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Névoa. O ar gelado em minha face me fez acordar. Abri meus olhos, mas não vi nada além de um cinza escuro tomando conta de tudo ao meu redor. Movi os olhos e pude ver um tom mais claro acima de minha cabeça.

A névoa úmida e gelada que havia me acordado. Foi então que reparei que ela estava por toda parte. Voltando meus olhos para baixo, percebi que o cinza escuro ao meu redor parecia ser feito de pequenas pedrinhas e uma terra cheirando queimado. Sim, meu olfato começa a dar sinais novamente. Sinto o cheiro forte de queimado no chão.
Estou deitado... Ou talvez tenha caído. Não sei onde estou agora. Estou tentando me mover, mas meu corpo não responde. Não consigo mexer nem mesmo minha cabeça. Meus olhos não vêem nada além de alguns passos a frente. As pontas de meus dedos parecem estar voltando a se mexer muito lentamente. Sinto pedrinhas sob minhas mãos.
Acredito que minha mão direita esteja debaixo de meu corpo. Começo a sentir o peso sobre ela que ainda está um pouco adormecida. Minha mão esquerda está logo diante de mim. Posso vê-la. Estou insistindo em tentar mover meus dedos.

Espere... Escuto alguma coisa. Meu ouvido direito está colado ao chão. Sinto uma pequena vibração. Vejo pequenos grãos de terra trepidando perto de minha mão. O barulho está aumentando, ficando mais perto. Isso me é familiar... Parece... Parece o som de um galope... Não... São dois... Talvez três animais. Céus! Está ficando muito forte! Não consigo tirar minha cabeça do chão. O que é isso? São cavalos! Eu vi uma pat... AAAAAAAAAAHHHHHHHHH!!!!

Ai, que dor! Minha mão! Minha mão! Que dor horrível!

Só agora dei conta que não consigo falar. Eu gritei... Mas não ouvi minha voz! Apenas... Apenas me lembrei de minha voz. O que está acontecendo? Ai... Minha mão.
O que é isso? Alguém está vindo. Escuto passos nessa terra e está próximo a mim. Uma bota.

- "Tirem esse infeliz do caminho! Quase provoca um acidente e me derruba do cavalo. Joguem-no naquele canto!"

Sinto mãos me pegando. Estão me carregando, mas por que não me ajudam? O que irão fazer? Ohhhhh... Minha cabeça! Seus animais! Me ajudem! Me ajudem!
Sinto vontade de chorar, mas não consigo. Não tenho lágrimas. Meus olhos ardem, estão secos e doloridos.

Eles foram embora. Escuto ao longe o som dos cavalos.
Me deixaram de barriga para cima. Agora vejo uma árvore ou o que um dia pode ter sido uma. Vejo apenas galhos secos e retorcidos. Alguma coisa está se mexendo no galho de cima. Com certeza um bicho. Talvez uma cobra. Ela está descendo! Oh... Preciso sair daqui. Não posso! Não consigo!
Sinto o suor escorrendo por meu rosto. Uma gota entrou nos meus olhos e agora ardem como nunca. Ela está descendo... Onde? Onde está? Pra onde ela foi? Não a vejo mais... Deve ter ido embora. Talvez não tenha me visto.
Suspiro aliviado.

Suspiro? Isso é bom! Estou sentindo meu peito se mexer agora. Estou respirando. Sinto minha respiração. Vejo minha barriga subindo e descendo em um movimento suave. Minha mão esquerda ainda dói muito e os dedos que antes estavam tentando se mover, agora parecem esmagados. Não os vejo mais, mas é a impressão que tenho. Estão latejando. Talvez estejam sangrando. Minha mão direita não está mais dormente e quase posso levantá-la.
Espere... Tem alguma coisa gelada passando sobre o meu corpo. Oh não! Deve ser a cobra... A cobra. Sim, é ela! Estou vendo-a rastejando sobre minha barriga. Estou perdido. Oh! Ela está vindo. Meu rosto! Meu rosto não! Fechei os olhos.

Mas... Mas o quê? Não a sinto mais sobre mim. Abri meus olhos. Não a vejo mais. E agora sinto melhor a minha mão direita. Consegui levantar o braço. Ela está bem. Minha mão está bem! Ah, minhas costas!
Espere... Movi a cabeça. Estou me mexendo. Vou tentar ficar sentado.

Que lugar é esse? Ainda vejo névoa, névoa e névoa por todo lado. Minha mão esquerda está mesmo muito machucada. Lateja muito e dói demais. Estou nu. Só agora percebi.
Será que consigo andar? Mas pra onde vou? Para onde olho vejo apenas névoa. Melhor ficar aqui até o tempo melhorar. Mas e se não melhorar?

Hã? Estou escutando novamente o som de cavalos. E algo... Algo metálico também. Estão se aproximando. Dessa vez estou protegido... Eu acho. Ai, como dói a minha mão.

- "Ho! Parem! Parem os cavalos! Vejam! Um desgarrado. Por certo caiu do transporte. Peguem-no!"

Esperem! Esperem!... Minha voz não sai! Não sai! Ahhhh.... Minhas costas! Tenham cuidado! Ahhh... Quem são vocês? Por que minha voz não sai?
Uhhh! Me jogaram dentro de uma carroça. Bati minha cabeça de novo. Estou um pouco tonto e vendo tudo embaçado. Tem mais alguém aqui comigo. Vejo um vulto... Acho... Minha visão está voltando. É uma mulher! Sim, com certeza é uma mulher. Está toda suja e... Nua. Também está nua e eu... Agora vejo que estou na mesma situação. Estou imundo. Cheio de terra. Não consigo falar...
Ela está tateando o ar. É cega. Deve ser. Parece ter um rosto tão bonito, que mesmo toda suja percebe-se.

- "Quem é você?" - ela me perguntou. Mas não consigo responder.
- "Onde está você?" - ela está tateando ao redor, me procurando. Peguei suas mãos. Ela está segurando meus braços e me tocando. Está passando as mãos em meu rosto. Ela mantém os olhos fechados. Está passando as mãos em meu rosto ainda. Meus olhos, minha boca... Está descendo para o pescoço.

- "Oh! Você? É Você? Mas como? Você está... " - ela se calou assim que um chicote feriu-a no rosto. O cocheiro. Ela parece estar apavorada. Se virou, tentou se afastar de mim, mas esbarrou na lateral da carroça. Peguei em seu braço mas ela recuou. O que terá feito ela se assustar assim? E como ela me conhece? Ela me conhece, ao que parece. Mas eu não me lembro dela. A carroça sacode. Olho para baixo e vejo sangue em minha barriga. Estou sangrando! Minha mão... Mas... Não... Não é minha mão. Meu peito está coberto de sangue. Estou procurando algum ferimento, mas não há nada no peito. Minha voz... Oh, será? Minha garganta... Oh! Minha garganta está cortada! Tem muito sangue. Por isso não consig... Mas como ainda estou vivo? Isso não pode estar acontecendo.
Ela está chorando. Está movendo os lábios. Parece querer me contar algo sem que o cocheiro escute. Ela está dizendo... Está... "Você... Está morto. Está morto. Eu te matei!"
O quê? Mas como? Que lugar é esse? Me desesperei e me levantei. O cocheiro me socou e cai novamente dentro da carroça. Escuto vozes. Muitas vozes. São gritos. Gritos! Gritos! Parem! Parem com esses gritos insuportáveis! Oh... Vejo um clarão... Não. São luzes piscando... Estou vendo...
Sou eu. Estou me vendo. O que... Mas é a mulher que está comigo. Ela não está cega. Eu a vejo deitada. Estou sobre ela, mas não me lembro disso. Eu não me... Oh não! Agora sim... Me recordo. Ela estava no parque. Eu tentei assaltá-la. Ela tirou um punhal da bolsa. A única reação que tive foi enfiar meus dedos em seus olhos e esmagá-los. Minha garganta! Minha garganta... Ahhhhhh.... Dor, muita dor! Minha garganta...

A carroça parou.

Correntes. Névoa. Vejo pessoas sem olhos. Buracos negros em seus olhos. Sangue e algo negro e viscoso escorrendo das cavidades. Elas têm facas nas mãos. Estão se aproximando de mim. Nãaaaao! Arrrghhhh... Minha garganta! Minha garganta!
Aquela mulher! Ela está parada e olhando pra mim. Seus olhos estão abertos agora e ela me vê. Ela pode me ver agora. Está rindo. Ela ri de mim, da minha dor.

Ela seguiu por aquele caminho. Foi embora. E não está mais chorando.

Comentários  

0 #1 muito doidorock_na_veia 11-02-2005 14:01
Essa historia é muito estranha mas irada. adoro historias desse tipo. :D
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0 #2 Sobre o texto "Caminhos"Rita 12-02-2005 21:21
Oi, Guardião! :-)

Dizer que gostei é muito pouco, porque eu gostei muito mesmo!
Está narrado em primeira pessoal, uma técnica que me agrada demais e tem esse jeito subjetivo de contar a história que você está usando, o que causa um efeito muito interessante, porque exige do leitor/a mais atenção e o/a estimula a se indagar mais sobre o texto, a pensar mais, portanto. Eu resumo, parabéns.
Rita Maria Felix da Silva.
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0 #3 cada vez melhor!!!!vanessa 15-02-2005 21:13
adorei.... como sempre vc se superou. Parabens pelo conto, continue sempre, pois vc é muito criativo..
beijos....
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0 #4 Ótima idéia!circulodecronicas 18-02-2005 06:44
Rapaz, realmente você teve uma idéia muito boa para este texto. Bons textos são gerados de boas idéias. O ambiente é onírico e vai aos poucos se revelando. Dante gostaria de ler este texto. A idéia de imobilidade e a verdade final a respeito da ausência da capacidade de fala foi genial. Gostei bastante da forma de apresentação. Ponto pra você.

Parabéns!

Richard Diegues
www.circulodecronicas.com
http://necrozine.blogspot.com
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0 #5 camila fernandes 28-02-2005 12:41
Texto delirante, instigante, lentamente revelador. Puro mistério. Preciso ler seus outros contos!
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0 #6 Caminhosevil 13-03-2005 04:36
kara... sinistro! gostei,não... adorei... não... amei... muuito foda!!!!!esse texto é xa-pa-do!!!!!
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0 #7 Viajeirom 27-08-2005 18:03
O bom texto é aquele que vc pode visualizar a cena sem grande esforço mental e esse teu texto foi o que meu filho chama de "IRADO", gostei demais, o tempo correto do suspense, li seu texto anterior "Caminhos" e digo que vc nasceu pra literatura de suspense vá fundo
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Contos Estronhos - Contos e Crônicas