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Roendo as unhas, a pequenina se aproximou. Não notou, ou ignorou - impossível saber com certeza - que o esfarrapado e encardido ursinho escorregara de suas mãos.

- Mamã? - sussurrou estendendo a mãozinha rechonchuda em direção a da mãe que pendia do lado da cama, displicentemente caída para fora da coberta.
         Havia trazido o abajur de seu quarto e ligara na tomada do lado da porta do quarto da mãe. Não alcançava os interruptores de luz, mas sabia enfiar e retirar o fio da tomada, mesmo com a mãe sempre lhe dizendo ser perigoso.
         A luz no entanto era fraca e iluminava parcamente o quarto. Mal notava a silhueta do rosto do pai no outro lado da cama, atrás de sua mãe. Sabia que era ele pelo simples fato de já ter passado diversas noites entre os dois, aconchegada e aninhada com carinho enquanto as canções de ninar espantavam os fantasmas e monstros de seus sonhos.
         Resolveu que tentaria não acordá-los. Tateou de leve a cama e encontrou primeiro os pés da mãe, depois os do pai. Mediu o espaço entre os dois e escalou a cama, infiltrando-se entre eles.
         Sentia medo, mesmo sabendo que não brigariam com ela se acordassem, mas que receberia uma leve reprimenda. No dia anterior - ou em outro qualquer, uma vez que não conseguia se lembrar ao certo - seu pai disse que já estava "grandinha" o bastante pra não ter medo dos monstros.
         "Fique em sua caminha", falou quando lhe trouxe o abajur, prometendo que espantaria os monstros do armário e até mesmo o duende que se escondia embaixo de sua cama.
         Quando deslizou até alcançar a cabeceira e se enfiou entre as cobertas, viu a sombra do monstro saindo lentamente do canto escuro, parando ao lado da cama.
         - Vai "bora mostru"! - falou baixinho, cobrindo o rosto com as cobertas e aconchegando a cabeça no pescoço da mãe.
         Tremia e achava ruim a sensação gelada do pescoço da mãe. Estava molhada e isso empapava seu cabelo, mas era melhor do que olhar para fora da coberta. Sentiu uma mão sobre sua cabeça e tremeu de medo com o toque. Sabia que era a mão do monstro, não de sua mãe ou de seu pai.
         - Eu vou minha querida. Amanhã mando alguém remover os corpos e apanhar você - disse a voz suave, bem diferente da que a pequena imaginava que sairia da boca de um monstro. - Despeça-se de seus pais minha querida.
         Quando amanheceu, a menininha acordou. Não sabia exatamente em que momento havia adormecido. O cabelo estava duro e vermelho com o líquido que molhava o pescoço de sua mãe, mas que acabara secando. Tentou acordar os dois, mas não conseguiu. Dormiam muito profundamente.
         Uma senhora simpática apareceu na porta do quarto e desligou o abajur. Sorriu para ela e estendeu os braços tranquilamente, chamando-a pelo nome. Disse que lhe daria um bom banho e que a levaria para um lugar bonito.
         - E a "mamã" e o papai?
         - Levarei os dois também - disse erguendo-a da cama. - Irão para um outro lugar. Tão bonito quanto o seu. - Ela a pegou no colo. - Quer levar alguma coisa daqui? Pode escolher o que quiser. Quer aquele ursinho?
         A menina olhou para o ursinho no chão e balançou a cabeça negativamente, apontando a seguir o pequeno dedinho para o abajur.
         - O afasta "mostru". - Disse pensando no que o pai lhe garantira, pois mesmo em seus três anos de idade, pressentia que iria precisar dele em breve.
         Fim.           

 

Richard Diegues é escritor, autor do Livro "Magia - Tomo I", Editor do NecroZine, e colaborador dos sites Círculo de Crônicas (www.circulodecronicas.com) e NecroZine (http://necrozine.blogspot.com), além de moderador dos grupos literários Fábrica de Letras e Tinta Rubra pelo Yahoo!.

Comentários  

0 #1 mionehpotter 17-02-2005 05:38
muito bom seu texto, e realmente triste.
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0 #2 Richard é o caracamila fernandes 28-02-2005 12:40
Conheço os textos dele há tempos e posso dizer: Richard é o cara.

Pois leiam o cara, galera. Não vão se arrepender. Mas vão se arrepiar.
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0 #3 MagalyVisitante 08-08-2005 06:15
:roll: Wow muito legal!Escreve muito bem,tem uma imaginação bastante fértil!
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0 #4 Ritinha *--* 09-07-2008 15:17
Podemos dizer que realmente o homem tem o dom das palavras para dar a história uma forna inusitada e surpreendente...
Parabéns, adorei!
Momentos trágicos são os que nos faz pensar. ;-)
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