tentando aliviar o incômodo causado pelos sapatos. Olhei para o riacho e vi o reflexo da lua em seu leito. Pensei que um gole daquela água poderia ajudar a agüentar o restante de minha jornada. Olhei ao redor tentando encontrar um caminho onde eu pudesse descer até lá. Vi que na cabeceira da ponte, por onde eu já havia passado, havia uma espécie de escada natural, cavada no barranco. Era por ali que eu desceria, mas antes era preciso tirar os sapatos para não escorregar. E seria uma ótima idéia enfiar os pés naquela água refrescante. Assim que tirei um dos sapatos, aqueles malditos vaga-lumes voltaram a me atormentar. Rodearam minha cabeça e de repente pararam em frente ao meu rosto. Pareciam olhos brilhando no escuro. E os sussurros pareciam agora sair de dentro de mim. Eu ouvia como se estivessem dentro dos meus ouvidos. E foi ao tentar atingir aqueles insetos que eu me desequilibrei e cai.
A última coisa que me lembro é de sentir a água gelada no meu corpo e um forte impacto no meu peito. Devo ter caído sobre algum tronco de árvore ou uma pedra. Não... Pensando bem não deveria ser uma pedra. Não era assim tão rígido. Talvez nem mesmo um tronco de árvore. Era algo duro, mas não muito. Não sei dizer... Ou melhor... Acho que agora sei de que se tratava, mas ainda não é hora de te contar.
Naquela hora eu apaguei. Mas um tempo depois, vi muitas coisas. Vi cenas do meu passado, vi pessoas que eu havia conhecido, vi pessoas que eu nem sabia que existiam, vi cenas que pareciam ter sido tiradas de algum filme de guerra, vi pessoas mortas, muitas mulheres chorando, crianças a beira da morte, vi animais apodrecendo... Vi tudo isso, mas não conseguia abrir os olhos para ver onde eu estava.
Quando acordei estava novamente na estrada. Já era dia e eu estava sem um dos sapatos. Provavelmente o perdi no riacho. Minhas roupas estavam em parte secas, mas ainda sentia a umidade em minhas costas e pernas. Foi quando ouvi o ronco de um motor subindo o morro e aliás, foi quando percebi que estava no alto de um morro e bem longe de onde estava o riacho e a ponte, que inclusive era visível de onde eu me encontrava. Parecia apenas um ponto branco na estrada. O carro surgiu na curva e pude ver aquela Rural duas cores, azul e branca, pára-choques dianteiro meio caído e os vidros sujos de lama. Acenei com os dois braços, pedindo ajuda.
O carro parou um pouco antes de chegar até a mim. Um senhor com um chapéu de palha já gasto e com as pontas retorcidas me olhou de cima a baixo. Me aproximei e expliquei o que tinha acontecido. Falei sobre o carro estragado e ele disse que realmente havia passado por um carro na beira da estrada a alguns quilômetros. Me ofereceu carona até a cidade e eu aceitei. Terminamos de subir o morro ainda falando sobre o problema do carro.
Quando o assunto se esgotou, o senhor olhou para meus pés, riu e perguntou o que tinha acontecido com meu sapato. Bastou que eu contasse sobre a ponte, o riacho e os vaga-lumes que me fizeram cair e de repente me vi do lado de fora do carro. O velho senhor puxou a porta e arrancou a Rural, sumindo do meu campo de visão tão rapidamente, quanto ressurgia meu desespero de ter que andar a pé novamente. Ele não disse nada. Nenhuma palavra. Simplesmente parou o carro, mandou que eu descesse e segurando um terço na mão, fez o sinal da cruz.
Foi depois de mais de duas horas caminhando que avistei a igrejinha. Parei na cerca de arame farpado que a separava da estrada e percebi o quanto estava cansado, com fome, com sede, com sono e muito, muito confuso.
De onde estava eu via as pessoas entrando e saindo da igreja. Na hora imaginei que deveria ser dia de casamento ou alguma cerimônia especial, para que tantas pessoas pudessem estar ali ao mesmo tempo. Mas essa impressão logo passou depois de ver algumas pessoas extremamente mal vestidas. Algumas com verdadeiros trapos. Pensei então que poderia ser algum tipo de ajuda para pessoas carentes. Então nesse caso teria comida, uma sopa, algo que pudesse matar minha fome. E conversando com o padre eu poderia arrumar um lugar para dormir um pouco. Fui até lá.
Antes de entrar na igreja, aquelas pessoas começaram a me olhar de maneira estranha. Não poderia ser por causa de minha aparência. Tinha gente pior que eu ali, mas todos me olhavam. Entrei na igreja. Estava lotada. Muitas pessoas ajoelhadas rezando, outras com seus terços nas mãos, olhando para a imagem de Cristo e chorando copiosamente. Fui caminhando pelo corredor lateral, tentando não chamar mais atenção ainda. Vi pessoas feridas, com manchas na pele, com rostos deformados e algumas até mesmo sem partes do corpo. Quase tropecei em uma mulher que rezava agachada no corredor. Ela escondia seu rosto no meio das pernas e segurava uma carta nas mãos. Pude ler algo como "Para a minha fam" e deduzi que fosse "família".
Avistei o padre, de costas para todos que ali estavam. Ele estava no altar, com os braços erguidos, mas não falava nada. Esperei alguns segundos para ter certeza de que eu não estaria atrapalhando em nada. Ele se virou, me olhou, sorriu, pegou um terço e me ofereceu. Educadamente eu aceitei. Ele deu as costas novamente e foi andando em direção a sacristia. Eu iria seguí-lo, mas fui interrompido por uma criança que surgiu de trás de um caixão que estava bem na frente do altar, no meio das duas fileiras de bancos. Ele estendeu suas mãos e me entregou um pé de sapato. O meu sapato.
E quando toquei nele, deixei de escutar todas aquelas lamentações, aqueles choros e vozes rezando. Olhei para onde estavam todos e não havia mais ninguém. Apenas o caixão. O padre voltou da sacristia e parou em frente ao caixão. Olhou para mim, sorriu e me deu a mão. E quando me aproximei... O que vi dentro do caixão era inexplicável. Vi o meu carro, vi a estrada, a ponte, aqueles vaga-lumes... Vi um par de olhos vermelhos. Vi corpos amontoados naquele riacho e vi meu corpo caindo sobre eles.
Olhei para a porta da igreja e vi a silhueta de um homem baixinho, de chapéu de palha com as pontas retorcidas, fazendo o sinal da cruz e jogando um terço no chão. Ele se virou e saiu. Ouvi o barulho do motor e vi de relance aquela velha Rural levantando poeira em frente a igrejinha.
Olhei para o padre e vi aqueles olhos malditos. E ele sorria para mim.
Comentários
:-)
Mais um texto que prova que vc é mestre em causar arrepios e deixar os leitores com os nervos à flor da pele.
Mas sou forçada a concordar com a "loka_sem_nocao" que o final foi um tanto confuso. Em determinado ponto eu já previa que o protagonista havia morrido, mas a relação entre as pessoas carentes, doentes, mutiladas, o padre endemoninhado e a morte do rapaz não ficou clara.
Talvez tenha me faltado sutileza para compreender o que há nas entrelinhas...
Grande beijo
Guardião responde:
Ei Camila linda! Na verdade ele e todas as pessoas na igreja estavam mortas. Eram as pessoas sobre as quais ele caiu no riacho. Talvez eu não tenha conseguido passar a idéia corretamente. Já o padre... Adivinha quem era... rsrsrs
beijos
Guardião responde: Sim, é aquela foto.
falow continue assim!666!
Marcelo responde: É mais ou menos isso ai. :-)
Guardião responde: Sim, a foto foi tirada numa estrada perto de Rio Pomba
Continue assim. O caminho é esse mesmo! Parabéns.
Abraços incentivadores,
Richard Diegues
www.circulodecronicas.com
www.necrozine.blogspot.com
É meio redundante dizer que gostei. Seu estilo e narrativas estão muito bons. É uma história criativa, intrigante e que nos conduz a final bem inesperado. Você tem grande potencial. Parabéns, meu amigo.
Marcelo Amado comenta: Eu que agradeço. Notei que tem lido os outros contos também. ;-)
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