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Aqui vai a segunda parte da minha matéria "HORROR: Esta estranha Hidra" que visa a explicação de alguns subgêneros do estilo mais marginal do cinema. Todas as matérias postadas aqui terão suas fontes apresentadas na terceira (e última) parte deste post que seguiu a máxima "copiar uma coisa é plágio; várias é pesquisa".

Boa leitura.

[ leia também: PARTE 1 - PEQUENA HISTÓRIA DO HORROR NO CINEMA ]
[ leia também: PARTE 3 - RESUMO DOS SUBGÊNEROS DO CINEMA DE HORROR ]


PARTE 2 - E O GÊNERO HORROR AVANÇA PELAS DÉCADAS SEGUINTES

A década de 40 foi horrível para o filão, talvez eclipsado pelos terrores reais e pungentes criados pelas mãos dos homens que combatiam na Segunda Guerra Mundial. Porém nos anos 50, um estúdio inglês sem muitos recursos inovou na área, fazendo releituras dinâmicas dos clássicos criados duas décadas antes pela Universal. Foi nos experimentais estúdios da Hammer que o Drácula de Bram Stoker conheceu seu melhor intérprete: Christopher Lee. O filme “O Vampiro da Noite” (1958) fez tanto sucesso que obteve muitas seqüências e cópias descaradas ao longo da década. Um ano depois um criativo diretor chamado William Castle inovava ao inserir esqueletos que caíam em cima do público nos cinemas, nas exibições de seus filmes, sendo o seu melhor trabalho: “A Casa dos Maus Espíritos” (1959), com Vincent Price participando deste ótimo conto sobre casas mal assombradas. Era uma produção barata, mas devido ao seu grande sucesso, serviu de inspiração ao genial Alfred Hitchcock ao realizar no ano seguinte seu “modesto” Psicose. Além da famosa cena do chuveiro, que ainda mantém seu efeito, o filme trouxe o terror mais próximo ao público que apreciava os filmes de arte, fazendo com que os críticos da época dessem o braço a torcer, elogiando as múltiplas possibilidades que o filão ofertava, quando em mãos hábeis e talentosas.

Na Itália, um ícone chamado Mario Bava criava sua obra prima “Black Sunday -Máscara de Satã” (1960), utilizando os olhos expressivos de sua musa Bárbara Steele para contar um gótico conto sobre vampirismo. Já na Polônia, o diretor Jerzy Kawalerowicz explorava o polêmico caso real das freiras possuídas pelo demônio no século 17 em um convento francês em “Madre Joana dos Anjos” (1961), com a obra ganhou o prêmio especial do júri em Cannes. Ao longo da década de 60, o terror foi se fortalecendo nas mãos de criadores talentosos, em projetos originais como “O que terá Acontecido a Baby Jane?” (Robert Aldrich), “Black Sabbath - As Três Máscaras do Terror” (Mario Bava), “Os Pássaros” (Hitchcock), “Repulsa ao Sexo” (Roman Polanski) e o nosso produto de exportação Zé do Caixão em “À Meia noite Levarei sua Alma”. Mas dois filmes, já no final da década, foram os responsáveis pelo amadurecimento do gênero que se transformaria nos anos seguintes definitivamente em algo, não só a se temer, como a se respeitar! A obra prima de Roman Polanski “O Bebê de Rosemary”(1968) e o audacioso “A Noite dos Mortos Vivos” (1968) de George Romero.

A década de 70 criou obras primas irretocáveis como “O Exorcista”(1973), “A Profecia”(1976), “Alien – O Oitavo Passageiro” (1979), tratados de originalidade e subversão como “ O Homem de Palha”(1973), “O Massacre da Serra Elétrica”(1974), “Halloween” (1978), “Tubarão” (1975), “Prelúdio para Matar”(1975), “Carrie”(1976), “Suspiria”(1977), “Terror em Amityville”(1979) e gemas menores, mas extremamente divertidas como “O Homem Cobra”(1973), “A Sentinela dos Malditos”(1977) e “Zombi 2”(1979). Em 1979, o diretor italiano Ruggero Deodato caminhou na tênue linha que separa o aceitável e o puro grotesco na polêmica obra “Cannibal Holocaust”, onde nos fazia visitar o inferno verde, as selvas Amazônicas e seus canibais estereotipados. Na tentativa de tornar a experiência o mais chocante possível, mostrou cenas reais de mortes de animais. Funcionou tão bem que o diretor teve que se explicar em julgamento, pois todos acreditavam que os atores também haviam sido mortos de verdade em cena. Uma obra difícil e , de todas as maneiras possíveis, inesquecível.

Os anos 80 foram prolíficos e utilizaram o terror “ad nauseum” em obras nem sempre memoráveis, mas que preenchiam a falta de recursos com altas doses de humor e originalidade. Filmes como “Sexta Feira 13”(1980) e suas seqüências capitalizavam em cima do tema de assassinos seriais, trazido à tona em 78 com Halloween de John Carpenter. A partir do segundo filme da série o mundo conheceu Jason Vorhees, o primeiro assassino pop da história! Outro que obteve muita popularidade na década foi o maníaco Freddy Krueger, criado por Wes Craven no ótimo “A Hora do Pesadelo”(1984), que foi transformado ao longo de seis continuações, em uma sátira de si mesmo. O humor marcava forte presença também em “Um Lobisomem Americano em Londres”( 1981) de John Landis, até hoje considerado o melhor filme a abordar a licantropia. Outros projetos como “Gremlins”, “Criaturas”, “A Coisa”, “Bala de Prata”, “Os Garotos Perdidos”, “Brinquedo Assassino”, “Poltergeist”, “A Hora do Espanto” e “A Morte do Demônio” apostaram alto na aventura e no humor porém sem esquecer a essência corajosa e subversiva do gênero.

Nem só de filmes de terror bonzinhos foram feitos os anos 80, houve espaço também para temas sombrios e adultos, como em “O Iluminado”(de Stanley Kubrick), “A Troca” (1980), “Possessão”(1981), “O Enigma de Outro Mundo”(1982), “A Mosca” (1986), “Os Olhos da Cidade são Meus” (1987), “Coração Satânico” (1987), “Veludo Azul”(1986) e o genial “Hellraiser” (1987).

Após uma superexposição do horror nos anos 80, o início dos anos 90 trouxe poucos filmes memoráveis, mas vale salientar no período o retorno do escritor William Peter Blatty ao tema que o consagrou em “O Exorcista 3”( que dirigiu, baseado em seu livro: Legião), um ótimo suspense com toques de horror: “Louca Obsessão”, com uma premiada Kathy Bates, baseado em livro de Stephen King. O horror veio disfarçado de suspense nos ótimos “Cabo do Medo” (Martin Scorsese), “Seven”(David Fincher), “Advogado do Diabo”e “O Silêncio dos Inocentes” ( o único filme do gênero até hoje a levar o prêmio principal no Oscar), que imortalizou o aristocrático canibal Hannibal Lecter, em um perfeito trabalho de Anthony Hopkins. O vampirismo obteve sua melhor transposição em “Entrevista com o Vampiro”(1994), baseado em obra de Anne Rice.

Os melhores filmes de terror no estilo clássico que podemos destacar na época foram “Fome Animal”(1992) de um ainda desconhecido à época Peter Jackson e a injustamente pouco conhecida produção da Full Moon: “O Castelo Maldito” (1995) de Stuart Gordon.

A reinvenção do gênero aconteceu no final da década e do outro lado do mundo, com a obra prima japonesa “Ringu – O Chamado”(1998), que logo foi copiada pelos americanos em um remake desnecessário. Os americanos quando tentam copiar, quase sempre obtém resultados péssimos, porém quando dois jovens decidiram prestar sua homenagem ao polêmico “Cannibal Holocaust”, criaram “A Bruxa de Blair” (1999). Utilizando-se das ferramentas modernas de marketing na Internet, os realizadores incitaram a impressão de que o que se via na tela era algo real, criando assim um fenômeno mundial que inventou uma nova maneira de filmar, utilizando a câmera na mão, em movimentos trôpegos e nauseantes, mas que transmitiram um senso de realidade inédito. No mesmo ano outro fenômeno mundial assolou o cinema de terror, alçando o nome do diretor M. Night Shyamalan ao posto dos mais bem sucedidos criadores da América e provável sucessor de Hitchcock (o que atualmente se provou ser uma afirmação bastante precipitada!). “O Sexto Sentido” trazia uma história com toques de sobrenatural e mistério que cativou o público ao redor do mundo, ajudado em muito pela interpretação convincente de um jovem Haley Joel Osment. No mesmo clima veio o excelente “Os Outros” de Alejandro Amenábar, que trazia Nicole Kidman como a protagonista de um conto aterrador sobre assombrações.

Esta última década se mostrou relativamente fraca em quantidade, porém com ótimas obras esparsas como “Extermínio”(de Danny Boyle), “Arrasta-me para o Inferno”, o sueco “Deixa Ela Entrar” e o primeiro “Jogos Mortais”, que infelizmente já se encontra na quinta seqüência, cada uma mais fraca que a outra e justificando a má fama que persegue o gênero desde sua criação. Infelizmente a regra atual no terror é essa, se os estrangeiros criam algo maravilhoso, os americanos se apressam em copiar quadro a quadro e lançarem no cinema. Gemas como o japonês “Espíritos – a Morte está a seu lado”(2004) transformam-se em sucatas infinitamente inferiores e desnecessárias como “Imagens do Além”, que são consumidas vorazmente pelos jovens do mundo todo. Os espanhóis criaram o maravilhoso [REC], os americanos vieram em seguida e recriaram frame a frame a obra no péssimo “Quarentena”, assim como o maravilhoso e também espanhol “O Orfanato” já está com um remake americano em pré-produção.

O quadro atual do gênero é esse, obras maravilhosas são destrinchadas e “mastigadas” para um público pouco seletivo e preguiçoso. Os verdadeiros fãs do terror esperam ansiosamente novos caminhos, neste que sempre foi um filão que, por necessidade natural, teve que se reinventar e renascer das cinzas muitas vezes ao longo das décadas.


Continua...


[ leia também: PARTE 1 - PEQUENA HISTÓRIA DO HORROR NO CINEMA ]
[ leia também: PARTE 3 - RESUMO DOS SUBGÊNEROS DO CINEMA DE HORROR ]

Por Iam "Gore" Godoy



Comentários  

+1 #1 RE: O Horror, essa estranha hidra - Parte 2Anderson 19-09-2012 18:03
Adorei o artigo. Só discordo quanto ao "Arrasta-me para o Inferno". Achei muito fraco. O bom do filme é que ele é bem tenso, mas, por outro lado, é muito apelativo.
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+2 #2 RE: O Horror, essa estranha hidra - Parte 2Gustavo Ribeiro 20-09-2012 17:47
Gostei do texto, bem abrangente. Boas menções a Mario Bava, um mestre geralmente eclipsado por Dario Argento e a William Castle, um picareta muito divertido e um dos meus diretores preferidos de terror. Aliás, há muitos favoritos pessoais nesse artigo: Prelúdio Para Matar, A Troca, Os Olhos da Cidade são Meus, Fome Animal, Deixa Ela Entrar, REC. Só estranhei Re-Animator não ter sido citado, esse marcou época. Ou The Repossessed (Renascido das Trevas), uma ótima adaptação de H. P. Lovecraft. Mas seria impossível lembrar de todos os filmes, não é? Parabéns pelo artigo e que venha o próximo!
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Coluna Sangria

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